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Internet
Pacto de morte pela internet
Um fenômeno assombra o Japão:
internautas que usam a rede
para tramar suicídios coletivos

Paula Neiva
Um fenômeno assustador está em
curso no Japão: os pactos de suicídio coletivo firmados
por meio da internet. Pelo computador, seus protagonistas agendam
o dia, a hora e o local onde vão se encontrar para suicidar-se
em grupo utilizando também uma forma previamente combinada.
Noventa e uma pessoas morreram no ano passado depois de selar esse
tipo de acordo, quase o triplo do número registrado em 2003,
quando as autoridades começaram a computar casos do gênero
(veja o quadro).
São principalmente jovens entre 20 e 40 anos, que, aparentemente
sem coragem suficiente para tirar a própria vida sozinhos,
recorrem a salas de bate-papo virtual para encontrar pessoas que
compartilham do mesmo objetivo ou que podem ser facilmente convencidas
de que o suicídio é a única forma de aliviar
o sofrimento por que passam. Eles também buscam em sites
e blogs instruções sobre a melhor maneira de suicidar-se.
Tais endereços virtuais oferecem sugestões de venenos,
pílulas e até guias completos sobre os métodos
mais eficazes e indolores de matar-se. O método mais utilizado
pelos suicidas com esse perfil é acender fogareiros a carvão
dentro de carros ou pequenos cômodos hermeticamente fechados.
A queima do combustível produz monóxido de carbono,
que mata por asfixia. A freqüência com que esses episódios
acontecem fez com que o governo japonês montasse, quatro meses
atrás, uma força-tarefa envolvendo o gabinete do primeiro-ministro,
a Secretaria Geral de Segurança, os ministérios da
Justiça, Saúde e Previdência Social e os principais
provedores de internet do país. "A idéia é
rastrear sites e salas de bate-papo, impedir o acesso a eles e identificar
os responsáveis", disse a VEJA a vice-consulesa do Japão
em São Paulo, Rina Sugimoto. A operação já
surte efeito. "Até o momento, catorze casos de suicídio
coletivo foram reprimidos", afirma.
Shizuo Kambayashi/AP
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| O celular também é utilizado
pelos suicidas para mandar e-mails e marcar encontros |
No ranking do suicídio da Organização Mundial
de Saúde, o Japão ocupa o quinto lugar em números
absolutos, com cerca de 25.000 casos por ano. É superado
apenas por China, Índia, Rússia e Estados Unidos,
países cuja população é maior. O índice
elevado de mortes desse tipo entre os japoneses resulta de uma combinação
de fatores culturais e conjunturais. Desde os primórdios
da formação nacional, o suicídio no Japão
está associado à restauração da honra.
Emprestou-se a ele, inclusive, um caráter ritualístico.
No fim da II Guerra Mundial, por exemplo, para lavar a honra da
nação, derrotada pelos Estados Unidos, muitos militares
japoneses tiraram a própria vida pouco antes disso,
centenas de pilotos, os camicases, fizeram o mesmo lançando
seus aviões contra os navios americanos, num ritual que combinava
preservação da honra e sacrifício pelo imperador.
Essa espécie de ética guerreira reavivou-se nas últimas
duas décadas, com a estagnação da economia
japonesa, que apenas agora dá sinais de recuperação.
Desempregados, muitos trabalhadores sentiram-se aviltados em sua
dignidade e viram no suicídio a forma de redimir-se.
A prática do suicídio
ainda é encarada por boa parte dos japoneses como um caminho
aceitável para a resolução de questões
concretas, nada existenciais. "Muitos jovens, por exemplo, acreditam
que o sucesso profissional deles é uma recompensa a que seus
pais têm direito", diz a psiquiatra Alexandrina Meleiro, do
Hospital das Clínicas de São Paulo, que estuda o assunto.
"Por isso, encaram o fracasso como um fardo insuportável."
Os especialistas também apontam a depressão causada
pelos rígidos padrões sociais como um dos motivos
para o grande número de suicídios no Japão.
"É comum que os jovens se sintam isolados por causa desses
padrões, e alguns encontram na morte uma solução",
diz o médico Itiro Shirakawa, professor de psiquiatria da
Universidade Federal de São Paulo.
Estudiosos arriscam a hipótese
de que, ao suicidarem-se coletivamente, esses jovens japoneses querem
transmitir a mensagem de que a culpa pelo seu desespero é
da sociedade. Eles se sacrificariam, assim, para chamar atenção
para problemas que afetam toda uma geração. Mas os
avessos à sociologia acreditam que o fenômeno pode
se repetir em países com tradições, características
e dificuldades bem diferentes das japonesas. "Esses suicídios
coletivos, tramados via internet, nada mais são do que encontros
de pessoas perturbadas. Como tal, podem ganhar adeptos em qualquer
parte do mundo", diz o psicólogo Lenny Berman, diretor da
Associação Americana de Suicidologia.
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