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Cultura
Um perigoso flerte
com a censura
A classificação indicativa
é uma necessidade. Mas, na prática, ela abandonou
a meta de ser orientação para os pais e ganhou força
de veto

Ricardo Valladares
Ana Araújo
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ELE DECIDE O QUE SEUS FILHOS
PODEM VER
Professor de direito e ex-funcionário
do Ministério da Educação, o paulista José
Eduardo Elias Romão, de 31 anos, comanda uma equipe de
64 funcionários encarregados da classificação
indicativa: "Não temos a pretensão de ser o superego
da sociedade" |
Neste fim de ano, duas adaptações de clássicos
da literatura infanto-juvenil estão em cartaz no país.
Parte do público a que os filmes se dirigem não terá
acesso a eles: Oliver Twist, da obra do inglês Charles
Dickens, foi classificado como impróprio para menores de
14 anos, e As Crônicas de Nárnia, do britânico
C.S. Lewis, não pode ser visto por crianças com menos
de 10 anos. Em princípio, não se trata de uma proibição.
Desde a promulgação da Constituição
de 1988, não existe mais censura no Brasil. Ela foi substituída
pelo sistema de classificação indicativa, que visa
a orientar os pais sobre o conteúdo de filmes, clipes, shows,
games, peças de teatro ou programas de televisão,
para que eles possam decidir com base em critérios objetivos
se determinado entretenimento é adequado ou não para
seus filhos. O sistema permite, por exemplo, que os pais de uma
criança de 12 anos autorizem sua ida ao cinema para assistir
a Oliver Twist, caso julguem que a descoberta do clássico
compense o susto que uma cena mais tensa possa causar. Na prática,
contudo, os pais terão grande dificuldade em encontrar uma
sala de exibição que lhes permita tomar essa decisão.
Amparados no caráter coercitivo do Estatuto da Criança
e do Adolescente, os juizados da Infância e da Juventude muitas
vezes punem com multas, ou até interdição,
estabelecimentos que abrem suas portas para pessoas mais jovens
do que o previsto pela classificação indicativa, ainda
que acompanhadas de um pai ou uma mãe. Para não serem
caracterizadas como infratoras, as grandes redes exibidoras se antecipam
e transferem para o porteiro o papel de censor. A contradição
se torna mais gritante porque, numa tarde de domingo, essas mesmas
crianças poderão acompanhar na televisão cenas
repletas de sexo, violência e vulgaridade. Muito restritivo
em algumas áreas, leniente demais em outras: não é
por acaso que o sistema nacional de classificação
causa tanto descontentamento e confusão.
Dispor de um sistema que informe
os pais sobre a natureza dos programas a que seus filhos assistem
é uma necessidade de qualquer nação. A questão
que está em jogo no país é mais espinhosa:
até que ponto o Estado tem o direito de sobrepor sua autoridade
à dos pais? Alguns casos não deixam dúvida
quanto à pertinência da ação do poder
público. Em 2000, por exemplo, a atriz Alessandra Negrini
levou um pito do Juizado por ter entrado num filme proibido para
menores de 18 anos com seu filho de apenas 3 anos. Episódios
de tal clareza, entretanto, são raros. Na maior parte das
vezes, as disputas se dão numa zona nebulosa, em que os ditames
do Estado podem ser interpretados como arbitrários, quando
não um flagrante desrespeito ao pátrio poder. "Se
o pai quiser e disser: 'Meus filhos podem assistir a este filme',
ele é soberano, e o Estado não pode interferir", opina
o jurista Ives Gandra, especialista em direito constitucional
e cidadão favorável à classificação
indicatória. O próprio departamento de classificação
indicativa, na verdade, não reclama para si um poder coibitivo.
"Não temos nem queremos ter poder de veto. A censura foi
péssima para o país", diz José Eduardo Elias
Romão, diretor do Departamento de Justiça, Classificação,
Títulos e Qualificação embora admita,
com alguma relutância, saber que é exatamente esse
o destino que será dado à maioria das avaliações
de seu departamento.
No último ano, a equipe
de Romão tem feito um esforço concentrado para se
organizar e tornar seus critérios mais objetivos. Antes,
o trabalho se baseava em parâmetros que eram um primor de
subjetividade e vagueza como "conflitos não-assimiláveis"
ou "desvirtuamento de valores éticos". De acordo com o novo
manual, é preciso distinguir, por exemplo, entre mera sugestão
de violência e violência explícita, ou consumo
de drogas legais, como álcool e tabaco, e uso de drogas ilegítimas.
"Fico de olho nos clipes, porque às vezes a gente encontra
um rapper fumando um baseado lá no canto da imagem", diz
o analista Rodrigo da Cunha Lima, de 24 anos. Mas esses cuidados
estão longe de solucionar os impasses. O primeiro deles se
dá com a Justiça. Muitos juízes de comarca
vêem nos dispositivos do Estatuto da Criança e do Adolescente
que lhes permite agir em defesa dos menores uma autorização
para dar à classificação indicativa força
de censura. Temerosos das punições, cinemas, teatros
e casas de shows preferem ignorar os dispositivos legais criados
para preservar a autoridade paterna como uma portaria federal,
baixada em meados do ano passado, que permite que uma criança
assista a um filme classificado para uma faixa acima da sua se acompanhada
de responsável. No caso dos filmes classificados para 10
anos, a portaria é ainda mais liberal: qualquer criança
pode entrar se o pai estiver junto. Mais difícil ainda é
encontrar um exibidor que reconheça o decreto segundo o qual
o menor pode ganhar acesso mediante autorização por
escrito dos responsáveis. "Como saber se aquela folha de
papel não é forjada?", indaga Valmir Fernandes, presidente
da Cinemark, rede com 310 salas no país. Como existe uma
relação direta entre a classificação
de um filme e a sua bilheteria quanto mais baixa a idade
permitida, mais espectadores e maior a renda , a pressão
das distribuidoras sobre o time de Romão é intensa,
e o departamento costuma se ver inundado de pedidos de recursos.
