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Economia e Negócios
Por que o dólar
não pára de cair
2,60 reais há um ano, 2,10 na
semana passada. A aposta é
que chegue a 1,90 em dezembro

Giuliano Guandalini
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"A inflação aleija,
mas a crise cambial mata." A máxima foi criada pelo ex-ministro
da Fazenda Mário Henrique Simonsen (1935-1997) e pairou como
uma assombração nas últimas três décadas.
Virou lugar-comum, de tanto ser citada. Não era para menos.
Todas as piores crises brasileiras estiveram associadas à
falta de dólares. Nos anos 80, o país, afogado em
dívidas e quebrado, declarou duas vezes a moratória
do pagamento de sua dívida externa. Mesmo sob o governo Fernando
Henrique, que implantou o Plano Real e pôs fim à inflação,
o Brasil flertou com o precipício duas vezes, em 1998 e 2002,
e só escapou graças ao socorro do Fundo Monetário
Internacional (FMI). Nas últimas semanas, no entanto, a máxima
do economista carioca voltou a ser lembrada com freqüência,
agora num contexto totalmente diverso. O vaticínio de Simonsen
já não assusta. Hoje sobram dólares na economia
brasileira. De 2002 para cá, as contas externas passaram
por uma pequena revolução. As exportações
dobraram, o endividamento externo caiu pela metade e as reservas
internacionais não andavam tão gordas fazia muito
tempo. De devedor, o Brasil está prestes a se tornar credor
externo o total devido pelo país a empresas e bancos
estrangeiros será inferior ao total que ele tem em créditos.
É uma situação inédita na história
brasileira. Representa o fim do pesadelo das crises cambiais e abre
uma janela de oportunidade única para o país atacar
suas mazelas internas e voltar a crescer.
O resultado mais visível
desse processo pode ser verificado na cotação da moeda
americana. O valor do dólar vem declinando constantemente
ante o real. Na semana passada, chegou a 2,10 reais, o menor preço
em cinco anos há um ano, o dólar valia 2,60
reais , e já há analistas projetando uma queda
da moeda para menos de 2 reais. Desde a introdução
do sistema de câmbio flutuante no país, em 1999, as
cotações oscilam de acordo com a lei mais básica
da economia, a da oferta e da procura. Quando a oferta é
pequena e a procura é elevada, os preços sobem. Vale
tanto para chuchu quanto para moedas sob o regime de câmbio
flutuante. Mas por que a oferta de dólares aumentou tanto?
Em 2002, diante do temor da vitória do PT nas eleições,
o país enfrentou uma séria crise de desconfiança
internacional. Ninguém queria emprestar dinheiro ao Brasil,
os dólares sumiram e a cotação da moeda americana
chegou a 4 reais. Hoje o país vive situação
oposta. A queda da inflação e o controle da dívida
pública seduziram os investidores estrangeiros, que estão
de paquera com as bolsas do país.
Mauricio Lima/AE
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| Pregão na BM&F: chuva de dólares
infla cotação das Bolsas brasileiras |
Isso foi possível, entre outros motivos, pela seriedade da
política econômica que alguns gostam de classificar,
pejorativamente, de "ortodoxa". Mas o grande motor dessa espetacular
reversão é a balança comercial, cujo superávit
saltou de 13 bilhões de dólares, em 2002, para 45
bilhões, no ano passado. O resultado dá uma folga
de caixa ao governo, que tem como honrar todos os seus débitos
externos e ainda sobra dólar. Por isso, mesmo com as intervenções
do Banco Central, que só no ano passado comprou mais de 20
bilhões de dólares, a cotação da moeda
não se sustenta. A virada na balança comercial não
seria possível sem o bom momento da economia internacional
e sem o vigor da economia chinesa, que avança 10% ao ano
e, dado o seu tamanho, responde por aproximadamente um quarto de
todo o crescimento econômico do planeta. Para crescerem, os
chineses precisam importar matérias-primas que não
encontram em seu país. E é aí que o Brasil
ganha. As commodities, como minério de ferro e soja, subiram,
em média, mais de 50% nos últimos três anos
e atingiram as cotações mais elevadas em quase vinte
anos. Produtos primários cujas cotações são
fixadas nos mercados internacionais, as commodities respondem por
mais da metade das exportações brasileiras. Por isso
o empurrão chinês foi fundamental para o aumento das
vendas externas do país.
Se a China é o grande
consumidor de produtos básicos, os Estados Unidos são
o maior comprador de artigos mais elaborados. As duas grandes potências
vivem em quase-simbiose econômica e, enquanto esse equilíbrio
perdurar, seguirão carregando nas costas a economia mundial.
