Edição 1936 . 21 de dezembro de 2005

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Livros
O paranóico lúcido

Sombrio nas previsões e certeiro na
crítica ao totalitarismo, George Orwell
foi um dos maiores ensaístas do século XX


Jerônimo Teixeira

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Trecho do livro

Naquela que é sua previsão central, George Orwell errou. "Estamos rumando para uma era de ditaduras totalitárias", escrevia ele, em 1940, no artigo que dá título a Dentro da Baleia e Outros Ensaios (tradução de José Antonio Arantes; Companhia das Letras; 228 páginas; 36 reais), coletânea organizada pelo jornalista Daniel Piza. Os novos tempos que se anunciavam seriam os mais sombrios da história: o "indivíduo autônomo" seria eliminado da existência. Naquele momento, com a II Guerra Mundial em seus princípios, o prognóstico de Orwell talvez não fosse tão exagerado. Mas, mesmo depois da derrota de Hitler, o escritor ainda sustentaria a mesma tenebrosa profecia no seu último e mais conhecido romance. Escrito em 1948 e publicado no ano seguinte, 1984 descrevia um mundo opressivo no qual os cidadãos vivem sob a permanente vigilância de um Estado autoritário. Essa projeção ficcional felizmente não se concretizou. Os anos 80 do século XX, pelo contrário, assistiram ao início da derrocada do comunismo soviético, a inspiração mais imediata de 1984. Não é por nada que já se falou até de um componente paranóico na obra de Orwell. Mas foi esse alarmismo militante que o manteve firme na recusa de toda e qualquer forma de tirania. Ele foi dos poucos intelectuais da esquerda européia que não flertaram com o stalinismo. Pelo contrário, fez da denúncia da barbárie comunista uma de suas missões como jornalista e escritor. Orwell era uma contradição ambulante: o paranóico lúcido.

Filho de um funcionário colonial inglês, George Orwell (nome literário de Eric Arthur Blair) nasceu na Índia, em 1903. Na juventude, tentou seguir os passos do pai e serviu como policial numa colônia britânica, a Birmânia (atual Mianmar). Data daí sua profunda desilusão com a violência do colonialismo, expressa em dois dos mais poderosos textos da coletânea, Um Enforcamento e O Abate de um Elefante. De volta à Europa, no fim dos anos 20, viveu entre Paris e Londres, trabalhando como vendedor de livraria, resenhista de livros e jornalista. Foram anos duros, que o autor relatou em Down and Out in Paris and London (algo como Na Pior em Paris e Londres). Chegou a viver entre mendigos, embora haja quem diga que ele romantizou esse trecho da própria biografia: o que era apenas vida boêmia e dissipação foi transformado em pobreza e privação. Mas o empenho de Orwell pelas causas políticas e sociais estava longe de ser apenas festivo. Em 1936, ele viajou para a Espanha para lutar pelos republicanos na Guerra Civil. Foi ferido no pescoço, o que lhe deixou seqüelas permanentes. Dali em diante, só conseguiria falar em tom baixo (o que não o impediu de trabalhar para a rádio BBC durante a II Guerra).

Foi com um devastador ataque aos rumos autoritários da revolução russa que Orwell alcançou o sucesso de público como escritor. A fábula A Revolução dos Bichos, de 1945, é uma bela realização de um ideal do autor: transformar a escrita política em arte. Mas é como ensaísta que o poder de fogo de Orwell se mostra mais certeiro e destruidor. Impecáveis tanto na elegância do estilo quanto na lógica argumentativa, os artigos de Orwell desmontam enganos e contradições do pensamento esquerdista. Embora tenha sempre se declarado um socialista, o escritor se recusava a obedecer a qualquer linha partidária. "A aceitação de qualquer disciplina política parece ser incompatível com a integridade literária", escreve Orwell.

Sua integridade, porém, sofreu um golpe póstumo grave quando se descobriu, nos anos 90, que Orwell entregara uma lista de "criptocomunistas" aos serviços de informação britânicos, em 1949 (um ano antes de morrer de tuberculose). Entre os "companheiros de viagem" do Partido Comunista apontados pelo dedo duro de Orwell encontravam-se escritores como J.B. Priestley e atores como Charles Chaplin. Apenas um dos acusados era de fato um espião a serviço dos soviéticos – o jornalista Peter Smollett, também suspeito de ter aconselhado um editor inglês a recusar A Revolução dos Bichos. Ao que parece, a lista destinava-se apenas a evitar que o governo inglês contratasse comunistas em potencial, e nenhum dos acusados sofreu alguma forma de retaliação (a Guerra Fria na Europa não produziu os efeitos histéricos que se viram nos Estados Unidos do macarthismo). Mas é melancólico saber que o escritor tenha se rebaixado à delação anônima – logo ele, que em 1984 criticou a vigilância estatal do "Grande Irmão" (o Big Brother, ironicamente convertido em nome de reality show). George Orwell acabou traído por sua própria paranóia.

 
O pensamento livre de George Orwell

Livros
"Antes de se ter algum tipo de relação profissional com livros, não se descobre quão ruim é a maioria deles"

Totalitarismo
"Quase com certeza estamos rumando para uma era de ditaduras totalitárias – uma era em que a liberdade de pensamento será a princípio um pecado mortal e mais tarde uma abstração sem sentido. Isso significa que a literatura, na forma em que a conhecemos, deve sofrer ao menos uma morte temporária"

Comunismo
"Não creio que seja preciso procurar longe o motivo pelo qual os escritores jovens da década de 1930 afluíram ao Partido Comunista. Foi simplesmente algo em que acreditar. Patriotismo, religião, império, glória militar – tudo em uma palavra: Rússia. Pai, rei, líder, herói, salvador – tudo em uma palavra: Stalin"

O ascetismo de Gandhi
"Sem dúvida, bebidas alcoólicas, tabaco etc. são coisas que um santo deve evitar, mas santidade também é algo que os seres humanos devem evitar"

A inocência da esquerda
"Muito do pensamento esquerdista é uma espécie de brincadeira com fogo feita por pessoas que nem sequer sabem que o fogo queima"

 
 
 
 
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