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Cinema O
show de Truman O autor de A Sangue
Frio é personagem de um filme mais preocupado em ser elegante
do que verdadeiro  Isabela
Boscov Divulgação
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(à dir. na foto) como Truman Capote: recriação meticulosa,
mas ordeira, dos trejeitos e tumultos do original |
Truman
Capote foi, nos anos 50 e 60, um dos mais célebres escritores americanos.
Não só como o autor dos sucessos Bonequinha de Luxo e Música
para Camaleões, mas como a alma de qualquer festa nova-iorquina digna
do nome e como dono de uma língua implacável, que o tornava temido
e lhe comprava a adulação de intelectuais, socialites e astros de
cinema. Em 1965, ele publicou sua obra máxima, A Sangue Frio
e nunca mais completou outro livro até sua morte, em 1984. Capote
(Estados Unidos, 2005), que estréia nesta sexta-feira no país com
cinco indicações ao Oscar, situa a causa desse bloqueio (e do alcoolismo
e da decadência que se seguiram a ele) no pacto faustiano que permitiu a
Truman produzir A Sangue Frio, o relato verídico de um crime incomum
nos Estados Unidos da época, mas lhe custou a alma.
Numa
manhã de 1959, no Kansas, a família Clutter pai, mãe
e um casal de filhos foi encontrada assassinada na sede de sua fazenda.
Os Clutter eram pacíficos e apenas remediados. Ou seja, alvos improváveis
para tal explosão de violência. Atraído por esse contraste,
Capote acompanhou o caso desde o velório das vítimas até
a execução dos criminosos dois rapazes que se haviam fiado
no boato de que os Clutter guardavam 10.000 dólares num cofre. Nesse período
de mais de cinco anos, cultivou com um dos assassinos, Perry Smith, um vínculo
intrigante feito de atração sexual, empatia e manipulação
recíprocas. Graças a esse vínculo, Truman obteve as revelações
íntimas que fizeram de A Sangue Frio o maior marco de um novo tipo
de reportagem jornalística o romance de não-ficção
(que hoje sobrevive em revistas como The New Yorker e Vanity Fair).
Mas a maneira não raro abjeta com que Capote explorou sua ligação
com o assassino teria deflagrado sua derrocada espiritual. Ao menos essa é
a tese do filme e, em menor medida, da biografia homônima de Gerald Clarke
em que ele se baseia. Pequeno, estranho,
balbuciante, ambivalente acerca de sua homossexualidade e rejeitado pela mãe,
Truman Capote era um forasteiro onde quer que estivesse, inclusive em sua própria
pele. Perry Smith era franzino, vulnerável, meio branco e meio índio,
produto de uma família desfeita e confuso quanto à sua orientação
sexual. O criminoso, enfim, era uma cópia borrada do escritor, e é
perturbador que Truman tenha explorado com tanta determinação sofrimentos
que eram também os seus. O escritor manteve Perry vivo: pagou os advogados
que conseguiram os repetidos adiamentos da execução e subornou o
diretor da prisão para freqüentá-la a seu bel-prazer. Depois
de muita sedução e intimidação, arrancou do assassino
a informação que mais cobiçava: o relato do que realmente
acontecera naquela noite de 1959. Aí cortou seu auxílio e esperou
impaciente pelo enforcamento, sem o qual não poderia terminar seu manuscrito.
A missão a que Capote
e seu protagonista, Philip Seymour Hoffman, se propõem é iluminar
como essa violência íntima destruiu Truman como escritor e como homem.
Essa tese tão ordeira de causa e efeito, porém, deixa de fora elementos
que são cruciais na própria interpretação de Hoffman
a começar pelo egocentrismo, pelo narcisismo e pela auto-indulgência
que Capote impunha até às pessoas mais devotadas a ele, como seu
amante, Jack Dunphy (Bruce Greenwood), e sua amiga Harper Lee (Catherine Keener),
que nesse meio tempo publicaria o clássico O Sol É para Todos.
Truman Capote não morreu de dores éticas. O que o arruinou foram
o medo de não repetir o impacto de A Sangue Frio e a certeza de
que jamais encontraria outra presa tão dócil e afinada com ele quanto
Perry Smith. Essa seria, então, uma história de vaidade e fraquezas,
e não de conflitos. Se a enfrentasse, Capote talvez resultasse menos
elegante. Mas soaria mais verdadeiro. |