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Esporte
Os abomináveis
jogos das neves
As Olimpíadas de Inverno são um
espetáculo belo, estranho e como
descobriram agora elitista
Robert Laberge/AFP
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Franck Fife/AFP
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| O lado bom: a força bruta
do hóquei, a popularidade da patinação
artística (os campeões russos Tatiana Totmianina
e Maxim Marinin) e o esplendor de cenários como o que
serviu de fundo à prova de snowboard |
Vincenzo Pinto/AFP
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Na falta de emoções
mais fortes, a moda agora nos países onde o clima comporta
tal modalidade é criticar os Jogos Olímpicos de Inverno.
À parte a beleza incontestável dos cenários
naturais da competição disputada a cada quatro anos
em alguma estação de esqui européia ou americana
a atual é em Turim, na Itália , vale
dizer tudo sobre as olimpíadas do gelo: os esportes são
chatos; os competidores, bobocas, e a coisa toda exala uma certa
aura elitista, ou até discriminatória. Sem contar
que só mesmo iniciados nos mais fechados círculos
esotéricos conseguem entender modalidades bizarras como curling,
skeleton e biatlo.
Algumas dessas características
decorrem do determinismo geopolítico: os ricos países
do Hemisfério Norte são os que têm inverno de
verdade e, portanto, esportes idem. Oficialmente, oitenta países
dos cinco continentes participam. Só duas dezenas, porém,
concorrem para valer e sobem ao pódio, o que dá ao
evento uma atmosfera de encontro do G-8. Nada a ver com o ecumenismo
das olimpíadas de verão, em que todos os continentes
têm seu quinhão do quadro de medalhas. Não ocorre
a ninguém acusar de racismo esportes nos quais africanos
ou descendentes são deuses, como as corridas ou o basquete,
mas o contrário é inevitável. "Os Jogos de
Inverno são o reduto de uma diminuta coletânea de nações
e atletas ricos e predominantemente caucasianos", escreveu no Washington
Post o articulista americano Paul Farhi.
Peles de matizes do moreno para
cima são, de fato, vistas com curiosidade quase antropológica.
O Quênia, país onde neva no cume de uma única
montanha, inscreveu um competidor na prova de esqui de fundo de
15 quilômetros. Ele chegou quinze minutos depois do vencedor.
É o equivalente a correr os 100 metros rasos em catorze segundos,
quando em olimpíadas se corre essa distância em dez.
Havia um brasileiro competindo nessa prova, Hélio Freitas
que conseguiu chegar atrás do queniano. "Consegui
fazer uma prova melhor do que esperava", disse o brasileiro, animado.
A carioca Isabel Clark ficou em nono lugar no snowboard, um recorde,
depois de duas quedas das adversárias mais cotadas.
O programa dos Jogos de Inverno
inclui esportes como o biatlo, uma estranha mistura de esqui e tiro
ao alvo, e o skeleton, a versão gelada do carrinho de rolimã.
Em Turim, algumas dessas provas vêm sendo disputadas diante
de arquibancadas vazias, já que só o esqui, o hóquei
e a patinação artística, em que os russos são
invariavelmente imbatíveis, atraem torcedores e televisão
(e mesmo esses esportes, na TV americana, vêm perdendo feio
para American Idol). Nenhuma modalidade, porém, é
mais exótica que o curling, no qual literalmente se enxuga
gelo. O curling lembra vagamente a bocha, mas, em vez de bolas,
usam-se pedras de 20 quilos que deslizam. Um competidor lança
a pedra e outros dois, com vassouras, escovam o gelo à frente
dela para aquecê-lo e aumentar a velocidade do lançamento.
O que surgiu como passatempo invernal de pastores escoceses acabou
virando esporte olímpico. Se, em vez dos Jogos de Inverno,
o Comitê Olímpico Internacional tivesse criado os de
praia, os ases do frescobol e do esquibunda teriam hoje status de
heróis olímpicos. Como preferiu a neve, é a
Noruega, a cada quatro anos, que festeja por alguns dias o posto
de superpotência do esporte.
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