Edição 1944 . 22 de fevereiro de 2006

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Internacional
O mal do "jeitinho"

Acordo dá a Presidência a Préval no Haiti
no primeiro turno. É mais um ilegítimo

Walter Astrada/AFP
Festa pela eleição de Préval: ganhou no grito


A eleição que pretendia dar algum tipo de normalidade ao país e legitimidade ao governo terminou como todas as outras no Haiti: levou à Presidência não o candidato que venceu nas urnas, mas aquele cujos partidários demonstraram maior poder de fogo nas ruas. René Préval, o presidente que vai tomar posse, teve 48% dos votos válidos, o que exigiria um segundo turno. Como a turba estava queimando pneus e carros em Porto Príncipe, uma rápida negociação envolvendo a ONU, a Organização dos Estados Americanos e o governo interino haitiano decidiu entregar o cargo a Préval. Nos últimos dois anos, com a ajuda de tropas internacionais, inclusive brasileiras, a ONU tenta transformar o Haiti numa nação – sem sucesso. O país mais pobre do continente é um Estado falido, que em diversos aspectos lembra muito mais certas partes da África do que a América Latina.

Longe de ser a solução, Préval é parte do problema. Não apenas pela forma tortuosa com que foi eleito. O problema é também o que ele representa. O único presidente a terminar um mandato na história do país, entre 1996 e 2000, Préval foi durante muito tempo o braço-direito de Jean-Bertrand Aristide, o último numa longa lista de déspotas haitianos. Eleito em 1990, Aristide foi deposto pelos militares oito meses depois, recolocado no poder pelos Estados Unidos em 1994, eleito para um segundo mandato em 2000 e deposto novamente em 2004. Ele é um ícone e um produto da teologia da libertação, cuja contribuição foi fundamental para criar o caos atual no Haiti.

Na última década da Guerra Fria, um grupo de padres socialistas dominou as igrejas nas favelas de Porto Príncipe. Aristide, que depois seria expulso da ordem dos salesianos, era um deles. Embalados pelo projeto de uma revolução comunista e cristã, eles incitaram os moradores das favelas contra as "instituições e a economia burguesas". A idéia era expulsar os haitianos mais abastados que lideravam o país – sem oferecer nenhum projeto viável do ponto de vista econômico e político para substituí-los. Em seus sermões, o padre Aristide clamava pela necessidade moral de violência política. Com a ajuda dos "batalhões" de favelados, ele intimidou adversários e elegeu-se presidente. No poder, perseguiu a oposição e governou com a turba na rua. Préval herdou os batalhões de favelados. E o populismo de Aristide. Como sempre, esses desmiolados são ótimos em destruir o que resta de civilização em sociedades primitivas como o Haiti. Construir não é com eles.

 
 
 
 
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