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"Íamos
matar inocentes"
Na
maior vitória contra a pena
de
morte nos Estados Unidos,
o
governador de Illinois salva
da execução 167 presos do
corredor da morte
Fotos AP
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| O
governador Ryan: "Um em cada oito processos de pena de morte tinha
irregularidades" |
"O sistema judicial que leva condenados à pena de morte é
arbitrário, imprevisível e, portanto, imoral." Essas palavras
precederam a assinatura, pelo governador George Ryan, do Estado americano
de Illinois, de um decreto que tirou do corredor da morte 167 condenados
à pena capital. A maioria teve sua execução comutada
em penas que variam de quarenta anos de cadeia à prisão
perpétua. Quatro deles foram inocentados totalmente. Três
já saíram da cadeia. Foi o último ato de Ryan no
governo. Na segunda-feira passada, ele transmitiu o cargo ao político
do Partido Democrata Rod Blagojevich. O show de Ryan, um conservador do
Partido Republicano, o mesmo do presidente George W. Bush, estava apenas
começando. Dois dias depois, o governador foi a estrela do programa
de televisão americano de maior audiência, comandado por
Oprah Winfrey. Ryan explicou sua decisão sem a pompa da linguagem
oficial. Foi um choque. "As únicas provas apresentadas contra os
quatro prisioneiros perdoados foram arrancadas de forma brutal. Eles foram
submetidos a choques elétricos, sufocados e forçados a confessar
crimes que não cometeram. São inocentes, e nós quase
os matamos."
Entre
os perdoados por Ryan está um homem que passou dezesseis anos atrás
das grades falsamente acusado de ter ateado fogo à própria
casa, com a família dentro, com o objetivo de receber a indenização
do seguro. Madison Hobley disse que foi obrigado a confessar o crime em
sessões de tortura no quartel-general da polícia de Chicago.
"Renasci. Vou ter de reaprender a viver. Depois de dezesseis anos na cadeia,
a vida aqui fora fica muito complicada", declara Hobley, de 42 anos. Leroy
Orange, outro preso perdoado, escapou por falta de provas da acusação
de assassinato que ele confessou sob tortura. "As pessoas na rua não
ligam muito para o que se passa no corredor da morte. Elas parecem pouco
se importar caso alguns inocentes sejam executados desde que entre os
punidos estejam alguns culpados", disse Orange, que, ao lado do terceiro
preso beneficiado pela clemência, Aaron Patterson, também
apareceu no show de televisão. Stanley Howard, detido desde 1984,
acusado falsamente de assassinato, ainda ficará alguns meses preso
em conseqüência de delitos menores cometidos na penitenciária.
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| Orange
e Patterson, dois dos presos que escaparam da câmara de injeção letal
em Chicago: "As pessoas na rua não ligam muito para o que se passa
no corredor da morte. Elas parecem pouco se importar caso alguns inocentes
sejam executados desde que entre os punidos estejam alguns culpados",
disse Orange |
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A decisão de George Ryan foi a maior vitória já obtida
até hoje pelos adversários da pena de morte nos Estados
Unidos. O veterano político de Chicago fez sua carreira como defensor
ardoroso das execuções. Uma vez na cadeira de governador,
Ryan começou a sentir o peso de mandar para a morte pessoas acusadas
de crimes bárbaros e repugnantes sem provas suficientemente fortes.
Durante seu governo, ocorreram reviravoltas extraordinárias nos
processos jurídicos envolvendo criminosos no corredor da morte.
Diversos foram absolvidos. A inocência de um deles foi descoberta
apenas dois dias antes de o acusado receber uma injeção
letal. "Assustado com essas inconsistências, o governador Ryan passou
por um processo gradual e doloroso de reeducação", escreveu
em editorial o jornal The New York Times. O governador foi descobrindo
aos poucos que a polícia de Chicago e de outras grandes cidades
do Estado torturava suspeitos usando métodos bárbaros para
obter confissões. Os policiais, juízes e promotores de Illinois,
na avaliação de seu próprio governador, "tornaram
o processo judicial um sistema viciado e sem credibilidade". Quando a
apresentadora Oprah perguntou ao governador se ele não estava apenas
se livrando da obrigação de provar a culpa dos acusados,
Ryan disse: "Um em cada oito casos tinha irregularidades. Acredite, o
sistema é tão falho e corrupto que não saberemos
nunca se eles são inocentes ou culpados. A única coisa segura
a fazer era dar clemência a todos os presos no corredor da morte".
