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Internacional Isso
sim que é ofensa As novas imagens de tortura
em Abu Ghraib são revoltantes e não só para os
muçulmanos
The
New York Times
 | | Soldado
americano senta sobre preso iraquiano amarrado entre duas macas: cenas de tortura
de 2003 |
Os americanos não
encontraram no Iraque os estoques de armas de destruição em massa
que o presidente George W. Bush afirmava existirem por lá. Também
foram incapazes de produzir provas da alegada colaboração entre
o regime de Saddam Hussein e os terroristas de Osama bin Laden. Abstraindo-se
o fato de que a geopolítica do petróleo não é motivo
aceitável para a invasão de um país, restou aos Estados Unidos
uma derradeira justificativa para a guerra no Oriente Médio: ajudar a estabelecer
um regime democrático numa terra que historicamente só conheceu
a tirania. Nesse aspecto, há resultados palpáveis. O Iraque realizou
eleições livres pela primeira vez em sua história. Infelizmente,
esse avanço memorável foi manchado pela divulgação
na semana passada, por uma emissora de televisão australiana, de novas
imagens de tortura e humilhação de prisioneiros praticadas por soldados
americanos em Abu Ghraib, a cadeia-símbolo das crueldades do regime de
Saddam Hussein. Diante dessas imagens, é difícil para um iraquiano
entender por que ser torturado por estrangeiros seria preferível a ser
maltratado por um conterrâneo. A invasão americana se justificaria
se nenhum iraquiano precisasse voltar a temer a tortura em Abu Ghraib.
O impacto das novas imagens é duplicado pelo conhecimento de como os Estados
Unidos reagiram às fotos anteriores, divulgadas em 2004. A reação
foi branda para uma superpotência que se atribuiu o propósito de
ensinar ao mundo o respeito aos direitos humanos. O governo americano primeiro
tentou alegar que os abusos foram cometidos por alguns poucos soldados indisciplinados
apesar das evidências, apuradas por uma comissão do Congresso
americano, de que as torturas ocorreram com o consentimento ou a omissão
de superiores. No fim, punições atingiram a arraia-miúda,
enquanto uma espécie de anistia velada beneficiou os escalões superiores.
Dos 25 militares levados à corte marcial, apenas nove foram punidos:
O sargento Charles Graner Jr., que aparecia em muitas
das fotos, foi condenado a dez anos de prisão.
A soldada Lynndie England, namorada de Graner, também muito fotografada
maltratando prisioneiros, pegou três anos de cadeia.
O sargento Ivan Frederick II foi condenado a oito anos de prisão.
O soldado que tirou as fotos pegou um ano.
Quatro soldados foram condenados a penas entre seis
e dez meses de cadeia, e um quinto foi rebaixado de posto.
Em um caso similar, Lewis Welshofer Jr., carcereiro-chefe da prisão de
Al-Qaim, foi julgado pela morte de um general iraquiano. Amarrado e enfiado dentro
de um saco de dormir, sobre o qual se sentou um militar americano, o general morreu
asfixiado em 2003. Welshofer Jr. foi condenado a três anos de cadeia, pena
revertida para multa de 6.000 dólares e uma reprimenda oficial.
Nenhuma patente superior foi punida.
As fotografias e os vídeos divulgados na semana passada não representam
fatos novos. Fazem parte do mesmo pacote de quatro vídeos e mais de 100
fotografias entregue por um soldado à Justiça Militar dos Estados
Unidos em 2004, mas permaneceram ocultos por serem demasiadamente repulsivos.
Não se sabe como chegaram à televisão australiana. São
de embrulhar o estômago. Há várias cenas de um doente mental
que serviu como uma espécie de brinquedo para os soldados americanos. Num
vídeo, ele bate repetidas vezes a cabeça contra uma porta, suja
de sangue. Em uma foto, aparece nu e pendurado de cabeça para baixo num
beliche, e, em outra, coberto de fezes. Os telespectadores foram poupados de cenas
ainda mais degradantes, em que os presos são forçados a se masturbar
na frente da câmera e a simular sexo oral.
Presos submetidos a situação de constrangimento e de dor em países
com instituições falidas ou com ditaduras não surpreendem
ninguém. É diferente quando isso ocorre numa prisão mantida
pela maior democracia do mundo. Os maometanos que reagiram com exagero à
publicação de charges de Maomé ajudaram a reforçar
a idéia dominante no Ocidente de que o mundo islâmico é dominado
por um fanatismo inescrutável e primitivo. A barbárie cometida por
militares americanos e a falta de punições exemplares aos culpados
têm efeito inverso. Enfraquecem a autoridade moral que os Estados Unidos
podiam ter para exigir respeito aos direitos humanos em outros países. |