Edição 1944 . 22 de fevereiro de 2006

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Internet
Pacto de morte pela internet

Um fenômeno assombra o Japão:
internautas que usam a rede
para tramar suicídios coletivos


Paula Neiva

Um fenômeno assustador está em curso no Japão: os pactos de suicídio coletivo firmados por meio da internet. Pelo computador, seus protagonistas agendam o dia, a hora e o local onde vão se encontrar para suicidar-se em grupo – utilizando também uma forma previamente combinada. Noventa e uma pessoas morreram no ano passado depois de selar esse tipo de acordo, quase o triplo do número registrado em 2003, quando as autoridades começaram a computar casos do gênero (veja o quadro). São principalmente jovens entre 20 e 40 anos, que, aparentemente sem coragem suficiente para tirar a própria vida sozinhos, recorrem a salas de bate-papo virtual para encontrar pessoas que compartilham do mesmo objetivo ou que podem ser facilmente convencidas de que o suicídio é a única forma de aliviar o sofrimento por que passam. Eles também buscam em sites e blogs instruções sobre a melhor maneira de suicidar-se. Tais endereços virtuais oferecem sugestões de venenos, pílulas e até guias completos sobre os métodos mais eficazes e indolores de matar-se. O método mais utilizado pelos suicidas com esse perfil é acender fogareiros a carvão dentro de carros ou pequenos cômodos hermeticamente fechados. A queima do combustível produz monóxido de carbono, que mata por asfixia. A freqüência com que esses episódios acontecem fez com que o governo japonês montasse, quatro meses atrás, uma força-tarefa envolvendo o gabinete do primeiro-ministro, a Secretaria Geral de Segurança, os ministérios da Justiça, Saúde e Previdência Social e os principais provedores de internet do país. "A idéia é rastrear sites e salas de bate-papo, impedir o acesso a eles e identificar os responsáveis", disse a VEJA a vice-consulesa do Japão em São Paulo, Rina Sugimoto. A operação já surte efeito. "Até o momento, catorze casos de suicídio coletivo foram reprimidos", afirma.

Shizuo Kambayashi/AP
O celular também é utilizado pelos suicidas para mandar e-mails e marcar encontros


No ranking do suicídio da Organização Mundial de Saúde, o Japão ocupa o quinto lugar em números absolutos, com cerca de 25.000 casos por ano. É superado apenas por China, Índia, Rússia e Estados Unidos, países cuja população é maior. O índice elevado de mortes desse tipo entre os japoneses resulta de uma combinação de fatores culturais e conjunturais. Desde os primórdios da formação nacional, o suicídio no Japão está associado à restauração da honra. Emprestou-se a ele, inclusive, um caráter ritualístico. No fim da II Guerra Mundial, por exemplo, para lavar a honra da nação, derrotada pelos Estados Unidos, muitos militares japoneses tiraram a própria vida – pouco antes disso, centenas de pilotos, os camicases, fizeram o mesmo lançando seus aviões contra os navios americanos, num ritual que combinava preservação da honra e sacrifício pelo imperador. Essa espécie de ética guerreira reavivou-se nas últimas duas décadas, com a estagnação da economia japonesa, que apenas agora dá sinais de recuperação. Desempregados, muitos trabalhadores sentiram-se aviltados em sua dignidade e viram no suicídio a forma de redimir-se.

A prática do suicídio ainda é encarada por boa parte dos japoneses como um caminho aceitável para a resolução de questões concretas, nada existenciais. "Muitos jovens, por exemplo, acreditam que o sucesso profissional deles é uma recompensa a que seus pais têm direito", diz a psiquiatra Alexandrina Meleiro, do Hospital das Clínicas de São Paulo, que estuda o assunto. "Por isso, encaram o fracasso como um fardo insuportável." Os especialistas também apontam a depressão causada pelos rígidos padrões sociais como um dos motivos para o grande número de suicídios no Japão. "É comum que os jovens se sintam isolados por causa desses padrões, e alguns encontram na morte uma solução", diz o médico Itiro Shirakawa, professor de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo.

Estudiosos arriscam a hipótese de que, ao suicidarem-se coletivamente, esses jovens japoneses querem transmitir a mensagem de que a culpa pelo seu desespero é da sociedade. Eles se sacrificariam, assim, para chamar atenção para problemas que afetam toda uma geração. Mas os avessos à sociologia acreditam que o fenômeno pode se repetir em países com tradições, características e dificuldades bem diferentes das japonesas. "Esses suicídios coletivos, tramados via internet, nada mais são do que encontros de pessoas perturbadas. Como tal, podem ganhar adeptos em qualquer parte do mundo", diz o psicólogo Lenny Berman, diretor da Associação Americana de Suicidologia.

 

 
 
 
 
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