Edição 1944 . 22 de fevereiro de 2006

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Economia e Negócios
Por que o dólar
não pára de cair

2,60 reais há um ano, 2,10 na
semana passada. A aposta é
que chegue a 1,90 em dezembro


Giuliano Guandalini


"A inflação aleija, mas a crise cambial mata." A máxima foi criada pelo ex-ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen (1935-1997) e pairou como uma assombração nas últimas três décadas. Virou lugar-comum, de tanto ser citada. Não era para menos. Todas as piores crises brasileiras estiveram associadas à falta de dólares. Nos anos 80, o país, afogado em dívidas e quebrado, declarou duas vezes a moratória do pagamento de sua dívida externa. Mesmo sob o governo Fernando Henrique, que implantou o Plano Real e pôs fim à inflação, o Brasil flertou com o precipício duas vezes, em 1998 e 2002, e só escapou graças ao socorro do Fundo Monetário Internacional (FMI). Nas últimas semanas, no entanto, a máxima do economista carioca voltou a ser lembrada com freqüência, agora num contexto totalmente diverso. O vaticínio de Simonsen já não assusta. Hoje sobram dólares na economia brasileira. De 2002 para cá, as contas externas passaram por uma pequena revolução. As exportações dobraram, o endividamento externo caiu pela metade e as reservas internacionais não andavam tão gordas fazia muito tempo. De devedor, o Brasil está prestes a se tornar credor externo – o total devido pelo país a empresas e bancos estrangeiros será inferior ao total que ele tem em créditos. É uma situação inédita na história brasileira. Representa o fim do pesadelo das crises cambiais e abre uma janela de oportunidade única para o país atacar suas mazelas internas e voltar a crescer.

O resultado mais visível desse processo pode ser verificado na cotação da moeda americana. O valor do dólar vem declinando constantemente ante o real. Na semana passada, chegou a 2,10 reais, o menor preço em cinco anos – há um ano, o dólar valia 2,60 reais –, e já há analistas projetando uma queda da moeda para menos de 2 reais. Desde a introdução do sistema de câmbio flutuante no país, em 1999, as cotações oscilam de acordo com a lei mais básica da economia, a da oferta e da procura. Quando a oferta é pequena e a procura é elevada, os preços sobem. Vale tanto para chuchu quanto para moedas sob o regime de câmbio flutuante. Mas por que a oferta de dólares aumentou tanto? Em 2002, diante do temor da vitória do PT nas eleições, o país enfrentou uma séria crise de desconfiança internacional. Ninguém queria emprestar dinheiro ao Brasil, os dólares sumiram e a cotação da moeda americana chegou a 4 reais. Hoje o país vive situação oposta. A queda da inflação e o controle da dívida pública seduziram os investidores estrangeiros, que estão de paquera com as bolsas do país.

Mauricio Lima/AE
Pregão na BM&F: chuva de dólares infla cotação das Bolsas brasileiras


Isso foi possível, entre outros motivos, pela seriedade da política econômica – que alguns gostam de classificar, pejorativamente, de "ortodoxa". Mas o grande motor dessa espetacular reversão é a balança comercial, cujo superávit saltou de 13 bilhões de dólares, em 2002, para 45 bilhões, no ano passado. O resultado dá uma folga de caixa ao governo, que tem como honrar todos os seus débitos externos e ainda sobra dólar. Por isso, mesmo com as intervenções do Banco Central, que só no ano passado comprou mais de 20 bilhões de dólares, a cotação da moeda não se sustenta. A virada na balança comercial não seria possível sem o bom momento da economia internacional e sem o vigor da economia chinesa, que avança 10% ao ano e, dado o seu tamanho, responde por aproximadamente um quarto de todo o crescimento econômico do planeta. Para crescerem, os chineses precisam importar matérias-primas que não encontram em seu país. E é aí que o Brasil ganha. As commodities, como minério de ferro e soja, subiram, em média, mais de 50% nos últimos três anos e atingiram as cotações mais elevadas em quase vinte anos. Produtos primários cujas cotações são fixadas nos mercados internacionais, as commodities respondem por mais da metade das exportações brasileiras. Por isso o empurrão chinês foi fundamental para o aumento das vendas externas do país.

