Edição 1944 . 22 de fevereiro de 2006

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Copa
O figurino
para o hexa

O Mundial é a vitrine das
novas tecnologias em camisas,
bolas e chuteiras


Letícia Sorg


Divulgação
Fabiano Accorsi
Ronaldo e a nova camisa: minúsculas saliências na trama (detalhe acima) levam o suor para longe do corpo


NESTA REPORTAGEM
Quadro: A tecnologia na camisa

EXCLUSIVO ON-LINE
Uniformes das seleções na Copa

A cena ficou famosa: em plena final da Copa do Mundo de 2002, o zagueiro brasileiro Edmílson levou um longo minuto só para trocar uma camisa rasgada, enroscado num estranho forro, supostamente criado para absorver o suor. Na próxima Copa, em junho, pelo menos essa dificuldade a seleção não terá. O mais recente uniforme da equipe, também fabricado pela Nike, com um novo sistema para reduzir o incômodo da transpiração, é um exemplo de como evolui – apesar de contratempos como o de Edmílson – a tecnologia dos equipamentos esportivos, graças a bilhões de dólares investidos nessa indústria nos últimos anos.

A camisa com a qual o Brasil tentará o hexacampeonato mundial, de tecido sintético, tem microporos que transferem o suor para a parte externa do tecido, facilitando a circulação de ar e a evaporação. Minúsculas saliências no lado de dentro evitam que a peça cole na pele. Isso faz alguma diferença quando é preciso correr 10 quilômetros, como um jogador de futebol profissional. Com apenas 180 gramas, ela tem menos da metade do peso dos modelos de algodão de trinta anos atrás. Como custará 180 reais nas lojas, o preço da tecnologia é de exatamente 1 000 reais por quilo.

A cada quatro anos a Copa do Mundo é a vitrine em que os gigantes do material esportivo expõem suas novas criações. O uniforme que a seleção inglesa vestirá neste ano na Alemanha, desenvolvido pela Umbro, tem 15% de fibras de prata dentro das de poliamida. Não se trata de um simples luxo, segundo a empresa: a prata minimiza a eletricidade estática, tornando mais confortável o contato da camisa com o corpo. Assim como as novas tecnologias dos bólidos de Fórmula 1 levam alguns anos para chegar aos carros de passeio, a camisa recheada de prata ainda é exclusiva dos jogadores da Copa do Mundo: nas lojas, será vendida uma versão com apenas 2% de fibra de prata, que no Brasil custará 190 reais.

Divulgação

Inglaterra: fibras de prata no uniforme


A competição entre empresas se estende a bolas e chuteiras. A bola oficial da Copa, escolhida em dezembro passado, é a Adidas +Espírito de Equipe, que chega às lojas por 400 reais. O novo design, com catorze gomos, foi testado com pernas robóticas e, segundo o fabricante, os chutes são 30% mais precisos. Outro produto da Adidas, a chuteira +Predator Absolute (600 reais no Brasil), estará nos pés de craques como Kaká, Beckham e Zidane na Alemanha. O cabedal do calçado é recoberto por borrachas cujo objetivo é aumentar a força do chute. Nada disso transformará o peladeiro de fim de semana em um Roberto Carlos, mas é com pequenos avanços assim que evolui o material esportivo. Quem compara as pesadíssimas camisas, bolas e chuteiras de décadas atrás com as do Mundial deste ano não pode deixar de reconhecer que jogar futebol era uma atividade bem mais penosa.

Essa corrida tecnológica não existiria sem um bilionário mercado consumidor. A Nike faturou 14 bilhões de dólares no ano passado, e mantém em segredo quanto investe em tecnologia. A Speedo gastou 50 milhões de dólares para desenvolver um maiô revolucionário para natação. "Criar produtos tecnológicos é fundamental para garantir a visibilidade da marca no mercado", afirma Eduardo Ayrosa, especialista em marketing esportivo da Escola de Administração da Fundação Getulio Vargas.

A adoção de novas tecnologias muitas vezes chega acompanhada de polêmicas. Como os novos equipamentos são caros, a possibilidade de haver uma disparidade entre os competidores é maior. Os maiôs futuristas da Speedo, que imitam os sulcos microscópicos da pele dos tubarões para reduzir o arrasto na água, quase foram proibidos pelas autoridades da natação. O golfe tem regras restritivas quanto a inovações nos tacos e nas bolas. "No fim das contas, quem decide é o público", diz Kim Blair, diretor do Centro de Inovação no Esporte do Massachusetts Institute of Technology (MIT). A longo prazo, os precedentes mostram que o custo desses avanços se torna acessível à maioria dos praticantes, e todos saem ganhando. Até os peladeiros de fim de semana.

 
 
 
 
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