Edição 1 641 - 22/3/2000

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O malufismo afunda

As denúncias de uma rede de corrupção
em São Paulo convencem a opinião pública
e abalam um velho modelo político

Arnaldo Klajn / Ivani Ribeiro

As denúncias de Nicéa Pitta sobre um formidável esquema de corrupção, envolvendo figurões da política paulista, inclusive seu ex-marido, o prefeito Celso Pitta, permitem algumas conclusões iniciais:

1. Parte do que Nicéa disse já se sabia. Outra parte já era objeto de suspeita de qualquer pessoa com um mínimo de malícia. A novidade está nos detalhes que ela forneceu sobre o funcionamento do cartel da corrupção e na relação de nomes que aponta como participantes do esquema.

2. As denúncias de Nicéa, um tanto confusas, não foram acompanhadas de provas documentais. Têm porém um poder de convencimento muito forte para a opinião pública. Afinal, a acusadora compartilhou com o prefeito Pitta não apenas a cama, a mesa e o talão de cheques. Nicéa também se beneficiou financeiramente do arranjo que denuncia.

3. A perturbação emocional da ex-primeira-dama, que foi abandonada pelo marido e se enfureceu com suspeitas de que ele andava saindo com uma loira muito mais nova, pode ter contribuído para exacerbar as denúncias, mas não significa necessariamente que ela tenha inventado histórias inteiras só para se vingar do ex-cônjuge. Nos círculos ligados ao prefeito Celso Pitta e a seu padrinho político, Paulo Maluf, tenta-se explicar as denúncias como simples resultado da alteração mental de Nicéa. O público pensa de outra forma. Segundo as pesquisas divulgadas na semana passada, 57% dos paulistanos acham que Nicéa participava do esquema de corrupção, 79% acreditam que Paulo Maluf também está envolvido, e nada menos que 82% dos entrevistados estão convencidos de que o prefeito Celso Pitta fez tudo aquilo que Nicéa disse que ele fez. Vistas as coisas de outra maneira: apenas 2% da população de São Paulo considera que o Executivo municipal é honesto.

Percebe-se, com base nesses números, que as acusações de Nicéa Pitta, digam o que disserem os atingidos por suas revelações, tiveram um impacto terrível na opinião pública. Como no caso das denúncias de Pedro Collor sobre o irmão presidente e o tesoureiro PC Farias, o desabafo de Nicéa, vindo de uma pessoa íntima do principal acusado, conseguiu solidificar um julgamento que já era desfavorável ao prefeito, aos vereadores e a outras autoridades paulistas. O que pensar, afinal, de um prefeito que é sustentado por um milionário, o editor Jorge Yunes, desde que seus bens foram bloqueados na Justiça num processo cujo enredo é a malversação de dinheiro público? Entre os casos de corrupção denunciados no Brasil, há diversos de porte respeitável. Mas em nenhum se organizou uma teia tão vasta de beneficiários como a descrita por Nicéa Pitta. Essa rede organizada de cobrança e pagamentos alcançaria do fiscal de camelôs a vereadores e empresas, até chegar ao gabinete do prefeito de São Paulo, conforme a acusação frontal mantida pela ex-primeira-dama. "São acusações absolutamente inverídicas, que repetem fatos anteriores amplamente esclarecidos inclusive na Justiça", afirma o prefeito Celso Pitta.


Reuters
Manifestação contra Pitta:
só 2% dos paulistanos acham que a prefeitura é honesta

Desde o primeiro dia de mandato, Pitta enfrenta uma sucessão interminável de escândalos. Criado no laboratório político do ex-governador e ex-prefeito Paulo Salim Maluf para funcionar como um sucessor dócil, ele começou seu governo sob os holofotes de uma CPI do Senado, acusado de desvio de verba pública. Como secretário de Finanças do prefeito Maluf, ele emitiu 3,2 bilhões de reais em títulos públicos, os chamados precatórios, para pagar dívidas da prefeitura. Mas só 1,9 bilhão de reais teve essa destinação. O resto foi torrado ilegalmente com outras coisas. Os dois, Maluf e Pitta, foram responsabilizados na CPI por esse desvio, mas acabaram salvos com uma alteração do texto final da comissão promovida com a ajuda do senador Gilberto Miranda, muito ligado a ambos. O caso teve desdobramentos na Justiça, onde Pitta foi condenado em primeira instância à perda dos direitos políticos por oito anos, decisão de que o prefeito recorreu.

