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Brasil
Sem o peso da crise
O arrefecimento dos escândalos
impulsiona a candidatura de Lula. E os
tucanos brigões derretem na indefinição

Fábio Portela
Ilustração Baptistão
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Os resultados da última
pesquisa CNT/Sensus, divulgados na semana passada, causaram um rebuliço
no cenário político do país. Pela primeira
vez desde o início da crise do mensalão, um levantamento
aponta o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como favorito
nas eleições de outubro. Segundo o estudo, se a votação
fosse hoje, Lula venceria seus virtuais oponentes sem esforço.
Em um eventual segundo turno contra seu adversário mais bem
colocado, o tucano José Serra, o petista teria 10 pontos
porcentuais de dianteira.
Ninguém duvida do resultado
da pesquisa no que ela informa de essencial: Lula está à
frente de seus potenciais competidores. A principal razão
disso é que, nos últimos meses, o presidente beneficiou-se
do arrefecimento da crise política causada pelo que se descobriu
da profundidade e extensão da corrupção em
seu governo. Faz parte da natureza das crises amainar na ausência
de fatos novos que as sustentem. Nesse sentido, a oposição
em geral e os tucanos em particular deram sua inestimável
contribuição ao jogar água fria na fervura
do mensalão tanto pelo receio de acabar enredados
nele quanto por ter acreditado na estratégia de que o mais
vantajoso seria "deixar sangrar" o presidente. Deu no que deu. Lula
não só parou de sangrar como parece gozar de boa saúde
política. Na qualidade de detentor da faixa presidencial,
ele não tem de se esforçar para ganhar de seus adversários
eleitorais. É preciso que alguém ganhe dele. Até
agora Lula é o sujeito de todas as frases que falam da eleição
em 2006 e isso é uma vantagem inestimável.
Enquanto os adversários só puderem afirmar que "Lula
não se reelege" ou "Lula vai perder", estarão simplesmente
admitindo que não existe um nome capaz de derrotar o ocupante
do Palácio do Planalto. Quando isso começará
a mudar? Quando as manchetes forem "Serra vem aí" ou "Alckmin
é imbatível". Até lá...
A eclosão da crise havia
complicado as coisas: a popularidade de Lula passou a rolar ladeira
abaixo. Agora, no entanto, esfriado o escândalo, esse processo
cessou e Lula parou de perder. Animado com a bonança,
o presidente entrou de cabeça na campanha, embora relute
em dizer que é candidato. Trata-se de uma esperteza, não
de indecisão. Se anunciasse com todas as letras sua candidatura
à reeleição, Lula seria cobrado com rigor sobre
a turnê de inaugurações e reinaugurações
que recheiam agora sua agenda e também os noticiários
de televisão, generosos além da conta com o presidente
petista. Além disso, o anúncio tornaria ainda mais
escandalosos o brutal aumento dos gastos em publicidade oficial
e a chuva de dinheiro federal que passou a irrigar os segmentos
mais pobres da população nordestina. Lula, enfim,
é candidato, age como candidato, utiliza a máquina
pública como candidato, mas finge que não é.
O resultado é sua ressurreição nas pesquisas.
Em janeiro, o Ibope já apontava a tendência de crescimento
de Lula. E, no início do mês, o Datafolha divulgou
um levantamento que confirmava esse viés. Os dois institutos,
no entanto, mantinham Serra na dianteira. Embora, tradicionalmente,
as pesquisas da CNT/Sensus sempre resultem em mais pontos para o
petista (no segundo semestre do ano passado, as medições
de aprovação do governo Lula feitas pelo instituto
apontaram, em média, 6 pontos porcentuais a mais de "ótimo"
e "bom" do que as de outros institutos), o que chamou atenção
desta vez foram a velocidade com que Lula recuperou sua popularidade,
a distância que abriu em relação a Serra e o
fato de os números da CNT/Sensus fugirem da margem de erro
que caracteriza a variação da pontuação
dos candidatos.
Roberto Setton
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| Igarapé-Miri, no Pará: lá,
o Bolsa Família é o carro-chefe da campanha petista
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A oposição reagiu
à discrepância dos números como cartolas que
querem ganhar o campeonato no grito. Os líderes do PSDB no
Congresso ameaçaram pedir uma auditoria para verificar a
lisura do levantamento. A gritaria pegou mal enquanto Serra
apareceu na frente do petista, nenhum tucano denunciou a CNT/Sensus
por má-fé. Os políticos nacionais se sentem
à vontade para questionar as pesquisas de opinião
porque não há fiscalização sobre elas
no Brasil, embora todas precisem ser registradas no Tribunal Superior
Eleitoral. Por isso, é fácil burlar esse tipo de levantamento
e inflar ou minguar as intenções de
voto em um candidato. Especialistas em levantamentos de opinião
citam quatro tipos de fraude comuns no Brasil. Uma delas consiste
em "esticar" a margem de erro das pesquisas para empurrar a pontuação
de um candidato para o piso ou para o teto da faixa de variação.
