Retrato de uma família
estilhaçada
Sexo, poder e dinheiro: a fórmula
explosiva
que conduziu às denúncias contra Celso Pitta
Daniela Pinheiro
São duas as atitudes mais freqüentes nas pessoas
que se envolvem em esquemas como esse que corrói
as entranhas do poder de São Paulo. O silêncio
e a locupletação. Não foi o caminho
escolhido por Nicéa Pitta. Embora tenha presenciado
cenas de maracutaias, a ex-primeira-dama municipal optou
por abrir mão de uma vida financeiramente promissora
para mergulhar no inferno. Deixou para trás a paparicação
das senhoras da alta sociedade, dos ambientes de luxo, dos
empresários, dos lobistas, das viagens internacionais,
dos presentes caros e do dinheiro fácil. Vai agora
enfrentar incontáveis processos por calúnia,
injúria e difamação movidos por gente
atingida pelas denúncias que fez contra a administração
do marido e os vereadores da cidade. Na semana passada,
já eram quatro os processos contra ela. Vai ser pedagógico
analisar o impacto das denúncias de Nicéa
sobre o futuro da política paulista. Tão interessante
quanto isso é conhecer as razões que levam
uma pessoa a romper com o próprio passado. No caso
de Nicéa, a decisão de fazer a denúncia
mistura aqueles três reagentes que, uma vez combinados,
formam uma solução explosiva: dinheiro, poder
e sexo.
Reuters
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Os Pitta levavam uma vida de fartura, que veio à
tona numa seqüência de denúncias. Como
prefeito, ele tem direito a um salário de 6.500
reais, mas sua família vive como se a renda doméstica
fosse seis vezes maior. É isso mesmo: 40.000
reais por mês. Façam-se as contas. Em 1998,
acusado de ter realizado negócios lesivos à
cidade quando era secretário das Finanças
de Paulo Maluf, ficou com os bens indisponíveis por
força de uma decisão judicial. Socorreu-se
com um empresário amigo. "Ele disse que estava em
dificuldades financeiras e me pediu ajuda", afirma o empresário
em questão, Jorge Yunes, dono da Companhia Editora
Nacional. Yunes lhe emprestou 600.000
reais. Não foi o bastante. Seguiu-se outro empréstimo,
de 200.000 reais. O empresário
também deu uma assistência a Nicéa.
Durante dois anos, ela recebeu mesada como se lhe prestasse
serviços de consultoria no mercado de arte. Indicava
pessoas que tinham peças para vender. Ele lhe pagou,
em 1998, 150.000 reais. Yunes
informa ter usado seus serviços uma ou duas vezes.
Para que os números fiquem mais claros: os Pitta
devem a Yunes quase 1 milhão de reais, sem contar
os juros.
Vinte milhões na conta –
O prefeito não vê nada de errado nessa
situação, o que é fabuloso. Tão
incrível quanto isso é a eterna disposição
de Yunes em financiar o prefeito. "Eu não poderia deixar
de atender um amigo", explica. Yunes é dono de uma
das mais suntuosas propriedades de São Paulo, um palácio
com 4.000 metros de área
construída. Erguida na década de 30, ficou conhecida
como Casa da Manchete depois de ser comprada por Adolpho Bloch.
Foi ali que, em 1976, o ex-presidente Juscelino Kubitschek
dormiu sua última noite. Em seu palácio, Yunes
possui um dos mais significativos acervos de arte do país,
com cerca de 1.400 quadros. Tem
tanto dinheiro que, apenas num banco, o Banco do Brasil, mantém
20 milhões de reais. Yunes é braço do
esquema político de Paulo Maluf e foi caixa da campanha
de Celso Pitta. Procurado sistematicamente por empresários
em busca de contato com o gabinete do prefeito, Yunes informa
que ouve todos os pleitos, mas só dá curso a
pedidos honestos. Certa vez, recebeu a visita de empresários
do setor de transportes, que têm uma dívida a
receber da prefeitura no valor de 1 bilhão de reais.
Como o dinheiro não saía, ofereciam um estímulo
aos cofres públicos: 30% de desconto. Yunes achou o
pedido honesto e levou o caso a Pitta. "Fiz apenas uma consulta
ao prefeito, havia várias testemunhas e Pitta disse
que não faria o negócio", recorda-se Yunes.
Paulo Pinto/AE
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O empresário
Jorge Yunes:
1 milhão de reais para Pitta
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O prefeito promete pagar o que deve a Yunes, centavo por
centavo. Como todo o seu patrimônio declarado não
chega a 1 milhão de reais, é de se perguntar
com que dinheiro ele vai honrar os pagamentos. Ele explica:
"Quando sair da prefeitura certamente não terei um
emprego de apenas 6.000 reais.
Daí, vou pagá-lo". Como se vê, o casal
não precisou se preocupar com dinheiro desde que
entrou na vida pública. Tudo mudou na hora da separação.
