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Livros
O paranóico lúcido
Sombrio nas previsões e certeiro na crítica ao totalitarismo,
George Orwell foi um dos maiores ensaístas do século XX  Jerônimo
Teixeira
Naquela que é sua previsão
central, George Orwell errou. "Estamos rumando para uma era de ditaduras totalitárias",
escrevia ele, em 1940, no artigo que dá título a Dentro da
Baleia e Outros Ensaios (tradução de José Antonio
Arantes; Companhia das Letras; 228 páginas; 36 reais), coletânea
organizada pelo jornalista Daniel Piza. Os novos tempos que se anunciavam seriam
os mais sombrios da história: o "indivíduo autônomo" seria
eliminado da existência. Naquele momento, com a II Guerra Mundial em seus
princípios, o prognóstico de Orwell talvez não fosse tão
exagerado. Mas, mesmo depois da derrota de Hitler, o escritor ainda sustentaria
a mesma tenebrosa profecia no seu último e mais conhecido romance. Escrito
em 1948 e publicado no ano seguinte, 1984 descrevia um mundo opressivo
no qual os cidadãos vivem sob a permanente vigilância de um Estado
autoritário. Essa projeção ficcional felizmente não
se concretizou. Os anos 80 do século XX, pelo contrário, assistiram
ao início da derrocada do comunismo soviético, a inspiração
mais imediata de 1984. Não é por nada que já se falou
até de um componente paranóico na obra de Orwell. Mas foi esse alarmismo
militante que o manteve firme na recusa de toda e qualquer forma de tirania. Ele
foi dos poucos intelectuais da esquerda européia que não flertaram
com o stalinismo. Pelo contrário, fez da denúncia da barbárie
comunista uma de suas missões como jornalista e escritor. Orwell era uma
contradição ambulante: o paranóico lúcido.
Filho de um funcionário colonial inglês, George Orwell (nome literário
de Eric Arthur Blair) nasceu na Índia, em 1903. Na juventude, tentou seguir
os passos do pai e serviu como policial numa colônia britânica, a
Birmânia (atual Mianmar). Data daí sua profunda desilusão
com a violência do colonialismo, expressa em dois dos mais poderosos textos
da coletânea, Um Enforcamento e O Abate de um Elefante. De
volta à Europa, no fim dos anos 20, viveu entre Paris e Londres, trabalhando
como vendedor de livraria, resenhista de livros e jornalista. Foram anos duros,
que o autor relatou em Down and Out in Paris and London (algo como Na
Pior em Paris e Londres). Chegou a viver entre mendigos, embora haja quem
diga que ele romantizou esse trecho da própria biografia: o que era apenas
vida boêmia e dissipação foi transformado em pobreza e privação.
Mas o empenho de Orwell pelas causas políticas e sociais estava longe de
ser apenas festivo. Em 1936, ele viajou para a Espanha para lutar pelos republicanos
na Guerra Civil. Foi ferido no pescoço, o que lhe deixou seqüelas
permanentes. Dali em diante, só conseguiria falar em tom baixo (o que não
o impediu de trabalhar para a rádio BBC durante a II Guerra).
Foi com um devastador ataque aos rumos autoritários da revolução
russa que Orwell alcançou o sucesso de público como escritor. A
fábula A Revolução dos Bichos, de 1945, é uma
bela realização de um ideal do autor: transformar a escrita política
em arte. Mas é como ensaísta que o poder de fogo de Orwell se mostra
mais certeiro e destruidor. Impecáveis tanto na elegância do estilo
quanto na lógica argumentativa, os artigos de Orwell desmontam enganos
e contradições do pensamento esquerdista. Embora tenha sempre se
declarado um socialista, o escritor se recusava a obedecer a qualquer linha partidária.
"A aceitação de qualquer disciplina política parece
ser incompatível com a integridade literária", escreve Orwell.
Sua integridade, porém, sofreu um golpe póstumo grave quando se
descobriu, nos anos 90, que Orwell entregara uma lista de "criptocomunistas" aos
serviços de informação britânicos, em 1949 (um ano
antes de morrer de tuberculose). Entre os "companheiros de viagem" do Partido
Comunista apontados pelo dedo duro de Orwell encontravam-se escritores como J.B.
Priestley e atores como Charles Chaplin. Apenas um dos acusados era de fato um
espião a serviço dos soviéticos o jornalista Peter
Smollett, também suspeito de ter aconselhado um editor inglês a recusar
A Revolução dos Bichos. Ao que parece, a lista destinava-se
apenas a evitar que o governo inglês contratasse comunistas em potencial,
e nenhum dos acusados sofreu alguma forma de retaliação (a Guerra
Fria na Europa não produziu os efeitos histéricos que se viram nos
Estados Unidos do macarthismo). Mas é melancólico saber que o escritor
tenha se rebaixado à delação anônima logo ele,
que em 1984 criticou a vigilância estatal do "Grande Irmão"
(o Big Brother, ironicamente convertido em nome de reality show). George
Orwell acabou traído por sua própria paranóia.
| O
pensamento livre de George Orwell | Livros
"Antes de se ter algum tipo de relação
profissional com livros, não se descobre quão ruim é a maioria
deles"
Totalitarismo
"Quase com certeza estamos rumando para uma era de ditaduras
totalitárias uma era em que a liberdade de pensamento será
a princípio um pecado mortal e mais tarde uma abstração sem
sentido. Isso significa que a literatura, na forma em que a conhecemos, deve sofrer
ao menos uma morte temporária" Comunismo
"Não creio que seja preciso procurar longe
o motivo pelo qual os escritores jovens da década de 1930 afluíram
ao Partido Comunista. Foi simplesmente algo em que acreditar. Patriotismo, religião,
império, glória militar tudo em uma palavra: Rússia.
Pai, rei, líder, herói, salvador tudo em uma palavra: Stalin"
O ascetismo de Gandhi "Sem
dúvida, bebidas alcoólicas, tabaco etc. são coisas que um
santo deve evitar, mas santidade também é algo que os seres humanos
devem evitar"
A inocência da esquerda "Muito
do pensamento esquerdista é uma espécie de brincadeira com fogo
feita por pessoas que nem sequer sabem que o fogo queima" |
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