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Edição 1 786 - 22 de janeiro de 2003
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Brazilians, go home?

Iniciativa de política externa irrita
oposição da Venezuela e provoca
os EUA, mas muda na última hora

Talvez tenha sido o anjo da guarda que protege as crianças, os bêbados e os ingênuos – ou ideologizados – em matéria de política externa. Terminou bem, na semana passada, uma iniciativa diplomática do governo Lula nascida em Caracas e cevada em Brasília, durante a posse do presidente, que levava o Brasil a tomar partido indevido em favor de um dos lados da crise política que atormenta a Venezuela. O partido do presidente Hugo Chávez, naturalmente. Pior ainda, essa iniciativa diplomática criava uma inevitável e desnecessária rota de atrito com os Estados Unidos. A proposta original acabou substituída por um Clube de Amigos da Venezuela formado por Brasil, Estados Unidos, México e Chile, com Espanha e Portugal como observadores. A participação americana garante, pelo menos no momento, que o Brasil não vai afrontar a superpotência hegemônica. Também abre uma fresta, na hipótese muito otimista, de que realmente contribua para tirar a Venezuela do caminho da autodestruição de onde não tem conseguido sair. No fim de semana, Chávez deu uma prova de como pode se transformar numa dor de cabeça sem fim, marcando uma visita inesperada a Brasília para falar com Lula. Os comentários eram que ele não havia gostado da composição do grupo e queria pedir que fosse ampliado.

 
AFP
Lula e os amigos Chávez e Fidel em Quito: euforia com a política do botão de rosa

O novo grupo foi acertado no Equador, durante a posse do presidente Lucio Gutiérrez, e deixou a delegação brasileira em estado de euforia. Entusiasmado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma rara metáfora não futebolística para resumir o que imagina ser o novo papel diplomático do país: "O Brasil precisa fazer como se fosse um botão de rosa, desabrochar de uma vez por todas, assumir sua grandeza e dar a contribuição que tem de dar à América do Sul e ao mundo". A política do botão de rosa não havia começado nada bem. A proposta inicial, sugerida por Chávez e endossada por Marco Aurélio Garcia, o assessor de assuntos internacionais de Lula, era que se criasse um grupo de países, latino-americanos e europeus, que intercedesse nas negociações, até agora sem resultado, entre o governo venezuelano e a oposição. O objetivo não-declarado, embora óbvio, seria contrabalançar a influência dos Estados Unidos. A iniciativa levou manifestantes da oposição venezuelana para a frente da embaixada brasileira em Caracas. Pela primeira vez na história da diplomacia nacional, os brasileiros entravam no lugar tradicionalmente reservado aos americanos, ou ianques, nos protestos contra ingerências externas. O Departamento de Estado americano passou um pito público na iniciativa, que culminava a arrancada iniciada com a profusão de agrados públicos aos dois dirigentes de "esquerda" mais afagados por ocasião da posse de Lula (café-da-manhã prolongado com o populista Chávez, churrasco de quatro horas com o comunista Fidel Castro). A idéia de tentar mediar o imbróglio da Venezuela, tradicional área de influência dos Estados Unidos, sem participação do governo americano é de uma simploriedade assustadora. A intervenção brasileira produziu atrito até com a sempre inócua Organização dos Estados Americanos (OEA), cujo secretário-geral, o ex-presidente colombiano César Gaviria, tenta há dois meses negociar uma saída para a crise entre Chávez e a oposição. "Parece que Lula entregou a política econômica a Wall Street e a política internacional ao PT", disse a VEJA o editor da revista americana Foreign Policy, Moisés Naím.

A duplicidade de comando na política externa, com Marco Aurélio Garcia atropelando o Itamaraty, também deixou lívidos os diplomatas mais experientes. Lula enviou Garcia a Caracas, antes mesmo de sua posse. O enviado brasileiro voltou com pedidos de ajuda em gasolina e técnicos para furar a greve dos petroleiros venezuelanos. Em Caracas, não conversou com a oposição e adotou a versão chavista de que o conflito é uma "luta de classes" entre a "elite oligárquica" e o "povo oprimido". As simpatias ideológicas do assessor – e de Lula, mais todos os petistas – são evidentes. Brandi-las publicamente, no entanto, não é o procedimento indicado para quem pretende assumir um papel de mediador. "Garcia ignorou o fato de que professores, bancários e diversas categorias profissionais que não são da elite também estão em greve", reclamou o diretor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Central da Venezuela, Carlos Romero, um ex-eleitor de Chávez que milita hoje na oposição. "Chávez insiste que tem um novo sócio na região, Lula."