Trata-se de um ciclo que funciona da seguinte maneira: os Estados
Unidos compram os produtos feitos pela China, como têxteis
e eletrônicos; os chineses, donos de um saldo comercial gigantesco,
investem esses dólares em papéis da dívida
americana; com o investimento dos chineses (e também de outras
economias asiáticas) em títulos públicos americanos,
o governo dos Estados Unidos consegue rolar sua dívida com
juros mais baixos e, assim, as pessoas continuam se endividando
e consumindo loucamente. A grande questão é saber
até quando tal situação se sustentará.
O forte crescimento chinês se explica pelo processo de modernização
da economia e da absorção da população,
que tem trocado o campo pelas cidades. É um processo parecido
com o que ocorreu com o Brasil na década de 70 não
por acaso, o país chegou a crescer a taxas superiores a 10%
naquele período.
Especialistas em demografia estimam
que o processo de urbanização na China durará
mais dez anos. Só depois disso a expansão da demanda
doméstica do país perderá fôlego. Isso
faz crer, dizem os economistas, que o preço das commodities
seguirá alto por mais de uma década mais tempo
do que num ciclo normal de alta nos preços de produtos básicos.
"Os ciclos das commodities duram em geral de seis a oito anos, entre
a alta e a queda nos preços", diz Guilherme da Nóbrega,
economista-chefe da Itaú Corretora. "Como o atual ciclo teve
início em 2001, poderíamos imaginar que tenhamos atingido
o pico de valorização. Mas, com a China crescendo
forte, ninguém sabe ao certo até quando o ciclo vai
durar."
Goh Chai Hin/AFP
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| Loja da Louis Vuitton em Pequim: o vigor do
capitalismo chinês permite ao Brasil exportar cada vez
mais |
Quais são os benefícios
práticos dessa inédita abundância de dólares?
"Numa situação dessas, o país ganha uma janela
de oportunidade para fazer três coisas: reduzir a dívida
em dólares, aumentar as reservas internacionais e reduzir
a taxa de juro", diz o economista Ilan Goldfajn, ex-diretor do Banco
Central. "O governo tem feito as duas primeiras; falta a terceira."
Goldfajn, assim como seu ex-colega de BC e atual sócio Armínio
Fraga, considera que o bom momento da economia mundial conspira
a favor do Brasil e, com o ajuste das contas externas, já
há espaço para uma queda um pouco mais acentuada na
taxa de juro. Até pouco tempo atrás, o país
era obrigado a manter essa taxa em níveis extremamente elevados
para evitar que o capital estrangeiro fosse embora e ocorresse a
crise cambial, tão temida pelo professor Simonsen. Hoje o
Banco Central precisa calibrar sua taxa básica de juro (a
Selic) única e exclusivamente para conter a inflação.
Sob o argumento de manter as expectativas sob controle e dentro
de sua meta, a atual diretoria do BC optou por diminuir os juros
aos poucos, enquanto sanava as fragilidades externas. O governo
anunciou, recentemente, um plano de recompra de parte dos títulos
da dívida externa. O país continuará tendo
essa dívida, mas, descontando-se as reservas internacionais
e os demais créditos brasileiros, ela será nula. De
acordo com algumas projeções, isso deverá ocorrer
em abril, supondo que o governo continue comprando dólares
e abatendo a dívida externa.
Qual é a importância
disso? A redução do passivo externo, dizem os analistas,
é o primeiro passo para que o país obtenha a classificação
de investment grade (grau de investimento), o que se espera
que ocorra em dois anos. Essa classificação dá
um certificado de qualidade a países e empresas que, por
provarem ser mais sólidos financeiramente, obtêm o
direito de pagar taxas de juro mais baixas. Principalmente, quem
atinge esse paraíso de estabilidade abre as portas para receber
investimentos de companhias e fundos que hoje são proibidos
por seus estatutos de colocar dinheiro em economias de risco
mesmo que o risco seja pequeno.
Com uma dívida menor e
mais fácil de ser paga, o gasto com os juros cairá,
dando espaço para melhora nas finanças públicas
e o aumento dos investimentos do governo e do setor privado. Por
enquanto, os investimentos estrangeiros no setor produtivo ainda
seguem tímidos chegaram a 33 bilhões de dólares
em 2000, mas no ano passado ficaram em meros 15 bilhões.
O destino mais comum do dinheiro externo têm sido as bolsas.
Inflada pelos investidores estrangeiros, a Bolsa de Valores de São
Paulo (Bovespa) bate recordes atrás de recordes de valorização.
A falta de investimentos diretos
mostra uma curiosa dicotomia da economia brasileira. O setor externo
vende saúde. Mas internamente o quadro não é
tão bom: a economia cresce pouco e o governo segue gastando
muito e mal. Para que a melhora externa seja incorporada pela economia
doméstica, é preciso criar pontes entre esses dois
mundos e fazer o que nenhum presidente brasileiro conseguiu: diminuir
o tamanho do Estado. Até lá, o país continuará
vulnerável a uma reviravolta nos humores da economia global.
Hoje a frase de Simonsen poderia ser atualizada para: "O câmbio
ajuda, mas os gastos do governo matam".
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