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Brazilians, go home?
Iniciativa
de política externa irrita
oposição da Venezuela e provoca
os EUA, mas muda na última hora
Talvez tenha
sido o anjo da guarda que protege as crianças, os bêbados
e os ingênuos ou ideologizados em matéria de
política externa. Terminou bem, na semana passada, uma iniciativa
diplomática do governo Lula nascida em Caracas e cevada em Brasília,
durante a posse do presidente, que levava o Brasil a tomar partido indevido
em favor de um dos lados da crise política que atormenta a Venezuela.
O partido do presidente Hugo Chávez, naturalmente. Pior ainda,
essa iniciativa diplomática criava uma inevitável e desnecessária
rota de atrito com os Estados Unidos. A proposta original acabou substituída
por um Clube de Amigos da Venezuela formado por Brasil, Estados Unidos,
México e Chile, com Espanha e Portugal como observadores. A participação
americana garante, pelo menos no momento, que o Brasil não vai
afrontar a superpotência hegemônica. Também abre uma
fresta, na hipótese muito otimista, de que realmente contribua
para tirar a Venezuela do caminho da autodestruição de onde
não tem conseguido sair. No fim de semana, Chávez deu uma
prova de como pode se transformar numa dor de cabeça sem fim, marcando
uma visita inesperada a Brasília para falar com Lula. Os comentários
eram que ele não havia gostado da composição do grupo
e queria pedir que fosse ampliado.
AFP
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| Lula
e os amigos Chávez e Fidel em Quito: euforia com a política do botão
de rosa |
O novo grupo
foi acertado no Equador, durante a posse do presidente Lucio Gutiérrez,
e deixou a delegação brasileira em estado de euforia. Entusiasmado,
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma rara metáfora
não futebolística para resumir o que imagina ser o novo
papel diplomático do país: "O Brasil precisa fazer como
se fosse um botão de rosa, desabrochar de uma vez por todas, assumir
sua grandeza e dar a contribuição que tem de dar à
América do Sul e ao mundo". A política do botão de
rosa não havia começado nada bem. A proposta inicial, sugerida
por Chávez e endossada por Marco Aurélio Garcia, o assessor
de assuntos internacionais de Lula, era que se criasse um grupo de países,
latino-americanos e europeus, que intercedesse nas negociações,
até agora sem resultado, entre o governo venezuelano e a oposição.
O objetivo não-declarado, embora óbvio, seria contrabalançar
a influência dos Estados Unidos. A iniciativa levou manifestantes
da oposição venezuelana para a frente da embaixada brasileira
em Caracas. Pela primeira vez na história da diplomacia nacional,
os brasileiros entravam no lugar tradicionalmente reservado aos americanos,
ou ianques, nos protestos contra ingerências externas. O Departamento
de Estado americano passou um pito público na iniciativa, que culminava
a arrancada iniciada com a profusão de agrados públicos
aos dois dirigentes de "esquerda" mais afagados por ocasião da
posse de Lula (café-da-manhã prolongado com o populista
Chávez, churrasco de quatro horas com o comunista Fidel Castro).
A idéia de tentar mediar o imbróglio da Venezuela, tradicional
área de influência dos Estados Unidos, sem participação
do governo americano é de uma simploriedade assustadora. A intervenção
brasileira produziu atrito até com a sempre inócua Organização
dos Estados Americanos (OEA), cujo secretário-geral, o ex-presidente
colombiano César Gaviria, tenta há dois meses negociar uma
saída para a crise entre Chávez e a oposição.
"Parece que Lula entregou a política econômica a Wall Street
e a política internacional ao PT", disse a VEJA o editor da revista
americana Foreign Policy, Moisés Naím.
A duplicidade
de comando na política externa, com Marco Aurélio Garcia
atropelando o Itamaraty, também deixou lívidos os diplomatas
mais experientes. Lula enviou Garcia a Caracas, antes mesmo de sua posse.
O enviado brasileiro voltou com pedidos de ajuda em gasolina e técnicos
para furar a greve dos petroleiros venezuelanos. Em Caracas, não
conversou com a oposição e adotou a versão chavista
de que o conflito é uma "luta de classes" entre a "elite oligárquica"
e o "povo oprimido". As simpatias ideológicas do assessor
e de Lula, mais todos os petistas são evidentes. Brandi-las
publicamente, no entanto, não é o procedimento indicado
para quem pretende assumir um papel de mediador. "Garcia ignorou o fato
de que professores, bancários e diversas categorias profissionais
que não são da elite também estão em greve",
reclamou o diretor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade
Central da Venezuela, Carlos Romero, um ex-eleitor de Chávez que
milita hoje na oposição. "Chávez insiste que tem
um novo sócio na região, Lula."
