Edição 1936 . 21 de dezembro de 2005

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Livros
Autor de elite

A classe alta americana sob os olhos de um de seus filhos, o romancista Louis Auchincloss


Carlos Graieb


Jonathan Wiggs/The New York Times
Auchincloss em seu apartamento em Nova York: velha escola

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Trecho do livro

Louis Auchincloss é um cavalheiro à moda antiga – e um escritor idem. Ele nasceu em Nova York, 88 anos atrás, no seio de uma família proeminente, cujo brilho vinha menos da riqueza do que das sólidas origens wasp (abreviatura em inglês de "branco, anglo-saxão e protestante"). Freqüentou os melhores colégios, estudou direito nas melhores universidades e ingressou num escritório de Wall Street, onde por décadas administrou grandes heranças e legados. Sua carreira literária construiu-se em paralelo, e talvez seja a mais prolífica das letras americanas. São sessenta livros publicados – mais dois saindo do prelo. Auchincloss nunca se distancia de seu próprio mundo. Seus textos dissecam a moral e os hábitos da "velha elite" com instrumentos clássicos: trata-se de um romancista de costumes da mesma estirpe de Henry James e Edith Wharton, seus conterrâneos do século XIX. Uma oportunidade para conhecê-lo agora está à mão. A editora Girafa acaba de lançar O Diário Escarlate (tradução de Rafael Mantovani; 196 páginas; 27 reais), um de seus romances mais recentes.

Uma tradução exata do título do livro seria "As Letras Escarlates", referência a um clássico americano sobre a punição do adultério num vilarejo do século XVII. A repressão do desejo e do sexo numa sociedade marcada por códigos rígidos é um dos temas de Auchincloss, mas ele não pretende recriar a obra-prima de Nathaniel Hawthorne num ambiente moderno (moderno, e não atual: a história se passa nos anos 50). Seu livro tem outros alvos. Ele esmiúça a política e a economia dos casamentos na classe alta e também captura um momento de transformação na ética dos negócios – o surgimento de uma nova espécie de advogado e de executivo, mais predatória e agressiva.

Nos Estados Unidos, Auchincloss freqüentemente é criticado por concentrar-se num grupo social restrito – e cujo pico de influência, na verdade, já teria passado. "Quanto ao primeiro ponto, só posso afirmar o seguinte: escrevo sobre o que conheço", disse ele a VEJA. "Quanto ao segundo ponto, discordo: as velhas famílias de quem falo podem ter perdido o monopólio nos círculos de poder americanos, mas elas ainda existem, e estão na ativa." Um de seus admiradores, o romancista Gore Vidal compartilha dessa opinião. Segundo ele, a classe que Auchincloss descreve ainda detém postos-chave no mundo das finanças e nos grandes partidos americanos; Auchincloss seria o único a mostrar "como os dirigentes da América se comportam em seus bancos e conselhos, em seus clubes e escritórios de advocacia". Dizer que o autor de O Diário Escarlate é um escritor indispensável talvez seja um exagero. Mas há muita verve, muita ironia e perspicácia em seus textos. Lê-los é sempre um prazer.

 
A Terceira Guerra Mundial

"No verão de 1953, a vila costeira de Glenville, no opulento litoral norte de Long Island, foi abalada por um escândalo. Pelo menos os principais cidadãos foram afetados: não se esperava que a gente menor se importasse muito com o caso de adultério na família de Ambrose Vollard. O adúltero era ninguém menos que o jovem Rodman Jessup, que, além de genro e sócio júnior de Vollard, era seu predileto e sucessor implícito. Inexplicavelmente, um campeão havia tombado. Não era de surpreender que sobre o planeta deles pairasse a ameaça de uma terceira guerra mundial!"

Trecho de O Diário Escarlate

 
 
 
 
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