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Brasil Acabou
a moleza Em decisão histórica,
o STF dá fim ao nepotismo no Judiciário  Renato
Piccinin
Euler
Junior/Ag. O Globo
 | | Protesto
no fórum de Minas: até a semana passada, nenhum parente demitido |
Há várias formas de apropriação do bem público
em benefício privado. No Brasil, uma das mais disseminadas é o nepotismo,
prática que encontra defensores em todas as instâncias de poder
Executivo, Legislativo e Judiciário. Na última quinta-feira, o Supremo
Tribunal Federal (STF) conseguiu romper uma dessas trincheiras. Por 9 votos a
1, os ministros referendaram uma resolução do Conselho Nacional
de Justiça (CNJ) que, em outubro do ano passado, estabeleceu o fim das
contratações de parentes de magistrados no Poder Judiciário.
O texto, que prevê o veto até o terceiro grau de parentesco, também
dava um prazo de noventa dias para que os tribunais se adequassem à nova
legislação. Em uma demonstração de corporativismo
poucas vezes vista, no entanto, os próprios tribunais passaram a conceder
liminares impedindo o cumprimento da resolução. A alegação
era que o CNJ não tinha competência para definir normas de funcionamento
do Judiciário. Até a semana passada, quando se esgotou o prazo para
cumprimento da resolução, 701 liminares haviam pipocado em tribunais
de vinte estados. A avalanche pró-nepotismo só foi derrubada graças
a uma Ação Declaratória de Constitucionalidade impetrada
pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), que liderou um
movimento em favor da resolução.
O relator do processo, ministro Carlos Ayres Britto, votou pela constitucionalidade
do ato do CNJ, sendo acompanhado por seus colegas a exceção
foi o ministro Marco Aurélio Mello. Em seu voto, Britto definiu com clareza
as razões que tornaram o nepotismo um entrave à modernidade no Estado
brasileiro: "Não se tem a necessária isenção quando
se vai avaliar a capacitação profissional de um parente". O ministro
ainda fez uso do que classificou de "metáfora republicana", para jogar
uma pá de cal nas pretensões dos nepotistas: "Na absoluta separação
entre o público e o privado, não se pode fazer cortesia com o chapéu
alheio".
Sérgio
Lima/Folha Imagem
 | | Britto:
"não" à cortesia com chapéu alheio |
A
decisão do STF força os tribunais a tomar medidas para exonerar
os parentes de juízes que ainda continuam empregados. Um levantamento da
OAB mostra que, até o momento, apenas 25% deles tinham abandonado seus
cargos. O estudo mostra também que o nepotismo não é um hábito
cultivado apenas nos rincões. Entre os estados que mais resistiram ao fim
da prática estão Minas Gerais e Rio de Janeiro, onde até
a semana passada nenhum parente de juiz havia sido demitido. "O Estado brasileiro
é, por tradição, um cabide de empregos. A decisão
do Supremo foi uma vitória no combate a esse vício", diz o cientista
político Fábio Wanderley Reis, da UFMG. O presidente da Câmara,
Aldo Rebelo, anunciou que pretende colocar em votação uma proposta
de emenda constitucional proibindo o nepotismo em todo o serviço público.
Talvez tenha sido uma forma de se autopenitenciar. Na semana passada, Rebelo foi
constrangido a devolver um apartamento funcional que continuou a ocupar
e que manteve, a fim de abrigar sua sogra e seus 3.000 livros mesmo depois
que passou a morar na residência oficial da presidência da Câmara.
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