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Brasil
Unidade apenas na foto
Lula volta a brilhar nas pesquisas,
mas começa a desenhar-se um
divórcio entre ele e seu partido

Otávio Cabral e Julia Duailibi
Celso Junior/AE
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| Lula na festa do PT (acima) e a ministra
Dilma Rousseff ao entregar a mensagem de Lula ao Congresso:
já tem petista achando que dá para ganhar no primeiro
turno |
Lula Marques/Folha Imagem
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A mentira tem pernas curtas. A
vantagem dos petistas no caso é que a memória dos
brasileiros é ainda menos apta. A combinação
dessas duas características deu ao PT uma trégua.
Os petistas estão sabendo se aproveitar. Bastaram três
semanas de boas notícias, mostrando que o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva voltou a reagir nas pesquisas eleitorais,
para que os petistas, dentro e fora do governo, retomassem o ar
de autoconfiança inabalável. A exibição
pública desse novo estado de ânimo aconteceu durante
a festa dos 26 anos do PT, na segunda-feira passada. O motor do
entusiasmo foram os números da mais recente pesquisa CNT/Sensus,
na qual Lula aparece 10 pontos à frente do tucano José
Serra num eventual segundo turno. Ao chegar à festa, que
contou com a presença de 1 100 pessoas, Lula foi recebido
com euforia e saudado como presidente reeleito. "Um, dois, três!
Lula outra vez!", gritava o deputado Professor Luizinho (20.000
reais do valerioduto), em cuja mesa se sentavam os deputados João
Paulo Cunha (50.000 reais do valerioduto) e José Mentor (120.000
reais), além do único petista que renunciou ao mandato
para fugir da cassação, o ex-deputado Paulo Rocha
(920.000 reais). Uma prefeita petista da Bahia, Moema Gramacho,
presenteou Lula com um boneco vestindo uma faixa presidencial na
qual se lia: "Segundo mandato". Parecia uma festa de reeleição
em clima de unidade mas, por trás dessa aparente harmonia,
desenha-se um divórcio silencioso: nunca o PT e Lula foram
tão diferentes e tão distantes entre si.
Felipe Araújo/AE
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| Berzoini, no Roda Viva: o PMDB não
é mais essencial |
Mesmo de volta às alturas nas pesquisas, Lula tem persistido
na necessidade de reforçar e ampliar as alianças
mas o PT, diferentemente disso, já adotou um discurso distinto.
Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, o presidente
do PT, Ricardo Berzoini, voltou a afirmar que o apoio do PMDB é
desejável, mas, pela primeira vez, deu a entender que não
é indispensável. Na quarta-feira, quando levaram a
mensagem presidencial para a abertura do ano legislativo ao Congresso
Nacional, os ministros Jaques Wagner e Dilma Rousseff reprisaram
as declarações de Berzoini. Em conversa com dirigentes
do PMDB, Jaques Wagner insistiu no apoio do partido à reeleição
de Lula, mas usou um tom de desdém. "A dúvida agora
é se vamos ganhar no primeiro ou no segundo turno", disse
o ministro. "Com o apoio do PMDB, levamos no primeiro. Se o PMDB
lançar o Garotinho, Lula leva no segundo turno", concluiu,
referindo-se ao ex-governador Anthony Garotinho, que deixou seu
cargo de secretário no governo do Rio de Janeiro para se
dedicar a convencer seu partido a lançar candidato próprio
ele, no caso.
Na semana passada, os líderes
do PT demonstraram uma animação bem maior do que a
do próprio Lula com sua volta à liderança das
pesquisas. Os petistas celebram o entendimento de que não
existe uma terceira alternativa sólida na disputa presidencial
apenas Lula e, entre os tucanos, José Serra ou Geraldo
Alckmin. Garotinho nunca passa dos 16% dos votos, o que parece ser
seu teto. O governador Germano Rigotto, do Rio Grande do Sul, não
consegue alçar vôo nem entre o eleitorado gaúcho,
quanto mais no plano nacional. E a senadora Heloísa Helena,
do P-SOL, é um nome que todos tratam com deferência
porque, no fundo, não ameaça ninguém. É
mais uma razão para que o PT ande estufando o peito. Até
o ministro Miguel Rossetto, do Desenvolvimento Agrário, que
andava sumido, voltou a cantar de galo. Ao receber um grupo de deputados
na semana passada, Rossetto, segundo o relato de um dos presentes,
fez a seguinte análise dos bons números das pesquisas
eleitorais: "Agora estão reconhecendo que esse é o
melhor governo da história recente. Já estamos reeleitos".
O ministro ainda acrescentou: "A direita não conseguiu nos
derrubar e agora vai ter de nos agüentar por mais quatro anos.
Pelo menos".
A autoconfiança do PT
apareceu até nas negociações no Congresso Nacional.
