Edição 1944 . 22 de fevereiro de 2006

Índice
Millôr
Lya Luft
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Auto-retrato
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Brasil
Novo caixa do mensalão

CPI flagra primeiro caso de
mensaleiro embolsando dinheiro
dos fundos de pensão


Alexandre Oltramari

 
Chico Guedes/Jornal A Gazeta
Baiano, cujo assessor recebeu 100 000 reais quando o deputado era candidato a prefeito

Desde que o escândalo do mensalão veio a público, dezoito deputados foram apontados pela CPI dos Correios como beneficiários do esquema. Na semana passada, apareceu mais um suspeito. É o deputado Nilton Baiano, do PP do Espírito Santo. Seu assessor de imprensa, Renato Paolielo, foi flagrado embolsando 100.000 reais da corretora Euro, do Rio de Janeiro, no dia 28 de julho de 2004, quando o deputado estava em campanha pela prefeitura de Vitória. Na mesma época do pagamento, a corretora Euro causou um prejuízo de 8 milhões de reais ao Nucleos, o fundo de pensão dos empregados das empresas nucleares federais. O prejuízo é resultado de onze operações comprovadamente irregulares, nas quais a Euro comprava títulos do Tesouro Nacional por um preço baixo e, no mesmo dia, revendia-os por um preço superior ao Nucleos. "Não sei o que foi feito com esse dinheiro. Se quem recebeu foi o meu assessor, é ele que tem de dizer o que fez", diz Baiano. O assessor do deputado trabalha em Vitória. Diz que trabalhou para a Euro em 2004, recebeu 100.000 reais, mas esqueceu-se de declarar no imposto de renda. "Vou retificar", diz.

A relevância da última descoberta da CPI não é o aparecimento de mais um deputado na caravela mensaleira. O ponto fulcral do espisódio está no fato de o dinheiro embolsado pelo assessor do deputado reforçar uma suspeita antiga: a de que fundos de pensão de estatais podem ter financiado o mensalão. A CPI já conseguiu quebrar o sigilo bancário de catorze fundos de pensão de estatais e de 31 corretoras que negociavam com os fundos. Examinando-se a papelada bancária, descobriu-se que os fundos de pensão perderam 700 milhões de reais nos últimos cinco anos. Não se tinha notícia, no entanto, de que as corretoras que se locupletaram com os prejuízos dos fundos tivessem feito pagamentos a deputados. Os primeiros sinais dessa triangulação apareceram quando a CPI começou a examinar os dados bancários das corretoras. Além do assessor do deputado Nilton Baiano, cujo saque já foi comprovado, outros onze assessores parlamentares estão sendo investigados sob a mesma suspeita. "É o velho mensalão, mas pago por um duto até então ignorado", diz um dos investigadores da CPI.

A investigação, porém, já esbarrou num obstáculo. No mês passado, o presidente do STF, Nelson Jobim, suspendeu a quebra do sigilo bancário da Euro decretada pela CPI. Com isso, a corretora tornou-se a única, entre as 31 investigadas, a garantir que suas operações ficarão longe dos olhos do público. Os membros da CPI acham, contudo, que os detalhes já conhecidos são suficientes para incluir o deputado do PP na lista de parlamentares que vão para a degola. Nos corredores da CPI, circula a versão de que os 100.000 reais recebidos pelo assessor foram destinados a pagar a contratação de uma pesquisa eleitoral quando Baiano fazia campanha para a prefeitura de Vitória. Nessa hipótese, a situação de Baiano ficará muito parecida com a do deputado Professor Luzinho (PT-SP), cujo assessor recebeu 20.000 reais do valerioduto. Na semana que vem, já será votado o pedido de cassação do mandato de Luizinho, junto com o do deputado Roberto Brant (PFL-MG), cujo assessor recebeu 102.000 reais do valerioduto, usados para pagar despesas eleitorais do parlamentar.

O deputado Nilton Baiano tem contra si o peso da própria biografia. Não é a primeira vez que seu nome é envolvido em uma história esquisita. Além de ser flagrado como pianista no plenário da Câmara em 1991, Baiano aparece, em setembro passado, numa conversa telefônica grampeada pela Polícia Federal. Na conversa, o ex-prefeito Paulo Maluf pede ao presidente do PP, Pedro Corrêa, que dê um recado a Nilton Baiano: "Diga-lhe que é um ingrato. Recebeu 200.000 dólares em 1996 para ser candidato a prefeito. Não foi candidato e ficou com o dinheiro". Maluf é correligionário de Nilton Baiano. Deve saber o que está falando.

 

ROTA DA SUSPEITA

Entre junho de 2004 e fevereiro do ano passado, o Nucleos, fundo de pensão dos funcionários das indústrias nucleares do Brasil, sofreu prejuízos de 8 milhões de reais em operações irregulares com a corretora Euro

A Euro, nesse mesmo período, depositou 100 000 reais na conta de um assessor do deputado Nilton Baiano (PP-ES)

 
 
 
 
topovoltar