Edição 1944 . 22 de fevereiro de 2006

Índice
Millôr
Lya Luft
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Auto-retrato
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Livros
Machado não merecia

Os muitos erros da nova biografia do escritor

Lançado no fim do ano passado pela Imprensa Oficial de São Paulo, Machado de Assis – Um Gênio Brasileiro, do jornalista paulista Daniel Piza, deveria ser uma novidade auspiciosa nas livrarias. Afinal, a obra de Machado de Assis (1839-1908), o maior dos escritores brasileiros, tem sido objeto de muitos estudos críticos recentes, mas a última biografia do autor foi publicada em 1981 por Raimundo Magalhães Júnior. A leitura dos especialistas, contudo, demonstra que o livro está repleto de erros. Ele falha no requisito primordial de uma obra de referência: a informação confiável.

"Tudo o que há de bom na biografia de Piza já se encontrava em Magalhães Júnior. O resto são erros factuais e ilações indevidas", disse o crítico Wilson Martins a VEJA. Em sua coluna no Jornal do Brasil, Martins fez um breve inventário de equívocos do livro, que inclui aberrações históricas (por exemplo, a informação de que o brasileiro José Bonifácio era português, ou de que o padre Feijó foi tutor de dom Pedro II) e análises delirantes dos nomes próprios de personagens machadianos (Piza diz, por exemplo, que o Palha, de Quincas Borba, é "quase Pulha"). Antes do artigo de Martins, o escritor e professor de literatura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Luís Augusto Fischer já havia apontado problemas semelhantes no jornal Zero Hora. O entrudo é transformado em festa de salão, e não de rua, enredos como o do conto O Alienista são resumidos de maneira equivocada e um personagem de Dom Casmurro, José Dias, o agregado que adora usar superlativos, é rebatizado como João.

Piza parece ter acreditado sobretudo nos próprios dotes críticos para compor Um Gênio Brasileiro – a narrativa da vida do escritor é entremeada com análises de suas principais obras. Um livro como esse, porém, não é somente um veículo para o biógrafo ventilar opiniões sobre o biografado. Ele deve ser uma fonte de dados confiáveis. O desprezo pela precisão – ou pela simples revisão de nomes, conceitos e datas – torna o livro imprestável. Como poderia dizer José (e jamais João) Dias, é um pecado gravíssimo.

 

Pisadas na bola

Alguns deslizes de Machado de Assis
– Um Gênio Brasileiro
 

• Comparando Bentinho, de Dom Casmurro, ao Otelo de Shakespeare, o biógrafo diz que o personagem de Machado de Assis "morreu e matou por ciúme". Bentinho não mata nem morre no livro  

• A biografia diz que dom João VI transformou o Brasil em vice-reino em 1808, quando o país já tinha esse status desde o século anterior

• O presidente Deodoro da Fonseca é chamado de "Marechal de Ferro", apelido que na verdade pertence a seu sucessor, Floriano Peixoto

• O brasileiro José Bonifácio, político do império e "patriarca da Independência", é identificado como um "intelectual português"

 
 
 
 
topovoltar