Outro expediente é o superfaturamento de entrevistas. Em
uma pesquisa programada para ter 2.000 consultas, por exemplo, realizam-se
300 entrevistas extras. Na hora de tabular os dados, escolhem-se
as que mais interessam. Também é comum direcionar
o questionário para induzir as respostas. Faz-se isso, por
exemplo, solicitando ao entrevistado que liste os pontos fortes
de um candidato e, na seqüência, perguntando a ele se
votaria nesse político. Por último, sempre se podem
escolher as cidades e as circunstâncias em que as entrevistas
são feitas. O levantamento da CNT/Sensus foi realizado em
um momento propício para Lula. Estavam na mídia notícias
sobre o aumento do salário mínimo e a operação
tapa-buracos nas estradas. Além disso, as entrevistas começaram
a ser coletadas no dia 6 deste mês, um dia depois de o governo
federal concluir o pagamento do Bolsa Família um programa
de distribuição mensal de dinheiro que, apesar de
ter sido herdado da administração passada, se tornou
o símbolo do governo petista. Essas coincidências,
no entanto, não são suficientes para dizer que a CNT/Sensus
agiu de caso pensado.
Evelson de Freitas/AE
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| Serra e Alckmin: um sabota o outro, para a
alegria de Lula, que recupera a popularidade |
Lula subiu. Isso é fato.
E, como mostra um levantamento da própria CNT/Sensus, foi
fortemente impulsionado nesse percurso pelo Bolsa Família
(veja quadro).
O programa será o carro-chefe da sua campanha de reeleição
e terá seu volume de recursos aumentado em 27% neste ano.
Na semana passada, VEJA visitou dez cidades atendidas por ele: Maceió
e Coqueiro Seco, em Alagoas; Belo Horizonte e Barão de Cocais,
em Minas Gerais; Belém e Igarapé-Miri, no Pará;
Salvador e Conceição do Coité, na Bahia; Fortaleza
e Irauçuba, no Ceará. Em cada estado, as cidades foram
escolhidas, uma por ser a capital e a outra por apresentar alta
porcentagem de famílias de baixa renda. Nelas, conforme constatou
a reportagem, o Bolsa Família vem funcionando satisfatoriamente
ao menos no que diz respeito ao seu objetivo principal: reforçar
a renda de famílias que ganham até 100 reais mensais
per capita. Em seis dos municípios (Coqueiro Seco, Barão
de Cocais, Igarapé-Miri, Conceição do Coité,
Irauçuba, além da capital Belo Horizonte), o programa
já alcança 100% das famílias pobres. Nas demais
capitais visitadas, essa porcentagem é menor: varia entre
39% (Belém) e 64% (Fortaleza). De modo geral, segundo observou
a reportagem e informaram as prefeituras, as famílias beneficiadas
pelo programa vêm cumprindo as contrapartidas exigidas por
ele manter seus filhos na escola e levá-los às
campanhas de vacinação. Em Igarapé-Miri, município
de 60.000 habitantes no nordeste do Pará, o Bolsa Família
diminuiu pela metade o índice de evasão escolar, que
era de 28% há dois anos. "Os pais passaram a exigir a presença
das crianças na escola com medo de perder o dinheiro do governo",
afirma a assistente social Vera Salgado, coordenadora do programa
na cidade, administrada pelo PFL.
Ana Araújo
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| Fábio Lula da Silva, o Lulinha: mesadão
da Telemar. Uma vergonha |
Se está colaborando para aumentar a renda das famílias
e manter as crianças na sala de aula, o Bolsa Família
tem fracassado em outro aspecto: não conseguiu deixar de
ser um simples programa de transferência de renda para se
transformar em uma ferramenta destinada a ajudar as famílias
a se livrar da pobreza sem a tutela do Estado. "O Bolsa Família
ainda não estabeleceu metas capazes de criar uma porta de
saída para o problema da miséria. Ele se limita a
dar dinheiro aos pobres", afirma o economista-chefe do Centro de
Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas,
Marcelo Neri. Ao menos um resultado inquestionável, no entanto,
o programa já produziu: ajudou eleitores a esquecer o mar
de lama em que afundou o partido do presidente desde o estouro do
escândalo do mensalão. Em praticamente todas as cidades
visitadas, a reportagem ouviu comentário semelhante dos beneficiados
pelo programa. Eles afirmam não se importar com as denúncias
de corrupção que atingem o governo, desde que o dinheiro
do Bolsa Família continue chegando. A dona-de-casa Rosângela
Maria da Silva, para quem "só Lula olhou para os pobres",
afirma que votará no presidente porque "não foi ele
que inventou a corrupção". Rosângela é
moradora de Barão de Cocais (MG) e vive unicamente dos 50
reais mensais que recebe do Bolsa Família.
Pois bem. O arrefecimento da
crise e o Bolsa Família alavancaram a candidatura Lula. A
incapacidade da oposição de produzir um anti-Lula
e a indecisão dos tucanos em definir seu candidato também.
José Serra e Geraldo Alckmin dedicam tempo, energia e aliados
para sabotar-se mutuamente. Na semana passada, ambos compareceram
a um encontro de economistas tucanos em São Paulo. Sentaram-se
lado a lado e comportaram-se como ex-namorados. Depois de um cumprimento
seco, nem sequer se olharam. Os petistas adoraram a ceninha.