Em São Paulo, ele enfrentou três pedidos de impeachment na Câmara, todos derrubados pelo voto da bancada de vereadores que lhe são fiéis. Passou ainda por duas CPIs municipais. A primeira, aberta para investigar o desvio de verbas na educação, encerrou-se uma semana depois por causa da ação da tropa de choque do prefeito. Numa segunda CPI, que sobreviveu só três meses antes de ser enterrada pelos governistas, revelou-se que vereadores ligados politicamente ao prefeito lideravam uma gangue de funcionários públicos encarregados de achacar camelôs e exigir propinas de comerciantes para expedir alvarás. Desde então, as provas da existência dessa máfia se avolumaram. Dois vereadores e um deputado sofreram cassação, dois vereadores foram parar na cadeia e uma testemunha-chave do achaque, o camelô Gilberto Monteiro da Silva, foi assassinado com quinze tiros na semana passada.

Nos depoimentos que deu, Nicéa afirmou ter presenciado Pitta várias vezes em negociações espúrias na sala de seu próprio apartamento com vereadores, representantes do malufismo e do secretariado municipal. Teria acertado pagamento aos vereadores para que eles votassem a seu favor na Câmara Municipal. "Não há dinheiro que chegue para esses vereadores", seria uma queixa do prefeito à mulher, conforme ela afirmou em suas denúncias sobre o caso. Nicéa acrescenta que Paulo Maluf, mesmo fora do governo, continuou usando a prefeitura — e também Celso Pitta — para acomodar seus interesses. Uma das formas de influência mais notáveis, afirmou, era o uso da máquina pública para contratar aliados do malufismo, que ganhavam sem trabalhar. No ano passado, São Paulo foi presenteada com histórias constrangedoras sobre funcionários fantasmas pagos com dinheiro do contribuinte. Um servidor, chamado pela polícia para prestar depoimento, afirmou que 40% dos empregados da empresa oficial de turismo da cidade, a Anhembi, eram fantasmas. Segundo Nicéa, um dos filhos de Maluf, Flávio, era um dos que faziam visitas freqüentes a sua casa, com listas de nomes que Pitta deveria contratar.


– É, o Municipal de São Paulo saiu na frente na comemoração dos 500 anos...

Na história recente, são raros os casos de denúncia, apuração e julgamento pela opinião pública com desenvolvimento tão completo quanto este de São Paulo. Ainda falta muito para chegar ao fim, mesmo porque as acusações de Nicéa Pitta, não circunstanciadas por provas objetivas, estão longe de permitir uma conclusão definitiva. Em vez disso, quase todos os acusados afirmam que ela está desequilibrada e que vão processá-la. Mas as entranhas de um sistema escandaloso estão sendo exploradas ininterruptamente à luz do dia. "Isso só foi possível como subproduto da democracia que temos hoje no país, da liberdade de imprensa e de uma crescente consciência, por parte da sociedade, de que o dinheiro usado pelo governo não pertence a ele, e sim ao povo", diz o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega. "O Brasil mudou muito." No caso Collor, o irmão Pedro também foi apontado como desequilibrado. Oito meses depois, Fernando, o presidente, deixava o Palácio do Planalto. Pelos sinais emitidos nesse caso da prefeitura e da Câmara de São Paulo, uma novela que vem desfolhando capítulo atrás de capítulo para espanto cada vez maior do eleitor paulistano, é possível que se esteja assistindo ao desmoronamento de um modelo político, o malufismo, que parecia resistente a qualquer ataque.

"O modelo encarnado pelo malufismo, que montou sua estrutura para usar a máquina pública em benefício próprio e de seus aliados, numa mistura de corrupção com incompetência administrativa, sofreu um golpe muito forte, talvez mortal", afirma a cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida, da Universidade de São Paulo. "É um tipo de política que se rompe apenas com revelações chocantes, como já se viu em países tão diferentes como Itália e Coréia do Sul. Acho uma boa aposta não acreditar na sobrevivência do malufismo", diz Maria Hermínia.

Além da envergadura do caso paulista, há uma razão adicional para espanto. Por que ocorre em São Paulo, logo a maior e mais rica metrópole brasileira, um fenômeno tão espantoso de dessincronização entre o lado desenvolvido da cidade e um sistema administrativo e político tão atrasado? Afinal, as relações incestuosas de que se ouve falar, por meio de investigações ou denúncias como as de Nicéa, começam na cobrança de propinas de camelôs que vendem guarda-chuvas chineses por 5 reais no centro da cidade e vão até as altas rodas dos políticos, empresários de ônibus, empreiteiros de obras e construtores. Antes de mais nada, há no horizonte um orçamento público de 7 bilhões de reais. Ao lado disso, existe em São Paulo uma tradição que favorece os líderes demagógicos.