A pena de
morte não foi abolida em Illinois. Os promotores do Estado divulgaram
um documento reafirmando sua crença na pena capital. Mas ninguém
pode reverter a clemência dada pelo governador Ryan. Entre os 163
presos que escaparam da injeção letal estão monstros
perigosos. Um é um matador compulsivo acusado de quase duas dezenas
de assassinatos. Outro esfaqueou uma mulher grávida e seus filhos.
O assassino cortou a barriga da mulher e arrancou o feto de algumas semanas
de vida. "São monstros, e foi um erro perdoá-los", diz Ollie
Dodds, mãe de uma menina que morreu na casa que um dos criminosos
beneficiados pela clemência do governador Ryan foi acusado de ter
incendiado. "A irmã Helen Prejean, autora do livro Dead Man
Walking (Os Últimos Passos de um Homem, na tradução
brasileira), dizia que você só pode se dizer a favor da pena
de morte se tiver coragem de pessoalmente executar um criminoso. Pois
posso dizer que em pelo menos dois casos eu não terei o menor problema
em aplicar a injeção nos acusados", escreveu o escritor
de best-sellers e advogado Scott Turow (Acima de Qualquer Suspeita
e Ofensas Pessoais), que no começo da carreira foi promotor
em Illinois. A decisão do governador Ryan foi amparada em estudo
feito por uma comissão de especialistas da qual Turow fez parte.
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| Madison
Hobley (à esq.) já saiu da cadeia. Stanley Howard,
mesmo perdoado, vai ficar mais alguns meses por causa de um delito
cometido na prisão |
Num artigo
na revista The New Yorker, em que defende o fim das execuções
penais em razão das falhas processuais, Turow narra os casos em
que os criminosos, a seu ver, mereceriam o castigo maior da injeção
letal. Ele conta a história de Henry Brisbon, estuprador e assassino
em série. Numa única noite, Brisbon matou a tiros oito pessoas.
Ele desviava os carros das vítimas, escolhidas ao acaso, para uma
estrada secundária e as executava a sangue frio. "Ele mandou uma
mulher se despir, enfiou o cano da arma na vagina dela e atirou", conta
Turow. "Depois ele pegou um casal de jovens e mandou que dessem 'o último
beijo'. Atirou neles pelas costas enquanto se beijavam", narra Turow.
Preso, Brisbon matou mais dois guardas na penitenciária. Como o
processo dele correu num período em que a Suprema Corte declarou
inconstitucional a pena de morte, Brisbon escapou da injeção
letal. Hoje cumpre pena de 3.000 anos numa
penitenciária de segurança máxima. "Eu teria também
executado pessoalmente alguém como John Wayne Gacy, o assassino
em série que torturou e matou 33 jovens", escreveu Turow.
Os Estados
Unidos são um dos poucos países do mundo que ainda mandam
para a morte autores de assassinato. Depois de uma década em que
a pena de morte chegou a ter a aprovação de 70% em média
da opinião pública, a punição capital começa
a perder terreno na Justiça americana. A razão mais evidente
é o fato de que a violência não é menor em
Estados que aplicam a pena de morte. Illinois, por exemplo, tem as mesmas
taxas de criminalidade do vizinho Michigan. Ambos os Estados têm
populações étnica e socialmente muito semelhantes.
Algumas vitórias parciais contra a pena de morte têm surgido
nos Estados Unidos, mas nada que se compare ao gesto espetacular do governador
Ryan. Dez Estados americanos decidiram interromper as execuções
até que comissões independentes atestem a qualidade de seus
sistemas jurídicos. Recentemente, a Suprema Corte dos Estados Unidos
decidiu proibir a execução de deficientes mentais. Mais
de trinta dos quase 800 criminosos executados nos EUA nos últimos
25 anos eram loucos ou retardados mentais.
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