Professor de direito e ex-funcionário
do Ministério da Educação, Romão tem
o perfil que se esperaria de um servidor público com suas
atribuições: a classificação indicativa
é, ou deveria ser, tarefa de um grupo com formação
e experiência amplas. Mas a realidade não é
bem essa. O departamento conta com 64 funcionários, vinte
deles analistas que passam o dia inteiro assistindo a programas
de televisão, games, clipes e musicais, além de filmes
de televisão, cinema, DVD e vídeo. A verba mensal
para salários é de apenas 71.000 reais. O resultado
é um convite ao despreparo: a média de idade do grupo
fica na casa dos 20 e poucos anos, o que impede o uso do adjetivo
"ampla" tanto no que se refere à formação quanto
à experiência. Até o fim do ano, esses 64 funcionários
terão analisado nada menos do que 5.000 processos, 500 a
mais do que em 2004. Parte da verba anual para viagens e cursos,
de 610.000 reais, foi gasta há pouco numa consulta pública
em vários estados sobre a possibilidade de ampliar ou não
a faixa livre da televisão aberta (a TV por assinatura não
é monitorada), que hoje vai até as 20 horas. No ano
passado, Romão teve de investir 400.000 reais em instrumentos
básicos de trabalho: um novo projetor, aparelhos de DVD e
televisores. Mas todos os seus funcionários ocupam salas
apertadas algumas sem janelas e vêem até
quatro títulos por dia. "Tem muito filme ruim. Quando chega
o final do expediente, a gente não agüenta mais", diz
um analista.
Só há uns poucos
anos o departamento de classificação indicativa começou
a assistir de fato aos programas que analisa antes, os funcionários
davam seu veredicto com base em sinopses. Nem é preciso dizer,
a televisão permanece a mais polêmica de suas incumbências.
Recentemente, por exemplo, a Rede Globo exibiu o filme O Vingador
do Futuro, com Arnold Schwarzenegger, às 16 horas de
um sábado. Classificado para 14 anos, ele só poderia
ir ao ar após as 21 horas. A emissora se desculpou, alegando
ter programado o filme "sem querer''. O Ministério Público,
porém, instaurou um processo. Se condenada, a Globo poderá
pagar multa de até 200 salários mínimos
quantia irrisória para uma TV, o que encoraja as emissoras
a exibir atrações inadequadas para elevar a audiência.
Por causa de abusos como esse é que corre na Justiça
Federal uma ação civil pública de 2001, a pedido
do procurador da República Fernando Martins, de Minas Gerais,
solicitando que a multa por filme salte para 500.000 reais. Outras
vezes, o rigor parece exagerado. Há pouco tempo, a Globo
foi surpreendida com a chancela de inadequado para maiores de 12
anos dada ao desenho animado Pocahontas, da Disney, que nos
cinemas foi visto até por crianças de colo. Justificativa:
ele contém uma cena de assassinato. A palavra é forte,
mas quem conhece o filme sabe que a seqüência é
tão disfarçada quanto a morte da mãe de Bambi.
Cláudia Telles, advogada da Associação Brasileira
de Emissoras de Rádio e Televisão, defende que a Constituição
deixa claro que a intenção da classificação
é tão-somente a de informar, e cabe portanto à
emissora discordar do horário estabelecido se assim quiser.
No caso de programas ao vivo
ou novelas que geralmente são classificadas por meio
de sinopses , as transgressões são freqüentes,
e um bocado difíceis de detectar. Em 2003, por exemplo, a
Rede Globo obteve permissão para passar à tarde, no
Vale a Pena Ver de Novo, a novela Porto dos Milagres
originalmente classificada para maiores de 12 anos e, portanto,
exibida no horário das 8 , mediante um compromisso
escrito de que nenhuma cena imprópria seria veiculada. O
Ministério Público considerou o compromisso insuficiente
e há poucas semanas uma equipe de classificação
indicativa reavaliou Porto dos Milagres com base em fitas
gravadas. A classificação livre foi revogada, e a
exibição à tarde, vetada. Na semana em que
a reportagem de VEJA acompanhou o trabalho do departamento, um quadro
de entrevista do programa Domingo Legal estava sendo visto
na sexta-feira posterior à sua exibição ao
vivo. "Tivemos uma denúncia e estou avaliando. Havendo uma
exposição maior de sensualidade, a gente pode caracterizar
como erotização", explicou o analista Everton Martins.
Está aí algo erotização
de que ninguém poderia acusar Oliver Twist ou Nárnia.
Gugu Liberato, sim. Charles Dickens e C.S. Lewis, não. E
durma-se com um paradoxo desses.
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AS CRÔNICAS
DE NÁRNIA O LEÃO,
A FEITICEIRA E O GUARDA-ROUPA
Classificação pedida
pela distribuidora: livre
Classificação recebida: 10 anos
Por quê: nas cenas de batalha as crianças
usam espadas, arcos, flechas e pedras
OLIVER TWIST
Classificação pedida
pela distribuidora: livre
Classificação recebida: 14 anos
Por quê: na
cena em que a personagem Nancy é assassinada,
são mostrados os movimentos de seu agressor.
Além disso, os pequenos amigos de Oliver aparecem
bebendo álcool e fumando tabaco
PORTO DOS
MILAGRES
Classificação pedida
pela emissora: livre
Classificação recebida: 12 anos
Por quê: agressões físicas
e verbais, casais iniciando relações
sexuais e, num dos capítulos, o estupro
e subseqüente suicídio de
uma adolescente
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