Edição 1944 . 22 de fevereiro de 2006

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A dona do mundo

Commander in Chief traz uma mulher
como presidente americana


Marcelo Marthe

 
Fotos divulgação
Commander, com Geena Davis no centro: intrigas e diálogos cortantes


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No fim de um episódio recente da série Commander in Chief, exibida pelo canal Sony, a presidente americana Mackenzie Allen (Geena Davis) é flagrada na cozinha da Casa Branca, onde devora cookies preparados por sua mãe. Ela comenta que, apesar dos desafios do cargo – pouco antes, debelara uma crise que quase levou os Estados Unidos a uma guerra nuclear com a Coréia do Norte –, começa a sentir-se à vontade como mulher poderosa. "Só não conte para o seu marido", brinca a mãe. Mackenzie é a mais nova presidente dos seriados americanos. Ela se junta a Josiah Bartlet, o mandatário de pavio curto de The West Wing, que está no ar desde 1999. Os dois programas pretendem oferecer uma visão bem informada do que acontece no Salão Oval e têm agradado até mesmo aos especialistas. "Há uma dose de idealização, mas os programas são espertos", disse a VEJA a cientista política Barbara Kellerman, da Universidade Harvard.

O presidente de West Wing: pavio curto

A idéia de uma presidente americana nunca foi tão verossímil. A senadora democrata Hillary Clinton, mulher do ex-presidente Bill Clinton, e a republicana Condoleezza Rice, secretária de Estado do atual governo Bush, são sempre lembradas para disputar o cargo. Mackenzie – papel que rendeu o Globo de Ouro a Geena Davis – não pertence a nenhum dos dois grandes partidos americanos. Ela era a vice independente de um republicano que só a escolheu para conquistar o voto feminino. Quando o mandatário sofre um aneurisma, aconselha sua vice a renunciar. Ninguém anseia mais que ela saia do caminho que o presidente da Câmara, Nathan Templeton, uma raposa que o veterano Donald Sutherland interpreta com maestria. Depois que esse último insinua que ela não está preparada para o cargo por ser mulher, Mackenzie resolve assumir o que lhe é de direito. A trama explora os efeitos que a sensibilidade feminina poderia surtir sobre a Presidência americana. A primeira decisão da personagem é ordenar o resgate de uma muçulmana condenada à morte por adultério num país africano. Os diálogos são cortantes e refletem um conhecimento íntimo e mundano dos bastidores da política de Washington.

Desde os primórdios dos Estados Unidos, no século XVIII, a Presidência é um cargo cercado de mística. Seu ocupante é o esteio moral e a liderança capaz de guiar a nação nos momentos difíceis. Por outro lado, pela natureza do sistema político americano, o presidente é apenas uma parte na engrenagem das instituições. Ele tem seu poder delimitado pelo Congresso e pelo Judiciário e é obrigado a respeitar a autonomia dos estados – além, é claro, de domar a burocracia. "Somente com grande destreza política e credibilidade – e se tiver a sorte de governar num momento histórico favorável – ele será capaz de liderar de fato", diz Barbara Kellerman. Em The West Wing, é a mecânica do poder que está em foco. Commander in Chief ressalta o papel de líder da presidente. Também capta bem o transtorno familiar causado pela ascensão de Mackenzie. Seus filhos ressentem-se do assédio da mídia e da ausência materna. E o marido resiste ao figurino de primeiro-cavalheiro. Commander in Chief é um sucesso de crítica, mas sua produção foi temporariamente suspensa pela rede ABC por problemas de audiência. Na televisão, não é preciso CPI para derrubar um governo.

 
 
 
 
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