Edição 1944 . 22 de fevereiro de 2006

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Vida digital
O "Projeto Genoma"
da música pop

O site Pandora, que agrupa canções
por afinidade de elementos musicais,
é um dos mais divertidos da internet


João Gabriel de Lima

 

O visual do site: uma música leva a outra

E se as canções, além de letra e música, tivessem também uma carga genética classificável, assim como os seres vivos? A partir dessa idéia, aparentemente estapafúrdia, o americano Tim Westergren criou um dos sites mais divertidos da internet: o Pandora (www.pandora.com). Há seis anos ele reuniu uma equipe de músicos e técnicos em informática na cidade de Oakland, na Califórnia, com o objetivo de "seqüenciar o genoma musical". Traduzindo: os especialistas contratados por Westergren analisaram 300.000 músicas de 10.000 artistas e listaram as principais características de cada uma – seus "genes" formadores. Por exemplo: The Unforgiven, do grupo Metallica, se define pelo "uso sutil de harmonia vocal", "mistura de instrumentos acústicos e elétricos" e "alternância de tons maiores e menores". Já O Morro Não Tem Vez, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, possui um número maior de cromossomos: "ritmo de jazz brasileiro", "solo de flauta", "percussão suave", "acompanhamento de guitarra" e "arranjo de cordas". Em agosto passado, o banco de canções foi reunido no site Pandora. Qual a utilidade disso? Um usuário que seja fã de uma determinada música, ou de um determinado artista, ouvirá de graça canções inteiras que possuam "carga genética" semelhante – as quais supostamente estarão de acordo com seu gosto musical. Através de um link, poderá, inclusive, comprar o CD na Amazon.com ou adquirir no iTunes, da Apple, apenas a trilha sonora que acabou de ouvir. Por problemas de direitos autorais, o iTunes ainda não vende canções ou vídeos ao Brasil.

A escolha do nome Pandora é intrigante. Na mitologia grega, ela é a primeira mulher, enviada por Zeus como vingança contra os mortais, por eles terem se apoderado do fogo – uma cortesia de Prometeu. Pandora trazia uma caixa, que ela abriu por curiosidade e de onde saiu todo o mal que assola a humanidade desde então. A caixa de Pandora virtual não libera maldades, mas canções. Quem digitar no site o nome do grupo The Strokes saberá, por exemplo, que existe uma banda no estado americano de Dakota do Sul que faz um som parecido, The Weather Machines. O Pandora é uma ferramenta para quem quer se manter atualizado, já que nem sempre as novidades chegam às lojas de discos – qualquer banda de garagem possui CD gravado com qualidade e site na internet, mas essa produção muitas vezes não tem acesso aos distribuidores. Os técnicos do Pandora dão uma atenção especial à cena independente.

O "seqüenciamento genético" também funciona bem no sentido de agrupar afinidades musicais, trazendo algumas surpresas. Quem digitar o nome Nirvana terá acesso a uma lista de bandas do movimento grunge, mas ainda ao velho roqueiro Iggy Pop, influência assumida de Kurt Cobain. Se você quiser músicas parecidas com Psycho Killer, dos Talking Heads, aparecerão várias canções dos anos 80, mas também Reptilia, dos The Strokes – e o parentesco é mesmo evidente. Quem entrar por Caetano Veloso terá uma surpresa. Como só foram analisados os CDs americanos e hispânicos do cantor, suas afinidades eletivas são Bobby Short, Johnny Mathis, o mexicano José José e até os ciganos do Gipsy Kings.

O serviço é gratuito para quem não se importa de conviver com anúncios no site do Pandora. Por 36 dólares por ano, os anúncios somem. Ouvir música no Pandora é perfeitamente legal. Elas foram liberadas pelas gravadoras e por seus autores, que enxergam o site mais como uma vitrine para vender suas trilhas. São grandes a variedade e a qualidade de rock, pop e jazz. Na parte instrumental, aparecem até algumas raridades de artistas como Charlie Parker e John Coltrane. O foco quase todo é na produção em língua inglesa. Não procure bandas como a brasileira Legião Urbana ou a espanhola Presuntos Implicados. Clássicos como Carlos Gardel ou Domenico Modugno também estão fora do escopo do Pandora. Entre os artistas brasileiros tem Tom Jobim (digite Antonio Carlos Jobim, senão vem Tom Jones), João Gilberto, Milton Nascimento e Caetano Veloso. Chico Buarque está fora.

Talvez não por muito tempo. O repertório se expande todo dia. A intenção é incluir no futuro até mesmo música clássica – Mozart, Brahms, Beethoven. Seria melhor, no entanto, não misturar alhos com bugalhos. O site Pandora é uma idéia pop por excelência. O Pandora é a ferramenta para um tempo em que, como diz o escritor inglês Nick Hornby, os indivíduos não se definem por suas convicções, mas por seus gostos – expressos em listas de músicas, filmes ou livros prediletos. Ele serve como guia numa cultura na qual a originalidade não é vital e as músicas são compostas assumidamente com retalhos de outras músicas – tanto que as bandas novas costumam listar as próprias influências em seus sites. Nesse contexto, a idéia de uma genética musical é plausível. Rob Fleming, personagem central do romance de Hornby Alta Fidelidade (1998), é um especialista em fisgar corações com canções – para seduzir mulheres, grava fitas para elas. Se o livro tivesse sido escrito hoje, Fleming possivelmente seria viciado no Pandora – bastaria digitar o nome de uma canção da preferência da musa e baixar as que o site indicasse. Ah, e, em vez de fitas, gravaria CDs.

 

Afinidades eletivas 

O "DNA musical" das canções contidas no site www.pandora.com traz algumas surpresas. Por exemplo:  

(Nothing But) Flowers com Caetano Veloso tem influência latina, como...  

...Djobi, Djoba, com os Gipsy Kings, que é escrita em tom maior como...  

...Don't Let the Stars Get in Your Eyes, com K.D. Lang, que tem ritmo sincopado como...  

...Till There Was You, com os Beatles

 
 
 
 
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