Na última sexta-feira,
a imprensa revelou que vão de vento em popa os negócios
do filho do presidente Lula, Fábio Luís Lula da Silva,
o Lulinha. Sua empresa, a Gamecorp, não apenas foi agraciada
com uma bolada de 5 milhões de reais pela Telemar em dezembro
de 2003, conforme revelou VEJA no ano passado, como, sabe-se agora,
desde então recebe da empresa de telefonia uma mesada de
415.000 reais, a título de patrocínio. Quando VEJA
revelou o primeiro negocião de Lulinha, a oposição
colocou água na fervura. Agora, com o presidente mostrando
os músculos nas pesquisas, é possível que uma
súbita indignação tome conta de parlamentares
e eles resolvam investigar o negócio da China. Os milagres
que as pesquisas não fazem...
Com reportagem de
Camila Pereira, Chrystiane Silva,
Heloisa Joly, José Edward, Leonardo Coutinho,
Marcelo Carneiro e Renato Piccinin
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O dono da pesquisa
José Edward
Rafael Neddermeyer/AE
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| Clésio: uma carreira na
política feita com a ajuda do carequinha
Marcos Valério |
A pesquisa da CNT/Sensus
tem dono: o empresário mineiro Clésio
Soares de Andrade. Há treze anos, ele preside
a Confederação Nacional do Transporte
(CNT). Conquistou o cargo com uma trajetória
empresarial cintilante. Aos 11 anos, começou
a trabalhar como cobrador de ônibus. Aos 40, já
tinha sua própria empresa de ônibus e uma
transportadora de combustíveis. Nos anos 80,
assumiu o sindicato das companhias do setor de Belo
Horizonte. Ficou famoso ao articular para que os empresários
controlassem os reajustes de tarifas. Quando assumiu
a presidência da CNT, em 1993, encontrou uma instituição
pobre e desprestigiada. Arregimentou seus liderados
numa campanha para a criação do Serviço
Nacional de Aprendizagem do Transporte e do Serviço
Social do Transporte. Depois que eles foram instituídos,
a CNT passou a receber parte dos tributos federais.
Na última década, a receita obtida com
essas taxas chegou a 1,2 bilhão de reais. Para
dar notoriedade à sua lucrativa confederação
e, afirmam seus inimigos, dar uma mãozinha a
seus amigos políticos os mais recentes,
petistas de alto coturno , Clésio inventou
de fazer pesquisas de opinião em setembro de
1998 a última delas animou o debate político
na semana passada.
O dinheiro e a influência
da CNT permitiram que Clésio ingressasse na vida
pública, pelas portas do PFL. Também em
1998, tornou-se vice na chapa do ex-governador mineiro
Eduardo Azeredo, do PSDB. Mas só chegou ao posto
em 2003, como vice de outro tucano, Aécio Neves.
Clésio, que atualmente é filiado ao PL,
construiu seu caminho na política com a ajuda
do lobista Marcos Valério Fernandes de Souza,
o carequinha do mensalão. Marcos Valério
era um desconhecido consultor financeiro quando abordou
Clésio em uma caminhada na orla da Lagoa da Pampulha,
em Belo Horizonte.
O senhor é
o doutor Clésio Andrade?
Sou, por quê?
Tenho um negócio
a lhe propor. Os donos da agência de publicidade
SMPB estão procurando um sócio capitalista...
O carequinha convenceu
Clésio a comprar 50% da SMPB e da DNA e dar-lhe
uma parte das cotas. Em retribuição, o
lobista introduziu o sócio nos segredos da política.
Clésio encerrou a sociedade com Valério
quando passou a disputar eleições. Para
evitar denúncias de favorecimento às agências,
vendeu suas participações aos sócios.
Não foi o suficiente para que se mantivesse longe
dos escândalos. Ele responde a um processo no
qual é acusado de superfaturar em sete vezes
o valor de uma fazenda dada em garantia a um empréstimo
bancário contraído pela SMPB. A CPI dos
Correios investiga a transferência de 1,4 milhão
de reais da DNA e da SMPB para um braço da CNT
chamado Idaq. Em outro processo, Clésio é
acusado de utilizar o mesmo Idaq para lavar dinheiro.
Nos últimos
quinze anos, Clésio foi sócio de, pelo
menos, quarenta empresas. Hoje, participa de dez companhias
e três holdings. Aos 53 anos, é um homem
rico, mas encontra dificuldade para explicar o sobe-e-desce
oficial de seu patrimônio. Em 1998, declarou à
Justiça Eleitoral que seus bens somavam 102 milhões
de reais. Por algum motivo desconhecido, esse patrimônio
encolheu para 10,3 milhões em 2002. Clésio
diz que agora tem 50 milhões de reais. O que
aconteceu para que sua fortuna passasse pelo efeito
sanfona? "Desisti de uns negócios e tomei um
cano do Marcos Valério, que não me pagou
pela DNA e pela SMPB", diz. Ultimamente, o carequinha
é culpado de tudo.
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