Segundo o relato de Nicéa, Pitta lhe ofereceu um
acordo financeiro generoso "por baixo dos panos". O prefeito
desmente e alega que o pedido de dinheiro partiu de sua
ex-mulher. Os dois confirmam que o último encontro
que tiveram ocorreu no sábado de Carnaval, no flat
onde mora o prefeito. Ele foi testemunhado pela empregada
Maria Fernanda dos Santos, 64 anos, que trabalhava na casa
dos Pitta e se mudou com o prefeito para o flat. "Quando
ele abriu a porta, dona Nicéa jogou uma sacola com
um pijama velho na cara dele e ficou gritando: 'Negro safado,
toma aí o que você esqueceu na minha casa.
Eu não quero nada seu, eu só quero o meu dinheiro,
safado. E eu quero muito dinheiro. Eu não vou te
deixar em paz!'.", conta ela.
O casal não chegou a um acordo. Pitta diz a amigos
que foi isso que motivou a entrevista com as denúncias
da ex-mulher à televisão.
Disputa pelo poder –
Dias antes do depoimento levado à TV, o filho do
prefeito, Victor, foi procurar o pai na prefeitura e também
tratou de dinheiro. Exigiu que lhe fossem entregues 150.000
reais. "Mas por que um garoto da sua idade (Victor tem
25 anos) precisa de tanto dinheiro?", perguntou o prefeito.
Diante da resistência do pai em dar o que ele pedia,
Victor teve um acesso de fúria testemunhado por várias
pessoas e quebrou objetos de uma sala contígua ao
gabinete. Para evitar que a cena se repetisse, Pitta ordenou
à segurança que proibisse a entrada do filho
na prefeitura.
Montagem de Fabio Victor
sobre foto de
Egberto Nogueira
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| O clã dos Pitta: lar desestruturado,
ofensas pessoais e agressões físicas |
Embora o casamento de Pitta e Nicéa só fosse
explodir recentemente, chamava a atenção a
forma como o casal divergia na política. Ela nunca
se conformou em ser "apenas" uma primeira-dama. Queria mandar.
Ligava para secretários fazendo pedidos. Tinha sua
própria lista de nomeações, cobrava
do marido a demissão de assessores e queria dar orientações
partidárias. Uma de suas cobranças mais freqüentes
era em relação a um rompimento com Paulo Maluf.
Pitta, por sua vez, jamais aceitou que ela desse as cartas.
Os dois alimentavam uma disputa pelo poder. O ambiente se
agravou em agosto do ano passado, quando Pitta trocou a
direção da entidade que cuida da assistência
social sem consultá-la. Fez isso sabendo que Nicéa
queria ela própria ocupar o posto. A decisão
fez com que a ex-primeira-dama se mudasse para Nova York,
onde ficou quatro meses em companhia da filha, Roberta.
De lá, passou a bombardear o marido em seguidas entrevistas.
Numa delas, chamou Pitta de "mesquinho" e "egoísta"
e o acusou de ser mulherengo. Para quem já havia
dito que daria a própria vida para provar a honestidade
do marido, foi uma mudança e tanto.
Mônica sem charuto –
O fantasma da traição sempre perturbou
o imaginário de Nicéa Pitta, desde o namoro.
O prefeito dá razões para isso. É um
homem atraente, elegante e educadíssimo. E sempre
exerceu certo fascínio nas mulheres. Nicéa
tem convicção de que Pitta viveu várias
aventuras amorosas e já contou aos filhos que, como
resultado de um desses relacionamentos, o prefeito teria
tido dois outros filhos. Na semana passada, uma onda de
boatos dizia que o prefeito teria viajado a Paris no Carnaval
em companhia de uma loira. Viajar, não viajou. Mas
jantou com uma, muito famosa na sociedade paulistana, num
dos restaurantes mais estrelados da cidade, La Tour d'Argent.
Lá, uma refeição para dois não
sai por menos de 500 dólares. Foi Pitta (ops, Yunes)
quem pagou a conta. A loira em questão é Marina
de Sabrit, 47 anos, 1,75 metro, 66 quilos, casada. "Ainda
bem que meu marido é francês e não tem
essa cabeça mesquinha de macho brasileiro. Ele sabe
que fui jantar com um amigo", diz. Pitta e Marina haviam
se encontrado em duas ocasiões. Neo-solteiro, o prefeito
esteve em dezembro do ano passado numa festa-surpresa para
a socialite. Depois, ligou e convidou-a para almoçar.
Temendo ser alvo de fofocas, levou um amigo. Nesse almoço,
Marina contou que viajaria a Paris. Pitta soltou a frase:
"Que coincidência..." E contou que também estaria
por lá para um encontro de prefeitos.
