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Vida digital O
"Projeto Genoma" da música pop
O site Pandora, que agrupa canções por afinidade de elementos
musicais, é um dos mais divertidos da internet
 João
Gabriel de Lima  |  |  | | O
visual do site: uma música leva a outra |
E
se as canções, além de letra e música, tivessem também
uma carga genética classificável, assim como os seres vivos? A partir
dessa idéia, aparentemente estapafúrdia, o americano Tim Westergren
criou um dos sites mais divertidos da internet: o Pandora (www.pandora.com).
Há seis anos ele reuniu uma equipe de músicos e técnicos
em informática na cidade de Oakland, na Califórnia, com o objetivo
de "seqüenciar o genoma musical". Traduzindo: os especialistas contratados
por Westergren analisaram 300.000 músicas de 10.000 artistas e listaram
as principais características de cada uma seus "genes" formadores.
Por exemplo: The Unforgiven, do grupo Metallica, se define pelo "uso sutil
de harmonia vocal", "mistura de instrumentos acústicos e elétricos"
e "alternância de tons maiores e menores". Já O Morro Não
Tem Vez, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, possui um número maior
de cromossomos: "ritmo de jazz brasileiro", "solo de flauta", "percussão
suave", "acompanhamento de guitarra" e "arranjo de cordas". Em agosto passado,
o banco de canções foi reunido no site Pandora. Qual a utilidade
disso? Um usuário que seja fã de uma determinada música,
ou de um determinado artista, ouvirá de graça canções
inteiras que possuam "carga genética" semelhante as quais supostamente
estarão de acordo com seu gosto musical. Através de um link, poderá,
inclusive, comprar o CD na Amazon.com ou adquirir no iTunes, da Apple, apenas
a trilha sonora que acabou de ouvir. Por problemas de direitos autorais, o iTunes
ainda não vende canções ou vídeos ao Brasil.
A escolha do nome Pandora é intrigante. Na mitologia grega, ela é
a primeira mulher, enviada por Zeus como vingança contra os mortais, por
eles terem se apoderado do fogo uma cortesia de Prometeu. Pandora trazia
uma caixa, que ela abriu por curiosidade e de onde saiu todo o mal que assola
a humanidade desde então. A caixa de Pandora virtual não libera
maldades, mas canções. Quem digitar no site o nome do grupo The
Strokes saberá, por exemplo, que existe uma banda no estado americano de
Dakota do Sul que faz um som parecido, The Weather Machines. O Pandora é
uma ferramenta para quem quer se manter atualizado, já que nem sempre as
novidades chegam às lojas de discos qualquer banda de garagem possui
CD gravado com qualidade e site na internet, mas essa produção muitas
vezes não tem acesso aos distribuidores. Os técnicos do Pandora
dão uma atenção especial à cena independente.
O "seqüenciamento genético" também funciona bem no sentido
de agrupar afinidades musicais, trazendo algumas surpresas. Quem digitar o nome
Nirvana terá acesso a uma lista de bandas do movimento grunge, mas ainda
ao velho roqueiro Iggy Pop, influência assumida de Kurt Cobain. Se você
quiser músicas parecidas com Psycho Killer, dos Talking Heads, aparecerão
várias canções dos anos 80, mas também Reptilia,
dos The Strokes e o parentesco é mesmo evidente. Quem entrar por
Caetano Veloso terá uma surpresa. Como só foram analisados os CDs
americanos e hispânicos do cantor, suas afinidades eletivas são Bobby
Short, Johnny Mathis, o mexicano José José e até os ciganos
do Gipsy Kings. O serviço é
gratuito para quem não se importa de conviver com anúncios no site
do Pandora. Por 36 dólares por ano, os anúncios somem. Ouvir música
no Pandora é perfeitamente legal. Elas foram liberadas pelas gravadoras
e por seus autores, que enxergam o site mais como uma vitrine para vender suas
trilhas. São grandes a variedade e a qualidade de rock, pop e jazz. Na
parte instrumental, aparecem até algumas raridades de artistas como Charlie
Parker e John Coltrane. O foco quase todo é na produção em
língua inglesa. Não procure bandas como a brasileira Legião
Urbana ou a espanhola Presuntos Implicados. Clássicos como Carlos Gardel
ou Domenico Modugno também estão fora do escopo do Pandora. Entre
os artistas brasileiros tem Tom Jobim (digite Antonio Carlos Jobim, senão
vem Tom Jones), João Gilberto, Milton Nascimento e Caetano Veloso. Chico
Buarque está fora. Talvez não
por muito tempo. O repertório se expande todo dia. A intenção
é incluir no futuro até mesmo música clássica
Mozart, Brahms, Beethoven. Seria melhor, no entanto, não misturar alhos
com bugalhos. O site Pandora é uma idéia pop por excelência.
O Pandora é a ferramenta para um tempo em que, como diz o escritor inglês
Nick Hornby, os indivíduos não se definem por suas convicções,
mas por seus gostos expressos em listas de músicas, filmes ou livros
prediletos. Ele serve como guia numa cultura na qual a originalidade não
é vital e as músicas são compostas assumidamente com retalhos
de outras músicas tanto que as bandas novas costumam listar as próprias
influências em seus sites. Nesse contexto, a idéia de uma genética
musical é plausível. Rob Fleming, personagem central do romance
de Hornby Alta Fidelidade (1998), é um especialista em fisgar corações
com canções para seduzir mulheres, grava fitas para elas.
Se o livro tivesse sido escrito hoje, Fleming possivelmente seria viciado no Pandora
bastaria digitar o nome de uma canção da preferência
da musa e baixar as que o site indicasse. Ah, e, em vez de fitas, gravaria CDs.
Afinidades eletivas
O "DNA musical" das canções contidas no site www.pandora.com
traz algumas surpresas. Por exemplo: (Nothing
But) Flowers com Caetano Veloso tem influência latina, como...
...Djobi, Djoba, com
os Gipsy Kings, que é escrita em tom maior como...
...Don't Let the Stars Get in Your Eyes, com K.D.
Lang, que tem ritmo sincopado como... ...Till
There Was You, com os Beatles | |
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