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Livros
Autor de elite
A classe alta americana sob os olhos de um de seus filhos, o romancista Louis
Auchincloss  Carlos
Graieb
Jonathan
Wiggs/The New York Times
 | Auchincloss
em seu apartamento em Nova York: velha escola |
Louis Auchincloss é um cavalheiro
à moda antiga e um escritor idem. Ele nasceu em Nova York, 88 anos
atrás, no seio de uma família proeminente, cujo brilho vinha menos
da riqueza do que das sólidas origens wasp (abreviatura em inglês
de "branco, anglo-saxão e protestante"). Freqüentou os melhores colégios,
estudou direito nas melhores universidades e ingressou num escritório de
Wall Street, onde por décadas administrou grandes heranças e legados.
Sua carreira literária construiu-se em paralelo, e talvez seja a mais prolífica
das letras americanas. São sessenta livros publicados mais dois
saindo do prelo. Auchincloss nunca se distancia de seu próprio mundo. Seus
textos dissecam a moral e os hábitos da "velha elite" com instrumentos
clássicos: trata-se de um romancista de costumes da mesma estirpe de Henry
James e Edith Wharton, seus conterrâneos do século XIX. Uma oportunidade
para conhecê-lo agora está à mão. A editora Girafa
acaba de lançar O Diário Escarlate (tradução
de Rafael Mantovani; 196 páginas; 27 reais), um de seus romances mais recentes.
Uma tradução exata do
título do livro seria "As Letras Escarlates", referência a um clássico
americano sobre a punição do adultério num vilarejo do século
XVII. A repressão do desejo e do sexo numa sociedade marcada por códigos
rígidos é um dos temas de Auchincloss, mas ele não pretende
recriar a obra-prima de Nathaniel Hawthorne num ambiente moderno (moderno, e não
atual: a história se passa nos anos 50). Seu livro tem outros alvos. Ele
esmiúça a política e a economia dos casamentos na classe
alta e também captura um momento de transformação na ética
dos negócios o surgimento de uma nova espécie de advogado
e de executivo, mais predatória e agressiva.
Nos Estados Unidos, Auchincloss freqüentemente é criticado por concentrar-se
num grupo social restrito e cujo pico de influência, na verdade,
já teria passado. "Quanto ao primeiro ponto, só posso afirmar o
seguinte: escrevo sobre o que conheço", disse ele a VEJA. "Quanto ao segundo
ponto, discordo: as velhas famílias de quem falo podem ter perdido o monopólio
nos círculos de poder americanos, mas elas ainda existem, e estão
na ativa." Um de seus admiradores, o romancista Gore Vidal compartilha dessa opinião.
Segundo ele, a classe que Auchincloss descreve ainda detém postos-chave
no mundo das finanças e nos grandes partidos americanos; Auchincloss seria
o único a mostrar "como os dirigentes da América se comportam em
seus bancos e conselhos, em seus clubes e escritórios de advocacia". Dizer
que o autor de O Diário Escarlate é um escritor indispensável
talvez seja um exagero. Mas há muita verve, muita ironia e perspicácia
em seus textos. Lê-los é sempre um prazer.
A
Terceira Guerra Mundial "No verão
de 1953, a vila costeira de Glenville, no opulento litoral norte de Long Island,
foi abalada por um escândalo. Pelo menos os principais cidadãos foram
afetados: não se esperava que a gente menor se importasse muito com o caso
de adultério na família de Ambrose Vollard. O adúltero era
ninguém menos que o jovem Rodman Jessup, que, além de genro e sócio
júnior de Vollard, era seu predileto e sucessor implícito. Inexplicavelmente,
um campeão havia tombado. Não era de surpreender que sobre o planeta
deles pairasse a ameaça de uma terceira guerra mundial!"
Trecho de O Diário Escarlate |
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