Edição 1944 . 22 de fevereiro de 2006

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Educação
As escolas campeãs

As duas mais bem classificadas no ranking
do Enem mostram o que dá certo no ensino:
bons professores e muitas horas de estudo


Camila Antunes

 

Fotos Oscar Cabral
Colégio São Bento
• Posição no ranking:
• Onde fica: Rio de Janeiro
• Tipo de escola: particular
• Investimento anual por aluno: 11 000 reais
• Renda familiar dos estudantes: 8 000 reais por mês
• Formação dos pais: ensino superior completo
• O que faz a diferença no corpo docente: 80% dos professores possuem mestrado ou doutorado
• Carga horária: oito horas (o dobro da das outras escolas), nas quais os estudantes têm reforço da grade curricular tradicional
• Infra-estrutura: boa sala de computadores e biblioteca com revistas estrangeiras


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As melhores escolas das capitais

Saiu um ranking das escolas brasileiras que traz uma obviedade e uma surpresa. Trata-se do resultado do Enem, o exame nacional do Ministério da Educação (MEC) que mediu a qualidade do ensino médio em 22.000 escolas públicas e privadas no país inteiro – 96% do universo total. O ranking foi produzido a partir das notas obtidas pelos 2,2 milhões de estudantes que prestaram o exame. O campeão da lista é o colégio São Bento, do Rio de Janeiro, fundado há 148 anos e que sempre emplacou seus alunos nas primeiras colocações das carreiras mais disputadas no vestibular. Não causa espanto, portanto, que também tenha se destacado na prova do MEC. Já a escola que ficou com o segundo lugar no ranking nacional – a Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, também do Rio de Janeiro – chama atenção por pertencer à rede pública, cujo resultado nesse tipo de exame tradicionalmente oscila entre o ruim e o péssimo. O que explica parte do sucesso de duas escolas de origens tão distintas é uma característica comum entre elas: ambas contam com um quadro de professores de alto nível, uma raridade no ensino médio brasileiro. No São Bento, 80% dos docentes têm mestrado ou doutorado. Na Joaquim Venâncio, 70% dos professores apresentam essa formação. O resultado do Enem reforça aí uma constatação para a qual outras pesquisas já haviam apontado. "Um bom quadro de professores faz toda a diferença no resultado acadêmico de uma escola", diz a educadora Maria Helena Guimarães de Castro.

Outro fator que contribui para o desempenho das duas campeãs do Enem é que elas oferecem uma jornada de estudos bastante superior ao turno de quatro horas exigido pelo MEC: os alunos do São Bento e da Joaquim Venâncio permanecem, em média, o dobro do tempo na escola – oito horas diárias. Esse é mais um quesito em que os colégios brasileiros vão mal na comparação internacional. De acordo com um levantamento da OCDE (organização que reúne as nações mais industrializadas), os estudantes brasileiros permanecem em sala de aula apenas a metade do tempo que ficam americanos e coreanos, cujas notas são bastante superiores. Segundo os especialistas, esticar o período escolar é prioritário para melhorar os resultados nacionais – e as duas campeãs do Enem são um exemplo disso. No São Bento, todos os estudantes do ensino médio têm aulas aos sábados e os do 3º ano passam o dia inteiro na escola, entre cursos de francês e reforço na grade curricular tradicional. Na Joaquim Venâncio, os alunos assistem a um curso de filosofia e têm aulas práticas de ciências em um turno vespertino extra.

 

Escola Joaquim Venâncio
Posição no ranking:
Onde fica: Rio de Janeiro
Tipo de escola: pública
Investimento anual por aluno: 4 000 reais
Renda familiar dos estudantes: 900 reais por mês
Formação dos pais: ensino médio completo
O que faz a diferença no corpo docente: 70% dos professores possuem mestrado ou doutorado
Carga horária: oito horas (o dobro da das outras escolas), nas quais os alunos têm aulas extras de filosofia, artes e ciências
Infra-estrutura: modernos laboratórios de ciências

O que também merece atenção no caso da escola Joaquim Venâncio é que se trata de uma raridade na precária rede de educação pública no Brasil. Além de um bem formado quadro de professores, ela exibe modernos laboratórios de ciências e um computador para cada três estudantes – infra-estrutura que passa longe da rede pública de ensino. O motivo para a vice-campeã no Enem ser tão diferente das outras escolas públicas brasileiras é que ela pertence a um seleto grupo de colégios técnicos sustentado com recursos do governo federal. Por essa razão, fica dentro do complexo da Fundação Oswaldo Cruz, centro de excelência em pesquisas na área de saúde. Existem 121 escolas técnicas como a Joaquim Venâncio no Brasil, todas elas com a dupla função de ensinar o currículo básico do ensino médio e fornecer aos jovens formação profissionalizante. Na prática, o orçamento de uma escola desse tipo é quatro vezes maior do que o de um típico colégio público. Isso ajuda a explicar o bom desempenho de tais instituições no Enem. Em São Paulo, por exemplo, as dez escolas públicas que encabeçam a lista são técnicas. Prova de que dispor de boas condições físicas para o estudo – que é outra qualidade comum às melhores escolas do Enem – também tem impacto positivo no resultado acadêmico.

O São Bento, a Joaquim Venâncio e alguns poucos colégios destoam na lista do Enem como exceções no meio de um resultado geral sofrível. A média dos estudantes brasileiros no exame foi 47, em uma escala de zero a 100 – nota que os reprovaria em qualquer classe escolar. A prova do MEC ainda joga luz em outra questão: a diferença entre os alunos da rede pública e os que vêm de escolas particulares. No caso dos egressos de colégios públicos, a média não passou de 42. A nota dos estudantes das escolas privadas ficou em 57. Essa desigualdade captada pelo Enem apareceu nos resultados do vestibular da Fuvest, divulgados há duas semanas. Entre os aprovados, 73% fizeram o ensino médio em uma escola particular – a maior proporção desses estudantes desde 2001. A fragilidade na formação dos jovens vindos da rede pública é um sinal de que o sistema de cotas que o governo federal quer implantar nas universidades para esses alunos é no mínimo temerário. Afinal, facilitará o ingresso de estudantes cujo desempenho acadêmico é muito baixo, como mostrou o exame do MEC. Seguir o exemplo das campeãs no ranking do Enem é um caminho mais eficiente para melhorar o nível de ensino das escolas brasileiras – particulares e públicas.

 
 
 
 
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