Edição 1944 . 22 de fevereiro de 2006

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Arte
As duas idades do gênio

Picasso foi melhor jovem ou na
maturidade? Uma outra teoria
sobre os ciclos da vida criativa


Giuliano Guandalini

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Veias artísticas

A criatividade artística é um fenômeno que diversas disciplinas procuram compreender, da crítica de arte à biologia. Uma contribuição inesperada a esse tipo de investigação acaba de ser feita pelo departamento de economia da Universidade de Chicago. À moda de seu colega Steven Levitt, autor do best-seller Freakonomics, o americano David Galenson resolveu aplicar ferramentas matemáticas e estatísticas a um problema que não pertence ao repertório usual dos economistas. Concentrado na pintura e na escultura do século XX, ele analisou dados como os picos de valorização de um criador, a idade em que ele realizou sua exposição mais comentada e a época em que completou seus trabalhos fundamentais. Munido dessas informações, Galenson ergueu uma curiosa teoria: a de que existem dois ciclos de vida criativa. A essência dos dois ciclos é a inovação: um grande artista sempre modifica a tradição herdada, e abre perspectivas para quem vem depois. Mas existe uma relação entre a idade e a maneira como se inova. Há velhos mestres e gênios precoces – como diz Galenson em seu recém-lançado livro, Old Masters and Young Geniuses. Os primeiros são os que, em longos processos de experimentação, acabam dissolvendo as regras que herdaram do passado. Os segundos, por assim dizer, tiram novidades da cartola, com grande ousadia e sem hesitações. "Compreender como funcionam esses dois ciclos não aumenta apenas nosso conhecimento sobre artistas famosos. A teoria também oferece hipóteses sobre como o ser humano em geral pensa, aprende, e sobre como ele pode ampliar sua criatividade", disse o autor a VEJA.

As figuras do prodígio e do velho mestre sempre integraram o anedotário cultural. A surpresa do estudo de Galenson está no modo sistemático como ele compara os dois tipos de trajetória. Seus casos paradigmáticos são o francês Paul Cézanne (1839-1906) e o espanhol Pablo Picasso (1881-1973). O primeiro costumava dizer: "Na pintura, eu procuro". Ele tinha espírito de mestre. O segundo proclamava: "Eu não procuro; eu acho". Ele tinha a ousadia do inovador conceitual que, aos 26 anos, chocou o mundo com a estética cubista do quadro Les Demoiselles d'Avignon. Ao estudar as carreiras de Picasso e Cézanne, Galenson traz à luz dados inéditos. Os quadros pintados pelo espanhol antes dos 30 anos têm valor de mercado 20% maior que os da velhice. A relação se inverte para Cézanne: sua obra de juventude tem preço drasticamente menor que o das telas pintadas por volta dos 60 anos. Os principais livros de história da arte americanos e franceses reproduzem dezenas de obras do Picasso de 20 e poucos anos, e apenas duas ou três do Picasso velho. O contrário acontece com Cézanne. Levantamentos desse tipo são feitos com vários outros artistas, do russo Wassily Kandinsky ao americano Mark Rothko (veja quadro). Numa estatística que completou recentemente, Galenson mostra que, dos quinze artistas mais citados do século XX, quase todos foram "inovadores conceituais". Em outras palavras, o século preferiu os lançadores de tendências e "ismos" aos artesãos dedicados. "Mas as reclamações sobre os excessos da arte conceitual podem indicar que o mundo está pronto para um contra-ataque dos mestres", diz Galenson.

Embora Galenson tenha estudado as artes plásticas em maior profundidade, seu livro também traz capítulos sobre literatura e cinema. São tentativas de extrapolar a teoria dos dois ciclos de criatividade para outras áreas e rebater idéias influentes como as do psicólogo Harvey Lehman, que, em 1953, sugeriu que cada arte tinha uma relação própria entre idade e excelência. Segundo Lehman, a poesia, por exemplo, era uma arte propícia aos jovens – e o romance aos maduros. Galenson afirma que seus "dois ciclos" são universais. Mais importante, acredita que a compreensão dos dois ciclos de criatividade tem conseqüências práticas, pois pode ajudar artistas a ampliar sua vida de invenção. Picasso, ao intuir que era na essência um criador de novos conceitos, manteve a qualidade em seus trabalhos de velhice mudando de estilo com freqüência e buscando problemas diferentes dos que já havia abordado. Isso impediu que sua criatividade se esgotasse. "Os dois ciclos de criatividade são ricos", diz Galenson. "Desde que se percebam os perigos e oportunidades inerentes a cada um."

 
 
 
 
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