"O Brasil não está errado em vender petróleo ou querer interferir no conflito", diz Peter Hakim, presidente da Inter-American Dialogue, entidade que promove a aproximação entre os Estados Unidos e os demais países do continente. "Mas a base tem de apoiar Gaviria a buscar uma solução negociada e pacífica, e não a favorecer um dos lados." O propósito, perfeitamente legítimo, do governo brasileiro de tentar buscar a estabilidade de um país vizinho que parece caminhar a uma guerra civil, "aproveitando um vácuo deixado pela imobilidade americana", segundo Hakim, acabou distorcido pelas desmesuradas simpatias ao compañero Chávez. Quando voltou da posse de Lula, Chávez declarou naqueles programas de TV em que fala quatro horas sem parar que "se sentia fortalecido, com novas energias para continuar lutando".

Reconheça-se, em favor do novo governo brasileiro, que política externa é um campo forrado de armadilhas. Pelas próprias dimensões continentais, que o colocam num grupo em que existem apenas outros cinco ou seis países, e por seus interesses comerciais, nem por inércia o Brasil pode se acomodar à idéia de aceitar incondicionalmente, ou até com entusiasmo (como fez a Argentina durante algum tempo), a plenitude da hegemonia americana. De outro lado, contestá-la para além das premissas do realismo político, e da defesa dos interesses nacionais, pode redundar em graves prejuízos. Por enquanto, as iniciativas brasileiras, considerando que o Clube de Amigos da Venezuela não virou o Clube dos Inimigos dos Estados Unidos, ficam mais no campo das pirraças.

 
Ed Ferreira/AE

Pirraças: o anti-Alca Guimarães, como número 2 do Itamaraty, e Bustani (foto), que brigou com os americanos, embaixador em Londres

Um exemplo: o novo chanceler, Celso Amorim, nomeou para secretário-geral, o segundo cargo em importância do Itamaraty, um embaixador publicamente contrário à Alca, a zona de livre-comércio das Américas que os Estados Unidos defendem. Samuel Pinheiro Guimarães foi exonerado em 2001 do cargo de diretor do Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais (Ipri) pelo então chanceler Celso Lafer, depois de escrever um artigo em que desancava a posição brasileira na negociação da Alca. "Participar da Alca agravará a redução da soberania brasileira para reformular sua política econômica e retirar o Brasil da beira do abismo em que a atual equipe econômica o colocou", dizia o artigo.

Outro diplomata que tem toda a antipatia dos americanos ganhou destaque na diplomacia lulista. José Maurício Bustani foi indicado para a embaixada em Londres, um posto de primeira linha. Bustani foi destituído da Organização para a Proibição das Armas Químicas (Opaq), órgão da ONU no qual era diretor-geral, depois de uma intensa campanha dos Estados Unidos, no ano passado. Foi acusado de má administração pelos americanos, que certamente agiram com prepotência imperial – mas pelo menos tomaram o cuidado de deixar claro que a antipatia era por Bustani, não pelo governo brasileiro. A Inglaterra, para onde Lula o está mandando, também votou contra Bustani. "Fazer provocações gratuitas aos Estados Unidos é injustificável", diz um veterano embaixador.

"Para quem sempre foi dependente, pode parecer uma atitude de confronto. Na verdade, não é. Temos posições diferentes das dos Estados Unidos, mas, assim como eles, queremos ver resolvidos os problemas da Venezuela", disse a VEJA o assessor Garcia, um ex-professor de direito da Unicamp que há dez anos faz parte do círculo mais íntimo de colaboradores de Lula. Garcia também nega qualquer disputa por espaço e poder com o chanceler Amorim. No Itamaraty, evidentemente, os nervos estão atiçados. Às vésperas de uma provável guerra no Iraque e de uma negociação vital para o Brasil como a da Alca, o futuro pode reservar fortíssimas emoções. O atual governo americano, que divide o mundo entre aliados incondicionais e inimigos declarados, tem baixíssima tolerância a contestações. Até o primeiro-ministro alemão Gerhard Schroeder, aliado importante, governante da terceira maior economia do mundo, está na geladeira por criticar a guerra no Iraque. Não é um tempo favorável para amadores nem para ingênuos.

   
 
   
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