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Cinema Lá
vem ela de novo Terra Fria
reanima uma velha figura do cinema americano: a proletária que
derrota o sistema  Isabela
Boscov
Divulgação
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indicadas ao Oscar Frances e Charlize: hora de mudar a receita |
A
intervalos que variam conforme sopram os ventos do feminismo, Hollywood produz
um filme que trata de uma mulher de origem proletária e vida sacrificada
que, à custa da própria saúde, combate a injustiça
do "sistema". Terra Fria (North Country, Estados Unidos,
2005), que estréia nesta sexta-feira no país, só foge ao
padrão estabelecido por Norma Rae (1979), Silkwood (1983)
e Erin Brockovich (2000) por não usar o nome da protagonista no
título. De resto, a fórmula vem reproduzida na íntegra: uma
atriz que é a eminência do momento (aqui, Charlize Theron no posto
que já foi, pela ordem, de Sally Field, Meryl Streep e Julia Roberts),
uma personagem desacreditada, uma causa que todos dão como perdida e a
união desses fatores numa equação que, contra todas as expectativas,
termina em vitória. Charlize interpreta Josey Aimes, que no fim dos anos
80 larga o marido violento, volta com os dois filhos para a casa paterna sob olhares
gerais de desaprovação e descobre que nunca poderá sustentar
os filhos e mandar no próprio nariz. Entra em cena Glory (Frances McDormand),
uma mulher durona que sugere a Josey procurar emprego na mina de ferro em que
trabalham os homens da região. Os homens, claro, não querem as mulheres
por lá, e as desencorajam com métodos que ultrapassam até
as definições mais lenientes de abuso sexual. Josey diz basta, vai
aos tribunais e enfrenta um julgamento que equivale à demolição
pública de seu caráter. Mas, pouco a pouco, ganha a adesão
das outras operárias e também a causa.
Josey é uma romantização de Lois Jenson, que em 1984 entrou
com uma ação contra uma mina de Minnesota que lhe custaria catorze
anos de batalha, três julgamentos excruciantes e um diagnóstico de
stress pós-traumático. A iniciativa de Lois resultou na primeira
ação coletiva por assédio sexual e estabeleceu uma nova jurisprudência
para o tema nos Estados Unidos. Sua história não é coisa
pouca, e poderia mesmo render um bom filme. Desde que ele não se acomodasse
tão prontamente à tática de manipular a platéia com
os personagens indefectíveis do gênero a amiga doente, o pai
que desperta para o valor da filha, o advogado altruísta, o filho rebelde.
Infelizmente, é o que faz Terra Fria. Depois de trinta anos requentando
esse prato, já está na hora de o cinema americano mudar sua receita.
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