Se a China é o grande consumidor de produtos básicos, os Estados Unidos são o maior comprador de artigos mais elaborados. As duas grandes potências vivem em quase-simbiose econômica e, enquanto esse equilíbrio perdurar, seguirão carregando nas costas a economia mundial. Trata-se de um ciclo que funciona da seguinte maneira: os Estados Unidos compram os produtos feitos pela China, como têxteis e eletrônicos; os chineses, donos de um saldo comercial gigantesco, investem esses dólares em papéis da dívida americana; com o investimento dos chineses (e também de outras economias asiáticas) em títulos públicos americanos, o governo dos Estados Unidos consegue rolar sua dívida com juros mais baixos e, assim, as pessoas continuam se endividando e consumindo loucamente. A grande questão é saber até quando tal situação se sustentará. O forte crescimento chinês se explica pelo processo de modernização da economia e da absorção da população, que tem trocado o campo pelas cidades. É um processo parecido com o que ocorreu com o Brasil na década de 70 – não por acaso, o país chegou a crescer a taxas superiores a 10% naquele período.

Especialistas em demografia estimam que o processo de urbanização na China durará mais dez anos. Só depois disso a expansão da demanda doméstica do país perderá fôlego. Isso faz crer, dizem os economistas, que o preço das commodities seguirá alto por mais de uma década – mais tempo do que num ciclo normal de alta nos preços de produtos básicos. "Os ciclos das commodities duram em geral de seis a oito anos, entre a alta e a queda nos preços", diz Guilherme da Nóbrega, economista-chefe da Itaú Corretora. "Como o atual ciclo teve início em 2001, poderíamos imaginar que tenhamos atingido o pico de valorização. Mas, com a China crescendo forte, ninguém sabe ao certo até quando o ciclo vai durar."


Goh Chai Hin/AFP
Loja da Louis Vuitton em Pequim: o vigor do capitalismo chinês permite ao Brasil exportar cada vez mais

Quais são os benefícios práticos dessa inédita abundância de dólares? "Numa situação dessas, o país ganha uma janela de oportunidade para fazer três coisas: reduzir a dívida em dólares, aumentar as reservas internacionais e reduzir a taxa de juro", diz o economista Ilan Goldfajn, ex-diretor do Banco Central. "O governo tem feito as duas primeiras; falta a terceira." Goldfajn, assim como seu ex-colega de BC e atual sócio Armínio Fraga, considera que o bom momento da economia mundial conspira a favor do Brasil e, com o ajuste das contas externas, já há espaço para uma queda um pouco mais acentuada na taxa de juro. Até pouco tempo atrás, o país era obrigado a manter essa taxa em níveis extremamente elevados para evitar que o capital estrangeiro fosse embora e ocorresse a crise cambial, tão temida pelo professor Simonsen. Hoje o Banco Central precisa calibrar sua taxa básica de juro (a Selic) única e exclusivamente para conter a inflação. Sob o argumento de manter as expectativas sob controle e dentro de sua meta, a atual diretoria do BC optou por diminuir os juros aos poucos, enquanto sanava as fragilidades externas. O governo anunciou, recentemente, um plano de recompra de parte dos títulos da dívida externa. O país continuará tendo essa dívida, mas, descontando-se as reservas internacionais e os demais créditos brasileiros, ela será nula. De acordo com algumas projeções, isso deverá ocorrer em abril, supondo que o governo continue comprando dólares e abatendo a dívida externa.

Qual é a importância disso? A redução do passivo externo, dizem os analistas, é o primeiro passo para que o país obtenha a classificação de investment grade (grau de investimento), o que se espera que ocorra em dois anos. Essa classificação dá um certificado de qualidade a países e empresas que, por provarem ser mais sólidos financeiramente, obtêm o direito de pagar taxas de juro mais baixas. Principalmente, quem atinge esse paraíso de estabilidade abre as portas para receber investimentos de companhias e fundos que hoje são proibidos por seus estatutos de colocar dinheiro em economias de risco – mesmo que o risco seja pequeno.

Com uma dívida menor e mais fácil de ser paga, o gasto com os juros cairá, dando espaço para melhora nas finanças públicas e o aumento dos investimentos do governo e do setor privado. Por enquanto, os investimentos estrangeiros no setor produtivo ainda seguem tímidos – chegaram a 33 bilhões de dólares em 2000, mas no ano passado ficaram em meros 15 bilhões. O destino mais comum do dinheiro externo têm sido as bolsas. Inflada pelos investidores estrangeiros, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) bate recordes atrás de recordes de valorização.

A falta de investimentos diretos mostra uma curiosa dicotomia da economia brasileira. O setor externo vende saúde. Mas internamente o quadro não é tão bom: a economia cresce pouco e o governo segue gastando muito e mal. Para que a melhora externa seja incorporada pela economia doméstica, é preciso criar pontes entre esses dois mundos e fazer o que nenhum presidente brasileiro conseguiu: diminuir o tamanho do Estado. Até lá, o país continuará vulnerável a uma reviravolta nos humores da economia global. Hoje a frase de Simonsen poderia ser atualizada para: "O câmbio ajuda, mas os gastos do governo matam".

 






 
 
 
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