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Gastronomia
Três estrelas e
três mulheres
A vida extraordinária de Paul Bocuse,
o chef do século XX, que chega aos 80 anos
celebrando o apetite à mesa e na cama

Antonio Ribeiro, de Paris
Antonio Ribeiro
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Coleção Bocuse
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| Bocuse em seu refúgio atual
e sendo condecorado por Giscard d'Estaing: glória no
país onde a culinária é assunto de Estado
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Nas panelas fumegantes da cozinha
está sendo preparado o jantar para 200 convivas. No salão
do restaurante, o chef francês Paul Bocuse está de
braços cruzados, ereto, imóvel. O porte imponente,
devidamente paramentado de brim branco e chapéu de copa cilíndrica
alta, emerge entre as mesas a visão lembra a de um
busto de mármore sobre um amplo pedestal. Uma senhora aproxima-se
dele, desmancha-se em elogios e, ao se despedir, pede o cartão
de visita. "A madame queira me desculpar, eu não tenho cartão,
mas meu nome está nos guias de culinária." E como
está. A começar pelo mais famoso deles, o Guia
Michelin, no qual Bocuse figura há quarenta anos, ininterruptamente,
com nota máxima: três estrelas. Caso único.
Os grandes cozinheiros lutam para ganhar uma boa nota, chegam a
se matar, literalmente, só com o boato de uma avaliação
desfavorável como fez o chef Bernard Loiseau, que
se suicidou em 2003 com um tiro de cartucheira na cabeça.
A dois meses de completar 80 anos, Paul Bocuse mantém sua
lenda em alta com o lançamento de uma biografia com o título
adequadíssimo de O Fogo Sagrado. O livro relata a
trajetória de Bocuse, o "cozinheiro do século XX".
Se fosse um prato, o livro estaria mais para a culinária
baiana. É muito picante. Para começo de conversa,
o grande nome da culinária francesa conta sem rodeios que
nos últimos trinta anos dividiu sua intimidade com três
esposas. Poligamia? "Sou fiel a três mulheres", confessa Bocuse.
Todas com pleno conhecimento mútuo, firmes ao lado do chef.
Em julho passado, Bocuse passou pela mesa operatória. Além
das três estrelas e das três mulheres, agora ele tem
três pontes de safena.
"Eu trabalho para viver 100 anos
e festejo como se a morte estivesse a minha espera amanhã",
disse Bocuse a VEJA. Os cinqüenta dias de convalescença
da cirurgia deram ao agitado Bocuse a oportunidade para colocar
a vida em pratos limpos. Apressou-se a publicação
da biografia. "Melhor escrever as memórias quando ainda se
tem memória." A razão não foi só essa.
Bocuse completa: "Não queria deixar os biógrafos escreverem
besteiras comigo ausente, incapaz de desmenti-los". O cozinheiro
confiou sua história à enteada Eve-Marie Zizza-Lalu,
talentosa escritora de 38 anos. Ela conhece Paul desde menina. "Ele
passava lá em casa na hora do chá", conta Zizza-Lalu,
que é filha de Patricia, responsável mundial pelos
produtos com a marca Paul Bocuse. Patricia é uma das três
mulheres a quem o cozinheiro é fiel e a única com
quem ele não teve filhos. "Ele sugeriu terminar a biografia
com a frase: Paul Bocuse não pode morrer." Zizza-Lalu descartou
a proposta. Ela fez questão, sobretudo, de não deixar
Paul Bocuse morrer sem antes falar das suas mulheres. Com isso garantiu
que a mãe não fosse citada apenas como uma funcionária
eficiente e zelosa. Em O Fogo Sagrado, Bocuse arremata uma
vida gloriosa sem cair na dissimulação.
Paul Bocuse dorme no mesmo quarto
em que nasceu, no andar de cima do seu restaurante. Desde 1942,
divide os aposentos com a esposa Raymonde, braço-direito
nos negócios. "Quando viaja, ele escolhe sempre o lado da
cama mais próximo à terra natal", relata sua biógrafa.
"Amor e trabalho não têm fronteiras para monsieur Bocuse."