Nos cargos que ocupou, Paulo Maluf conquistou fama de administrador arrojado e grande tocador de obras, o que garantiu sua eleição para a prefeitura em 1992 e a vitória que ele arrancou para Pitta quatro anos mais tarde, graças à gastança desenfreada em projetões de concreto com enorme apelo eleitoral. Faz parte dessa vitrine uma coleção de túneis, viadutos e avenidas que, voltados basicamente para a frota de 4,5 milhões de automóveis de São Paulo, não contribuiu para resolver um dos maiores problemas da cidade: o transporte público precário. Pitta encontrou a prefeitura com o cofre vazio, apenas 59 milhões de reais em caixa, para uma dívida de 7 bilhões. Ao fim de seu primeiro ano de gestão, a cidade parou. Até a varrição de lixo nas ruas foi interrompida porque as empresas encarregadas do serviço deixaram de ser pagas pela prefeitura. Maluf torrou o caixa em obras para eleger Pitta e derrotar a concorrente Luiza Erundina. Depois da eleição, viu-se até que ponto os eleitores haviam sido iludidos com aquela exibição frenética de obras pela cidade.

O malufismo é herdeiro de um tipo de populismo que vicejou em São Paulo depois da Revolução de 1930. Com a industrialização, a cidade passou a receber migrantes pobres em busca de emprego. Desprovida de experiência política, essa massa deixou-se seduzir por dois mestres da demagogia, Adhemar de Barros e Jânio Quadros, que reinaram em São Paulo por um quarto de século, somando-se apenas a duração de seus mandatos de prefeito e governador. "O modelo antiquado e deletério se perpetuou devido ao déficit de participação da classe média, que usa São Paulo para trabalhar e ganhar dinheiro", aponta o cientista político Bolívar Lamounier. "Na sexta-feira à tarde, essa classe média pega o carro e vai viajar, como se dissesse: dane-se a cidade." Segundo ele, a tragédia política de São Paulo é que ela ficou polarizada entre o malufismo e o petismo. "O malufismo é o que se sabe. O petismo, com suas indiscutíveis virtudes éticas, tem uma visão ingênua de administração. Quando chega ao poder, brinca de revolução, perde-se nas suas brigas internas, enquanto a cidade, do mesmo jeito que no malufismo, fica entregue à própria sorte."

 


O camelô que sabia demais

Um dos pilares do escândalo da chamada máfia dos fiscais em São Paulo foi um camelô, assassinado na semana passada. Logo no início das investigações, o vendedor ambulante Gilberto Monteiro da Silva denunciou o primeiro peixe graúdo que seria beneficiado pelos achaques. Ele apontou o dedo na direção do deputado estadual e ex-vereador Hanna Gharib (PPB), que teve o mandato cassado. Na manhã da última quinta-feira, ao chegar à sede da Associação dos Camelôs Independentes de São Paulo, da qual era presidente, Silva foi emboscado e morto. Três homens o aguardavam na porta, com armas na mão, e dispararam quinze tiros contra ele. Dos quatro camelôs que denunciaram Gharib, ele é o segundo a ser morto. Em novembro do ano passado, seu colega Reinaldo Ferreira de Santana havia sido assassinado com um tiro na cabeça. Por meio de uma nota, o deputado cassado negou qualquer envolvimento nos dois casos. Promotores e delegados que investigam a máfia da caixinha estão convencidos de que silenciaram alguém que sabia demais. "Houve queima de arquivo", afirma o promotor Roberto Porto.

L.C. Leite / AE Silva, morto com quinze
tiros: "Você acha que
não vão me detonar?"

Desde que fez suas denúncias, Silva considerava-se um homem marcado. "Você acha que, contando toda uma situação dessas, não vai acontecer nada comigo, não vão me detonar?", comentou numa entrevista a Veja São Paulo. Ele era um dos líderes dos 30.000 marreteiros paulistanos, entre os quais apenas 3.700 têm licença para trabalhar legalmente. Na prática, entre uma batida e outra da prefeitura, todos dão um jeito de ocupar muitas das calçadas mais movimentadas da cidade. Um dos principais pontos é o Viaduto Santa Ifigênia, no centro, que chegou a ter 225 barracas. Chefão do pedaço, Gilberto da Silva recolhia dos ambulantes cerca de 40 000 reais por mês. O dinheiro, segundo afirmou em seu depoimento, servia para pagar sete seguranças e evitar a presença de fiscais, o que conseguiria com contribuições mensais de 15 000 reais para o gabinete de Hanna Gharib. Em janeiro último, num novo depoimento à Polícia Civil, Silva voltou atrás em suas acusações e declarou que nunca havia pago propina a ninguém.

Bruno Weis

 

Fotos Fernando Gardinelli/Arthur Cavaliere/Ronaldo Guimarães/Fernando Vivas/Jader da Rocha/Liane Neves