Existe outra loira na vida do prefeito, de quem Nicéa
sempre desconfiou: sua secretária particular, Marlene
Beteghelli. Aos 44 anos, 1,76 metro de altura, 59 quilos,
ex-miss Araras (cidade do interior paulista), Marlene é
a faz-tudo do prefeito. Pelo menos uma vez por semana, vai
ao flat onde Pitta mora. Foi ela quem ajudou na decoração
e arrumou as roupas do prefeito no armário. "Não
sou namorada dele e não sei de onde tiraram essa
história", afirma. Aos amigos, Pitta diz que não
tem loira alguma no pedaço. "Por que não pode
ser morena?", brinca. Pode. Pitta andou de paparico com
uma morenaça chamada Mônica Ribas Maino, 33
anos, 1,65 metro, 56 quilos. Quando perguntam sua profissão,
responde rápido: professora e psicóloga. Mônica
foi várias vezes ao gabinete do prefeito, mas garante
que nunca houve nada além de longas conversas. "O
gabinete não é o Salão Oval e lá
não tinha charutos", diz a brincalhona.
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Eduardo Albarello

Claudio Rossi
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Antonio Milena
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| No sentido
horário, a socialite Marina de Sabrit, com quem
Pitta jantou em Paris,
a secretária Marlene Beteghalli, que arruma seus
guarda-roupas e ajudou na decoração do
flat, e a professora Mônica Ribas: bonitas e atraentes,
elas negam envolvimento com o prefeito |
Essa composição química envolvendo
dinheiro, poder e sexo atuou sobre um relacionamento fragilizado.
Como todo casamento, os Pitta atravessaram diversos altos
e baixos. O que incomodava os dois era a intensidade em
que isso acontecia nos últimos tempos. As sucessivas
denúncias de corrupção na prefeitura
levaram a crise para dentro de casa. É normal que
problemas graves no ambiente de trabalho conduzam a uma
crise doméstica. Há estudos sobre o impacto
negativo da demissão e da falência na vida
conjugal. Em raras ocasiões, como aconteceu com Fernando
Collor e Rosane, o casal se une na crise. No caso dos Pitta,
conforme as denúncias avançavam, o clima tornou-se
irrespirável. "Eu ligava a TV e via meu nome na lama
e não era defendida por meu marido", disse Nicéa,
numa entrevista dada no final do ano passado. "Tive meus
filhos me apoiando, senão, sei lá, poderia
até ter me matado." Embora seu temperamento seja
o oposto do de Nicéa, o fleumático prefeito
analisa os episódios sob o mesmo prisma da ex-mulher.
"Eu ficava até altas horas na prefeitura e quando
chegava em casa ainda escutava broncas da minha mulher,
dizendo que errei aqui, que errei ali. Foi ficando insuportável",
contou a um interlocutor na semana passada.
Ricardo Benichio
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Maria José
e Maria Fernanda: testemunhas das brigas do casal
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Brigas feias – O carinho
deu lugar à distância. A vida sexual, que era
mantida numa média de três relações
por semana, desapareceu. O respeito foi substituído
por ofensas de ordem pessoal. Em mais de uma discussão,
Pitta chamou sua mulher de "louca". Nicéa respondia
com "idiota". Numa das brigas, Nicéa jogou um vaso
de porcelana chinesa no marido. Em outra, um castiçal
de prata portuguesa. Felizmente, errou. Nos últimos
tempos, o grau de desgaste era tamanho que já não
mediam mais as palavras. "Ajoelha e pede perdão!",
disse Nicéa numa dessas brigas. Os filhos não
suportavam mais as discussões. Em certa ocasião,
na tentativa desesperada de acabar com os gritos, Victor
disse que se suicidaria. O pai estava em Brasília
e a mãe ameaçava segui-lo para fazer um escândalo.
"O Victor foi para o quarto e ficou gritando que estava
com a arma do pai apontada para a cabeça. E que,
se a mãe dele fizesse alguma coisa, ele se dava um
tiro", afirma a empregada Maria Fernanda dos Santos, que
presenciou a cena. Muitas das discussões foram testemunhadas
por Maria Fernanda e por sua colega Maria José de
Melo, de 47 anos. Na discussão final, a que fez o
prefeito tomar a decisão de sair de casa, Nicéa
ameaçou cortar todas as mangas e pernas de seus ternos.
"Essa mulher quer me deixar só de cuecas", disse
Pitta a um amigo. Mudou-se levando quase todos os seus ternos
– intactos.
Maria José recorda-se de uma briga marcante: em
que Nicéa trancou Pitta no apartamento. "Ela levou
todas as chaves e ele teve de sair pela janela. O doutor
Celso pulou da janela do 1º andar", conta. O pedido
de separação deu entrada na Justiça
em 9 de novembro do ano passado. A tempestade pública
só ocorreria em março. Demorou, mas explodiu
com o fulgor de raios e o ribombar de trovões. Comprovando,
mais uma vez, a verdade daquela famosa citação:
"O céu não conhece ira como a do amor transformado
em ódio nem o inferno fúria como a da mulher
desprezada".
Com reportagem de
Alecsandra Zaparolli, Fabio Schivartche,
Iracy Paulina e Ricardo Valladares