Edição 1944 . 22 de fevereiro de 2006

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Brasil
Unidade apenas na foto

Lula volta a brilhar nas pesquisas,
mas começa a desenhar-se um
divórcio entre ele e seu partido


Otávio Cabral e Julia Duailibi


Celso Junior/AE
Lula na festa do PT (acima) e a ministra Dilma Rousseff ao entregar a mensagem de Lula ao Congresso: já tem petista achando que dá para ganhar no primeiro turno
Lula Marques/Folha Imagem

A mentira tem pernas curtas. A vantagem dos petistas no caso é que a memória dos brasileiros é ainda menos apta. A combinação dessas duas características deu ao PT uma trégua. Os petistas estão sabendo se aproveitar. Bastaram três semanas de boas notícias, mostrando que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a reagir nas pesquisas eleitorais, para que os petistas, dentro e fora do governo, retomassem o ar de autoconfiança inabalável. A exibição pública desse novo estado de ânimo aconteceu durante a festa dos 26 anos do PT, na segunda-feira passada. O motor do entusiasmo foram os números da mais recente pesquisa CNT/Sensus, na qual Lula aparece 10 pontos à frente do tucano José Serra num eventual segundo turno. Ao chegar à festa, que contou com a presença de 1 100 pessoas, Lula foi recebido com euforia e saudado como presidente reeleito. "Um, dois, três! Lula outra vez!", gritava o deputado Professor Luizinho (20.000 reais do valerioduto), em cuja mesa se sentavam os deputados João Paulo Cunha (50.000 reais do valerioduto) e José Mentor (120.000 reais), além do único petista que renunciou ao mandato para fugir da cassação, o ex-deputado Paulo Rocha (920.000 reais). Uma prefeita petista da Bahia, Moema Gramacho, presenteou Lula com um boneco vestindo uma faixa presidencial na qual se lia: "Segundo mandato". Parecia uma festa de reeleição em clima de unidade – mas, por trás dessa aparente harmonia, desenha-se um divórcio silencioso: nunca o PT e Lula foram tão diferentes e tão distantes entre si.

Felipe Araújo/AE
Berzoini, no Roda Viva: o PMDB não é mais essencial


Mesmo de volta às alturas nas pesquisas, Lula tem persistido na necessidade de reforçar e ampliar as alianças – mas o PT, diferentemente disso, já adotou um discurso distinto. Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, o presidente do PT, Ricardo Berzoini, voltou a afirmar que o apoio do PMDB é desejável, mas, pela primeira vez, deu a entender que não é indispensável. Na quarta-feira, quando levaram a mensagem presidencial para a abertura do ano legislativo ao Congresso Nacional, os ministros Jaques Wagner e Dilma Rousseff reprisaram as declarações de Berzoini. Em conversa com dirigentes do PMDB, Jaques Wagner insistiu no apoio do partido à reeleição de Lula, mas usou um tom de desdém. "A dúvida agora é se vamos ganhar no primeiro ou no segundo turno", disse o ministro. "Com o apoio do PMDB, levamos no primeiro. Se o PMDB lançar o Garotinho, Lula leva no segundo turno", concluiu, referindo-se ao ex-governador Anthony Garotinho, que deixou seu cargo de secretário no governo do Rio de Janeiro para se dedicar a convencer seu partido a lançar candidato próprio – ele, no caso.

Na semana passada, os líderes do PT demonstraram uma animação bem maior do que a do próprio Lula com sua volta à liderança das pesquisas. Os petistas celebram o entendimento de que não existe uma terceira alternativa sólida na disputa presidencial – apenas Lula e, entre os tucanos, José Serra ou Geraldo Alckmin. Garotinho nunca passa dos 16% dos votos, o que parece ser seu teto. O governador Germano Rigotto, do Rio Grande do Sul, não consegue alçar vôo nem entre o eleitorado gaúcho, quanto mais no plano nacional. E a senadora Heloísa Helena, do P-SOL, é um nome que todos tratam com deferência porque, no fundo, não ameaça ninguém. É mais uma razão para que o PT ande estufando o peito. Até o ministro Miguel Rossetto, do Desenvolvimento Agrário, que andava sumido, voltou a cantar de galo. Ao receber um grupo de deputados na semana passada, Rossetto, segundo o relato de um dos presentes, fez a seguinte análise dos bons números das pesquisas eleitorais: "Agora estão reconhecendo que esse é o melhor governo da história recente. Já estamos reeleitos". O ministro ainda acrescentou: "A direita não conseguiu nos derrubar e agora vai ter de nos agüentar por mais quatro anos. Pelo menos".

