Edição 1944 . 22 de fevereiro de 2006

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Cinema
O show de Truman

O autor de A Sangue Frio é personagem
de um filme mais preocupado em ser
elegante do que verdadeiro


Isabela Boscov

 

Divulgação
Hoffman (à dir. na foto) como Truman Capote: recriação meticulosa, mas ordeira, dos trejeitos e tumultos do original


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Fotos do filme

DA INTERNET
Trailer

Truman Capote foi, nos anos 50 e 60, um dos mais célebres escritores americanos. Não só como o autor dos sucessos Bonequinha de Luxo e Música para Camaleões, mas como a alma de qualquer festa nova-iorquina digna do nome e como dono de uma língua implacável, que o tornava temido e lhe comprava a adulação de intelectuais, socialites e astros de cinema. Em 1965, ele publicou sua obra máxima, A Sangue Frio – e nunca mais completou outro livro até sua morte, em 1984. Capote (Estados Unidos, 2005), que estréia nesta sexta-feira no país com cinco indicações ao Oscar, situa a causa desse bloqueio (e do alcoolismo e da decadência que se seguiram a ele) no pacto faustiano que permitiu a Truman produzir A Sangue Frio, o relato verídico de um crime incomum nos Estados Unidos da época, mas lhe custou a alma.

Numa manhã de 1959, no Kansas, a família Clutter – pai, mãe e um casal de filhos – foi encontrada assassinada na sede de sua fazenda. Os Clutter eram pacíficos e apenas remediados. Ou seja, alvos improváveis para tal explosão de violência. Atraído por esse contraste, Capote acompanhou o caso desde o velório das vítimas até a execução dos criminosos – dois rapazes que se haviam fiado no boato de que os Clutter guardavam 10.000 dólares num cofre. Nesse período de mais de cinco anos, cultivou com um dos assassinos, Perry Smith, um vínculo intrigante feito de atração sexual, empatia e manipulação recíprocas. Graças a esse vínculo, Truman obteve as revelações íntimas que fizeram de A Sangue Frio o maior marco de um novo tipo de reportagem jornalística – o romance de não-ficção (que hoje sobrevive em revistas como The New Yorker e Vanity Fair). Mas a maneira não raro abjeta com que Capote explorou sua ligação com o assassino teria deflagrado sua derrocada espiritual. Ao menos essa é a tese do filme e, em menor medida, da biografia homônima de Gerald Clarke em que ele se baseia.

Pequeno, estranho, balbuciante, ambivalente acerca de sua homossexualidade e rejeitado pela mãe, Truman Capote era um forasteiro onde quer que estivesse, inclusive em sua própria pele. Perry Smith era franzino, vulnerável, meio branco e meio índio, produto de uma família desfeita e confuso quanto à sua orientação sexual. O criminoso, enfim, era uma cópia borrada do escritor, e é perturbador que Truman tenha explorado com tanta determinação sofrimentos que eram também os seus. O escritor manteve Perry vivo: pagou os advogados que conseguiram os repetidos adiamentos da execução e subornou o diretor da prisão para freqüentá-la a seu bel-prazer. Depois de muita sedução e intimidação, arrancou do assassino a informação que mais cobiçava: o relato do que realmente acontecera naquela noite de 1959. Aí cortou seu auxílio e esperou impaciente pelo enforcamento, sem o qual não poderia terminar seu manuscrito.

A missão a que Capote e seu protagonista, Philip Seymour Hoffman, se propõem é iluminar como essa violência íntima destruiu Truman como escritor e como homem. Essa tese tão ordeira de causa e efeito, porém, deixa de fora elementos que são cruciais na própria interpretação de Hoffman – a começar pelo egocentrismo, pelo narcisismo e pela auto-indulgência que Capote impunha até às pessoas mais devotadas a ele, como seu amante, Jack Dunphy (Bruce Greenwood), e sua amiga Harper Lee (Catherine Keener), que nesse meio tempo publicaria o clássico O Sol É para Todos. Truman Capote não morreu de dores éticas. O que o arruinou foram o medo de não repetir o impacto de A Sangue Frio e a certeza de que jamais encontraria outra presa tão dócil e afinada com ele quanto Perry Smith. Essa seria, então, uma história de vaidade e fraquezas, e não de conflitos. Se a enfrentasse, Capote talvez resultasse menos elegante. Mas soaria mais verdadeiro.

 
 
 
 
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