Na semana passada, quando discutia o projeto de repactuação
das dívidas dos agricultores do Nordeste, o senador Aloizio
Mercadante, ao perceber que não conseguia impor seus pontos
de vista, disse que, se o projeto contrariasse os interesses do
Palácio do Planalto, seria então vetado pelo presidente
uma ameaça que, para evitar conflito com os parlamentares,
os petistas haviam deixado de usar desde o estouro do escândalo
do mensalão, no ano passado. "Eles voltaram a se comportar
com a velha arrogância de sempre", avalia o senador Jefferson
Peres, do PDT do Amazonas.
A indicação mais
clara de que o PT parece caminhar para um lado e Lula para o outro
está nas negociações para compor as alianças
eleitorais nos estados. Lula insiste em cercar-se de aliados, mas
os petistas, agora que as pesquisas voltaram a sorrir-lhes, fazem
o contrário. No Paraná, o PT desistiu de apoiar a
reeleição do governador Roberto Requião, do
PMDB, e se prepara para lançar o senador petista Flávio
Arns. Em Pernambuco, o ex-ministro Humberto Costa, que vinha negociando
uma aliança com o também ex-ministro Eduardo Campos,
do PSB, agora inverteu o tom: não quer nem se sentar à
mesa de negociações e, em vez de apoiar Campos ao
governo pernambucano, como vinha sendo discutido, pretende ele próprio
concorrer ao cargo. No Ceará, havia uma combinação
pluripartidária: o candidato ao governo do estado seria do
PSB (no caso, Cid Gomes, irmão do ministro Ciro Gomes), seu
vice seria do PT e o candidato ao Senado, do PMDB (no caso, o ex-ministro
Eunício Oliveira). Bastou Lula crescer nas pesquisas para
que os petistas do Ceará ateassem fogo no acordo. Há
duas semanas, dois líderes do PT local anunciaram que poderão
ser candidatos ao governo do estado e Cid Gomes, se quiser,
que fique de vice. É curioso que os petistas cearenses tenham
voltado à auto-suficiência com tanta rapidez. Afinal,
o PT do Ceará é que produziu o escândalo dos
100.000 dólares na cueca.
Histórias semelhantes,
que relembram o velho vício do PT pela hegemonia, voltaram
a acontecer de norte a sul do país. Em alguns casos, as vítimas
são aliados que ainda integram o governo. No Distrito Federal,
por exemplo, estava praticamente certo que o PT apoiaria o ministro
do Esporte, Agnelo Queiroz, do PCdoB, como candidato a governador.
Agora, mesmo sem ter um nome na ponta da língua, o PT quer
lançar candidato próprio. Em Santa Catarina, a senadora
Ideli Salvatti e o ministro da Pesca, José Fritsch, decidiram
ignorar o apelo de Lula para que apoiassem a reeleição
do governador Luiz Henrique, do PMDB. Atualmente, a senadora e o
ministro andam se engalfinhando na disputa de espaço para
se candidatar ao governo pelo PT. Até mesmo o negociador
político do Planalto, o ministro Jaques Wagner, renunciou
à negociação política. Na Bahia, desistiu
de formar uma frente para combater ACM e aliados e entrou
em campanha pelo interior do estado, mas sozinho. "O PT não
aprende. Foi só o Lula subir um pouco nas pesquisas que o
pescoço já engrossou. Desse jeito, o Lula ganha, mas
eles perdem", diz um aliado que está prestes a ser preterido
pelo PT.
O fato é que, ao examinar
as pesquisas, se constata que Lula teve forte recuperação,
mas nada indica que o PT esteja se beneficiando disso. Ao contrário.
Na última pesquisa CNT/Sensus, os números mostram
que o partido não faz diferença nem para o
bem nem para o mal. Apenas 2,1% dos eleitores dizem que escolheram
votar em Lula porque ele é do PT. Em contrapartida, entre
os eleitores que rejeitam Lula, apenas 4,5% dizem que não
votariam nele por ser do PT. A conclusão é que o PT
não tira nem dá votos, e o presidente segue sendo
muito maior do que seu partido. Mas, para evitar surpresas, Lula
tem sido aconselhado a tomar distância do PT. Há duas
semanas, um pesquisador visitou o presidente no Palácio do
Planalto e, de posse de um levantamento quantitativo, sugeriu a
Lula que não associasse seu nome ao PT, sobretudo depois
do início da campanha presidencial. O pesquisador informou
que o partido está ligado a atributos negativos como "corrupção",
"mau uso do dinheiro público", "má administração"
e "não-cumprimento de promessas". Lula, no entanto, apesar
do escândalo do mensalão e de dizer que não
sabia de nada do que acontecia debaixo de seu nariz, ainda aparece
vinculado a valores positivos, como "pessoa de passado limpo", "honesto",
"trabalhador" e "preocupado com os pobres". Assim sendo, quanto
mais longe Lula ficar das bandeiras vermelhas, melhor para ele.
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