Edição 1944 . 22 de fevereiro de 2006

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Esporte
Os abomináveis
jogos das neves

As Olimpíadas de Inverno são um
espetáculo belo, estranho e – como
descobriram agora – elitista


Robert Laberge/AFP
Franck Fife/AFP
O lado bom: a força bruta do hóquei, a popularidade da patinação artística (os campeões russos Tatiana Totmianina e Maxim Marinin) e o esplendor de cenários como o que serviu de fundo à prova de snowboard
Vincenzo Pinto/AFP

Na falta de emoções mais fortes, a moda agora nos países onde o clima comporta tal modalidade é criticar os Jogos Olímpicos de Inverno. À parte a beleza incontestável dos cenários naturais da competição disputada a cada quatro anos em alguma estação de esqui européia ou americana – a atual é em Turim, na Itália –, vale dizer tudo sobre as olimpíadas do gelo: os esportes são chatos; os competidores, bobocas, e a coisa toda exala uma certa aura elitista, ou até discriminatória. Sem contar que só mesmo iniciados nos mais fechados círculos esotéricos conseguem entender modalidades bizarras como curling, skeleton e biatlo.

Algumas dessas características decorrem do determinismo geopolítico: os ricos países do Hemisfério Norte são os que têm inverno de verdade e, portanto, esportes idem. Oficialmente, oitenta países dos cinco continentes participam. Só duas dezenas, porém, concorrem para valer e sobem ao pódio, o que dá ao evento uma atmosfera de encontro do G-8. Nada a ver com o ecumenismo das olimpíadas de verão, em que todos os continentes têm seu quinhão do quadro de medalhas. Não ocorre a ninguém acusar de racismo esportes nos quais africanos ou descendentes são deuses, como as corridas ou o basquete, mas o contrário é inevitável. "Os Jogos de Inverno são o reduto de uma diminuta coletânea de nações e atletas ricos e predominantemente caucasianos", escreveu no Washington Post o articulista americano Paul Farhi.

Peles de matizes do moreno para cima são, de fato, vistas com curiosidade quase antropológica. O Quênia, país onde neva no cume de uma única montanha, inscreveu um competidor na prova de esqui de fundo de 15 quilômetros. Ele chegou quinze minutos depois do vencedor. É o equivalente a correr os 100 metros rasos em catorze segundos, quando em olimpíadas se corre essa distância em dez. Havia um brasileiro competindo nessa prova, Hélio Freitas – que conseguiu chegar atrás do queniano. "Consegui fazer uma prova melhor do que esperava", disse o brasileiro, animado. A carioca Isabel Clark ficou em nono lugar no snowboard, um recorde, depois de duas quedas das adversárias mais cotadas.

O programa dos Jogos de Inverno inclui esportes como o biatlo, uma estranha mistura de esqui e tiro ao alvo, e o skeleton, a versão gelada do carrinho de rolimã. Em Turim, algumas dessas provas vêm sendo disputadas diante de arquibancadas vazias, já que só o esqui, o hóquei e a patinação artística, em que os russos são invariavelmente imbatíveis, atraem torcedores e televisão (e mesmo esses esportes, na TV americana, vêm perdendo feio para American Idol). Nenhuma modalidade, porém, é mais exótica que o curling, no qual literalmente se enxuga gelo. O curling lembra vagamente a bocha, mas, em vez de bolas, usam-se pedras de 20 quilos que deslizam. Um competidor lança a pedra e outros dois, com vassouras, escovam o gelo à frente dela para aquecê-lo e aumentar a velocidade do lançamento. O que surgiu como passatempo invernal de pastores escoceses acabou virando esporte olímpico. Se, em vez dos Jogos de Inverno, o Comitê Olímpico Internacional tivesse criado os de praia, os ases do frescobol e do esquibunda teriam hoje status de heróis olímpicos. Como preferiu a neve, é a Noruega, a cada quatro anos, que festeja por alguns dias o posto de superpotência do esporte.

 
 
 
 
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