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Arte
As duas idades do gênio
Picasso foi melhor jovem ou na
maturidade? Uma outra teoria
sobre os ciclos da vida criativa

Giuliano Guandalini
A criatividade artística
é um fenômeno que diversas disciplinas procuram compreender,
da crítica de arte à biologia. Uma contribuição
inesperada a esse tipo de investigação acaba de ser
feita pelo departamento de economia da Universidade de Chicago.
À moda de seu colega Steven Levitt, autor do best-seller
Freakonomics, o americano David Galenson resolveu aplicar
ferramentas matemáticas e estatísticas a um problema
que não pertence ao repertório usual dos economistas.
Concentrado na pintura e na escultura do século XX, ele analisou
dados como os picos de valorização de um criador,
a idade em que ele realizou sua exposição mais comentada
e a época em que completou seus trabalhos fundamentais. Munido
dessas informações, Galenson ergueu uma curiosa teoria:
a de que existem dois ciclos de vida criativa. A essência
dos dois ciclos é a inovação: um grande artista
sempre modifica a tradição herdada, e abre perspectivas
para quem vem depois. Mas existe uma relação entre
a idade e a maneira como se inova. Há velhos mestres e gênios
precoces como diz Galenson em seu recém-lançado
livro, Old Masters and Young Geniuses. Os primeiros são
os que, em longos processos de experimentação, acabam
dissolvendo as regras que herdaram do passado. Os segundos, por
assim dizer, tiram novidades da cartola, com grande ousadia e sem
hesitações. "Compreender como funcionam esses dois
ciclos não aumenta apenas nosso conhecimento sobre artistas
famosos. A teoria também oferece hipóteses sobre como
o ser humano em geral pensa, aprende, e sobre como ele pode ampliar
sua criatividade", disse o autor a VEJA.
As figuras do prodígio
e do velho mestre sempre integraram o anedotário cultural.
A surpresa do estudo de Galenson está no modo sistemático
como ele compara os dois tipos de trajetória. Seus casos
paradigmáticos são o francês Paul Cézanne
(1839-1906) e o espanhol Pablo Picasso (1881-1973). O primeiro costumava
dizer: "Na pintura, eu procuro". Ele tinha espírito de mestre.
O segundo proclamava: "Eu não procuro; eu acho". Ele tinha
a ousadia do inovador conceitual que, aos 26 anos, chocou o mundo
com a estética cubista do quadro Les Demoiselles d'Avignon.
Ao estudar as carreiras de Picasso e Cézanne, Galenson traz
à luz dados inéditos. Os quadros pintados pelo espanhol
antes dos 30 anos têm valor de mercado 20% maior que os da
velhice. A relação se inverte para Cézanne:
sua obra de juventude tem preço drasticamente menor que o
das telas pintadas por volta dos 60 anos. Os principais livros de
história da arte americanos e franceses reproduzem dezenas
de obras do Picasso de 20 e poucos anos, e apenas duas ou três
do Picasso velho. O contrário acontece com Cézanne.
Levantamentos desse tipo são feitos com vários outros
artistas, do russo Wassily Kandinsky ao americano Mark Rothko (veja
quadro). Numa estatística que completou recentemente,
Galenson mostra que, dos quinze artistas mais citados do século
XX, quase todos foram "inovadores conceituais". Em outras palavras,
o século preferiu os lançadores de tendências
e "ismos" aos artesãos dedicados. "Mas as reclamações
sobre os excessos da arte conceitual podem indicar que o mundo está
pronto para um contra-ataque dos mestres", diz Galenson.
Embora Galenson tenha estudado
as artes plásticas em maior profundidade, seu livro também
traz capítulos sobre literatura e cinema. São tentativas
de extrapolar a teoria dos dois ciclos de criatividade para outras
áreas e rebater idéias influentes como as do psicólogo
Harvey Lehman, que, em 1953, sugeriu que cada arte tinha uma relação
própria entre idade e excelência. Segundo Lehman, a
poesia, por exemplo, era uma arte propícia aos jovens
e o romance aos maduros. Galenson afirma que seus "dois ciclos"
são universais. Mais importante, acredita que a compreensão
dos dois ciclos de criatividade tem conseqüências práticas,
pois pode ajudar artistas a ampliar sua vida de invenção.
Picasso, ao intuir que era na essência um criador de novos
conceitos, manteve a qualidade em seus trabalhos de velhice mudando
de estilo com freqüência e buscando problemas diferentes
dos que já havia abordado. Isso impediu que sua criatividade
se esgotasse. "Os dois ciclos de criatividade são ricos",
diz Galenson. "Desde que se percebam os perigos e oportunidades
inerentes a cada um."
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