Edição 1944 . 22 de fevereiro de 2006

Índice
Millôr
Lya Luft
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Auto-retrato
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Cinema
Lá vem ela de novo

Terra Fria reanima uma velha
figura do cinema americano: a
proletária que derrota o sistema


Isabela Boscov

 

Divulgação
As indicadas ao Oscar Frances e Charlize: hora de mudar a receita

A intervalos que variam conforme sopram os ventos do feminismo, Hollywood produz um filme que trata de uma mulher de origem proletária e vida sacrificada que, à custa da própria saúde, combate a injustiça do "sistema". Terra Fria (North Country, Estados Unidos, 2005), que estréia nesta sexta-feira no país, só foge ao padrão estabelecido por Norma Rae (1979), Silkwood (1983) e Erin Brockovich (2000) por não usar o nome da protagonista no título. De resto, a fórmula vem reproduzida na íntegra: uma atriz que é a eminência do momento (aqui, Charlize Theron no posto que já foi, pela ordem, de Sally Field, Meryl Streep e Julia Roberts), uma personagem desacreditada, uma causa que todos dão como perdida e a união desses fatores numa equação que, contra todas as expectativas, termina em vitória. Charlize interpreta Josey Aimes, que no fim dos anos 80 larga o marido violento, volta com os dois filhos para a casa paterna sob olhares gerais de desaprovação e descobre que nunca poderá sustentar os filhos e mandar no próprio nariz. Entra em cena Glory (Frances McDormand), uma mulher durona que sugere a Josey procurar emprego na mina de ferro em que trabalham os homens da região. Os homens, claro, não querem as mulheres por lá, e as desencorajam com métodos que ultrapassam até as definições mais lenientes de abuso sexual. Josey diz basta, vai aos tribunais e enfrenta um julgamento que equivale à demolição pública de seu caráter. Mas, pouco a pouco, ganha a adesão das outras operárias e também a causa.

Josey é uma romantização de Lois Jenson, que em 1984 entrou com uma ação contra uma mina de Minnesota que lhe custaria catorze anos de batalha, três julgamentos excruciantes e um diagnóstico de stress pós-traumático. A iniciativa de Lois resultou na primeira ação coletiva por assédio sexual e estabeleceu uma nova jurisprudência para o tema nos Estados Unidos. Sua história não é coisa pouca, e poderia mesmo render um bom filme. Desde que ele não se acomodasse tão prontamente à tática de manipular a platéia com os personagens indefectíveis do gênero – a amiga doente, o pai que desperta para o valor da filha, o advogado altruísta, o filho rebelde. Infelizmente, é o que faz Terra Fria. Depois de trinta anos requentando esse prato, já está na hora de o cinema americano mudar sua receita.

 
 
 
 
topovoltar