A autoconfiança do PT apareceu até nas negociações no Congresso Nacional. Na semana passada, quando discutia o projeto de repactuação das dívidas dos agricultores do Nordeste, o senador Aloizio Mercadante, ao perceber que não conseguia impor seus pontos de vista, disse que, se o projeto contrariasse os interesses do Palácio do Planalto, seria então vetado pelo presidente – uma ameaça que, para evitar conflito com os parlamentares, os petistas haviam deixado de usar desde o estouro do escândalo do mensalão, no ano passado. "Eles voltaram a se comportar com a velha arrogância de sempre", avalia o senador Jefferson Peres, do PDT do Amazonas.

A indicação mais clara de que o PT parece caminhar para um lado e Lula para o outro está nas negociações para compor as alianças eleitorais nos estados. Lula insiste em cercar-se de aliados, mas os petistas, agora que as pesquisas voltaram a sorrir-lhes, fazem o contrário. No Paraná, o PT desistiu de apoiar a reeleição do governador Roberto Requião, do PMDB, e se prepara para lançar o senador petista Flávio Arns. Em Pernambuco, o ex-ministro Humberto Costa, que vinha negociando uma aliança com o também ex-ministro Eduardo Campos, do PSB, agora inverteu o tom: não quer nem se sentar à mesa de negociações e, em vez de apoiar Campos ao governo pernambucano, como vinha sendo discutido, pretende ele próprio concorrer ao cargo. No Ceará, havia uma combinação pluripartidária: o candidato ao governo do estado seria do PSB (no caso, Cid Gomes, irmão do ministro Ciro Gomes), seu vice seria do PT e o candidato ao Senado, do PMDB (no caso, o ex-ministro Eunício Oliveira). Bastou Lula crescer nas pesquisas para que os petistas do Ceará ateassem fogo no acordo. Há duas semanas, dois líderes do PT local anunciaram que poderão ser candidatos ao governo do estado – e Cid Gomes, se quiser, que fique de vice. É curioso que os petistas cearenses tenham voltado à auto-suficiência com tanta rapidez. Afinal, o PT do Ceará é que produziu o escândalo dos 100.000 dólares na cueca.

Histórias semelhantes, que relembram o velho vício do PT pela hegemonia, voltaram a acontecer de norte a sul do país. Em alguns casos, as vítimas são aliados que ainda integram o governo. No Distrito Federal, por exemplo, estava praticamente certo que o PT apoiaria o ministro do Esporte, Agnelo Queiroz, do PCdoB, como candidato a governador. Agora, mesmo sem ter um nome na ponta da língua, o PT quer lançar candidato próprio. Em Santa Catarina, a senadora Ideli Salvatti e o ministro da Pesca, José Fritsch, decidiram ignorar o apelo de Lula para que apoiassem a reeleição do governador Luiz Henrique, do PMDB. Atualmente, a senadora e o ministro andam se engalfinhando na disputa de espaço para se candidatar ao governo pelo PT. Até mesmo o negociador político do Planalto, o ministro Jaques Wagner, renunciou à negociação política. Na Bahia, desistiu de formar uma frente para combater ACM e aliados – e entrou em campanha pelo interior do estado, mas sozinho. "O PT não aprende. Foi só o Lula subir um pouco nas pesquisas que o pescoço já engrossou. Desse jeito, o Lula ganha, mas eles perdem", diz um aliado que está prestes a ser preterido pelo PT.

O fato é que, ao examinar as pesquisas, se constata que Lula teve forte recuperação, mas nada indica que o PT esteja se beneficiando disso. Ao contrário. Na última pesquisa CNT/Sensus, os números mostram que o partido não faz diferença – nem para o bem nem para o mal. Apenas 2,1% dos eleitores dizem que escolheram votar em Lula porque ele é do PT. Em contrapartida, entre os eleitores que rejeitam Lula, apenas 4,5% dizem que não votariam nele por ser do PT. A conclusão é que o PT não tira nem dá votos, e o presidente segue sendo muito maior do que seu partido. Mas, para evitar surpresas, Lula tem sido aconselhado a tomar distância do PT. Há duas semanas, um pesquisador visitou o presidente no Palácio do Planalto e, de posse de um levantamento quantitativo, sugeriu a Lula que não associasse seu nome ao PT, sobretudo depois do início da campanha presidencial. O pesquisador informou que o partido está ligado a atributos negativos como "corrupção", "mau uso do dinheiro público", "má administração" e "não-cumprimento de promessas". Lula, no entanto, apesar do escândalo do mensalão e de dizer que não sabia de nada do que acontecia debaixo de seu nariz, ainda aparece vinculado a valores positivos, como "pessoa de passado limpo", "honesto", "trabalhador" e "preocupado com os pobres". Assim sendo, quanto mais longe Lula ficar das bandeiras vermelhas, melhor para ele.

 
 
 
 
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