Edição 1944 . 22 de fevereiro de 2006

Índice
Millôr
Lya Luft
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Auto-retrato
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Internacional
Isso sim que é ofensa

As novas imagens de tortura
em Abu Ghraib são revoltantes
– e não só para os muçulmanos

The New York Times
Soldado americano senta sobre preso iraquiano amarrado entre duas macas: cenas de tortura de 2003


Os americanos não encontraram no Iraque os estoques de armas de destruição em massa que o presidente George W. Bush afirmava existirem por lá. Também foram incapazes de produzir provas da alegada colaboração entre o regime de Saddam Hussein e os terroristas de Osama bin Laden. Abstraindo-se o fato de que a geopolítica do petróleo não é motivo aceitável para a invasão de um país, restou aos Estados Unidos uma derradeira justificativa para a guerra no Oriente Médio: ajudar a estabelecer um regime democrático numa terra que historicamente só conheceu a tirania. Nesse aspecto, há resultados palpáveis. O Iraque realizou eleições livres pela primeira vez em sua história. Infelizmente, esse avanço memorável foi manchado pela divulgação na semana passada, por uma emissora de televisão australiana, de novas imagens de tortura e humilhação de prisioneiros praticadas por soldados americanos em Abu Ghraib, a cadeia-símbolo das crueldades do regime de Saddam Hussein. Diante dessas imagens, é difícil para um iraquiano entender por que ser torturado por estrangeiros seria preferível a ser maltratado por um conterrâneo. A invasão americana se justificaria se nenhum iraquiano precisasse voltar a temer a tortura em Abu Ghraib.

O impacto das novas imagens é duplicado pelo conhecimento de como os Estados Unidos reagiram às fotos anteriores, divulgadas em 2004. A reação foi branda para uma superpotência que se atribuiu o propósito de ensinar ao mundo o respeito aos direitos humanos. O governo americano primeiro tentou alegar que os abusos foram cometidos por alguns poucos soldados indisciplinados – apesar das evidências, apuradas por uma comissão do Congresso americano, de que as torturas ocorreram com o consentimento ou a omissão de superiores. No fim, punições atingiram a arraia-miúda, enquanto uma espécie de anistia velada beneficiou os escalões superiores. Dos 25 militares levados à corte marcial, apenas nove foram punidos:

• O sargento Charles Graner Jr., que aparecia em muitas das fotos, foi condenado a dez anos de prisão.

• A soldada Lynndie England, namorada de Graner, também muito fotografada maltratando prisioneiros, pegou três anos de cadeia.

• O sargento Ivan Frederick II foi condenado a oito anos de prisão.

• O soldado que tirou as fotos pegou um ano.

• Quatro soldados foram condenados a penas entre seis e dez meses de cadeia, e um quinto foi rebaixado de posto.

• Em um caso similar, Lewis Welshofer Jr., carcereiro-chefe da prisão de Al-Qaim, foi julgado pela morte de um general iraquiano. Amarrado e enfiado dentro de um saco de dormir, sobre o qual se sentou um militar americano, o general morreu asfixiado em 2003. Welshofer Jr. foi condenado a três anos de cadeia, pena revertida para multa de 6.000 dólares e uma reprimenda oficial.

• Nenhuma patente superior foi punida.

As fotografias e os vídeos divulgados na semana passada não representam fatos novos. Fazem parte do mesmo pacote de quatro vídeos e mais de 100 fotografias entregue por um soldado à Justiça Militar dos Estados Unidos em 2004, mas permaneceram ocultos por serem demasiadamente repulsivos. Não se sabe como chegaram à televisão australiana. São de embrulhar o estômago. Há várias cenas de um doente mental que serviu como uma espécie de brinquedo para os soldados americanos. Num vídeo, ele bate repetidas vezes a cabeça contra uma porta, suja de sangue. Em uma foto, aparece nu e pendurado de cabeça para baixo num beliche, e, em outra, coberto de fezes. Os telespectadores foram poupados de cenas ainda mais degradantes, em que os presos são forçados a se masturbar na frente da câmera e a simular sexo oral.

Presos submetidos a situação de constrangimento e de dor em países com instituições falidas ou com ditaduras não surpreendem ninguém. É diferente quando isso ocorre numa prisão mantida pela maior democracia do mundo. Os maometanos que reagiram com exagero à publicação de charges de Maomé ajudaram a reforçar a idéia dominante no Ocidente de que o mundo islâmico é dominado por um fanatismo inescrutável e primitivo. A barbárie cometida por militares americanos e a falta de punições exemplares aos culpados têm efeito inverso. Enfraquecem a autoridade moral que os Estados Unidos podiam ter para exigir respeito aos direitos humanos em outros países.

 
 
 
 
topovoltar