"O Brasil
não está errado em vender petróleo ou querer interferir
no conflito", diz Peter Hakim, presidente da Inter-American Dialogue,
entidade que promove a aproximação entre os Estados Unidos
e os demais países do continente. "Mas a base tem de apoiar Gaviria
a buscar uma solução negociada e pacífica, e não
a favorecer um dos lados." O propósito, perfeitamente legítimo,
do governo brasileiro de tentar buscar a estabilidade de um país
vizinho que parece caminhar a uma guerra civil, "aproveitando um vácuo
deixado pela imobilidade americana", segundo Hakim, acabou distorcido
pelas desmesuradas simpatias ao compañero Chávez.
Quando voltou da posse de Lula, Chávez declarou naqueles programas
de TV em que fala quatro horas sem parar que "se sentia fortalecido, com
novas energias para continuar lutando".
Reconheça-se,
em favor do novo governo brasileiro, que política externa é
um campo forrado de armadilhas. Pelas próprias dimensões
continentais, que o colocam num grupo em que existem apenas outros cinco
ou seis países, e por seus interesses comerciais, nem por inércia
o Brasil pode se acomodar à idéia de aceitar incondicionalmente,
ou até com entusiasmo (como fez a Argentina durante algum tempo),
a plenitude da hegemonia americana. De outro lado, contestá-la
para além das premissas do realismo político, e da defesa
dos interesses nacionais, pode redundar em graves prejuízos. Por
enquanto, as iniciativas brasileiras, considerando que o Clube de Amigos
da Venezuela não virou o Clube dos Inimigos dos Estados Unidos,
ficam mais no campo das pirraças.
Ed Ferreira/AE
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Pirraças:
o anti-Alca Guimarães, como número 2 do Itamaraty,
e Bustani (foto), que brigou com os americanos, embaixador
em Londres
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Um exemplo:
o novo chanceler, Celso Amorim, nomeou para secretário-geral, o
segundo cargo em importância do Itamaraty, um embaixador publicamente
contrário à Alca, a zona de livre-comércio das Américas
que os Estados Unidos defendem. Samuel Pinheiro Guimarães foi exonerado
em 2001 do cargo de diretor do Instituto de Pesquisas de Relações
Internacionais (Ipri) pelo então chanceler Celso Lafer, depois
de escrever um artigo em que desancava a posição brasileira
na negociação da Alca. "Participar da Alca agravará
a redução da soberania brasileira para reformular sua política
econômica e retirar o Brasil da beira do abismo em que a atual equipe
econômica o colocou", dizia o artigo.
Outro diplomata
que tem toda a antipatia dos americanos ganhou destaque na diplomacia
lulista. José Maurício Bustani foi indicado para a embaixada
em Londres, um posto de primeira linha. Bustani foi destituído
da Organização para a Proibição das Armas
Químicas (Opaq), órgão da ONU no qual era diretor-geral,
depois de uma intensa campanha dos Estados Unidos, no ano passado. Foi
acusado de má administração pelos americanos, que
certamente agiram com prepotência imperial mas pelo menos
tomaram o cuidado de deixar claro que a antipatia era por Bustani, não
pelo governo brasileiro. A Inglaterra, para onde Lula o está mandando,
também votou contra Bustani. "Fazer provocações gratuitas
aos Estados Unidos é injustificável", diz um veterano embaixador.
"Para quem
sempre foi dependente, pode parecer uma atitude de confronto. Na verdade,
não é. Temos posições diferentes das dos Estados
Unidos, mas, assim como eles, queremos ver resolvidos os problemas da
Venezuela", disse a VEJA o assessor Garcia, um ex-professor de direito
da Unicamp que há dez anos faz parte do círculo mais íntimo
de colaboradores de Lula. Garcia também nega qualquer disputa por
espaço e poder com o chanceler Amorim. No Itamaraty, evidentemente,
os nervos estão atiçados. Às vésperas de uma
provável guerra no Iraque e de uma negociação vital
para o Brasil como a da Alca, o futuro pode reservar fortíssimas
emoções. O atual governo americano, que divide o mundo entre
aliados incondicionais e inimigos declarados, tem baixíssima tolerância
a contestações. Até o primeiro-ministro alemão
Gerhard Schroeder, aliado importante, governante da terceira maior economia
do mundo, está na geladeira por criticar a guerra no Iraque. Não
é um tempo favorável para amadores nem para ingênuos.
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