Cozinha e sexo, segundo o chef, têm pontos em comum, "Nós
temos apetite pelo outro, devoramos com olhos e terminamos por passer
à la casserole (na gíria francesa, ter relação
sexual)". Diz ele, com graça: "Não fui eu quem
inventou o duplo sentido do verbo comer". Qual a receita para manter-se
no topo da alta cozinha e, ao mesmo tempo, satisfazer uma esposa,
duas amantes permanentes e várias ocasionais? "Organização,
uma tremenda organização, mas para quem mistura ingredientes
não é difícil." O cozinheiro admite que suas
mulheres "extraordinárias" contribuíram. Dito de outro
modo: "Elas aceitaram meu comportamento".
Francis Giacobetti
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| A IDOLATRIA
Na famosa foto dos anos 80, Paul Bocuse aparece no lugar de
Cristo cercado de chefs menores na paródia da Santa Ceia,
e abaixo o restaurante três-estrelas do cozinheiro |
Divulgação
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A proximidade da morte não
é novidade. A obsessão pela posteridade, uma constância
em Bocuse. Quando jovem, voluntário da Primeira Divisão
Francesa Livre, lutou contra o ocupante nazista. Nas planícies
da Alsácia foi ferido pelo fogo inimigo: uma bala perfurou-lhe
o peito a 2 centímetros do coração. Foi salvo
graças a massivas transfusões de sangue num hospital
de campanha aliado. "Minhas veias estão repletas de sangue
ianque." Ele guarda daquele tempo, gravada no ombro esquerdo, a
tatuagem de um galo ave-símbolo de seu país.
Para diversão dos soldados americanos, Bocuse fazia um truque
aprendido com a garotada do interior: hipnotizava os galos. O chef
colocou Jérôme, o filho da relação com
Raymone Carlut, na gerência do restaurante Les Chefs de France,
na Flórida. O sobrenome Bocuse abre portas por toda parte,
mas na França ele carrega o peso da fama. "Não é
fácil me suceder. Jérôme está mais à
vontade nos Estados Unidos." Nos tempos bicudos, o pai de Bocuse,
dono do restaurante da família, pediu um lugar para Paul
na cozinha do amigo Fernand Point, o grande demiurgo da culinária
francesa do começo do século passado. "Meu pobre Georges,
não posso prometer, no momento, empregar seu filho", escreveu
Point. Paul Bocuse apareceu assim mesmo no La Pyramide, em Vienne,
nas margens do Rio Rhone, então já um restaurante
célebre. Bocuse não revelou sua identidade. Conseguiu
um posto de ajudante de cozinheiro e absorveu como nenhum outro
as lições do pioneiro. A revolução de
Fernand Point baseava-se no conceito simples de escolher os melhores
ingredientes. Desde então, ingredientes de primeira, sempre
conspicuamente frescos, são os fundamentos da cozinha de
Bocuse. O preparo dos ingredientes respeita e ressalta suas qualidades
naturais. Nada de chapa térmica ou microondas. Sempre o fogo,
o fogo sagrado, "elemento essencial na cozinha e na mulher".
Os Bocuse estão à
beira do fogão e às margens do Rio Saône desde
o século XVIII. Jean-Noël Bocuse, veterano do Exército
de Bonaparte, morreu cozinheiro em Collonges-au-Mont-d'Or, 12 quilômetros
ao norte de Lyon. Joseph e Marie, avós de Paul, tocaram o
Restaurante Bocuse, apreciado pela excelente cozinha regional. E
não só. O restaurante oferecia à clientela
conforto adicional: quartos para a hora da sesta. A freqüência
era de homens acompanhados de moças demi-mondaines,
delicioso eufemismo para prostitutas. Paul conta no livro que o
avô Joseph achava a esposa muito "fogosa" no atendimento aos
clientes masculinos. Em 1921, movido pelo ciúme, o avô
vendeu o restaurante e a razão social ao russo Borisoff.
Georges Bocuse casou-se com a herdeira do Hotel du Pont, estabelecimento
a 100 metros do restaurante vendido pela família. Quando
o pai de Bocuse ganhou a primeira estrela, o filho Paul já
comandava a cozinha, mas a família não tinha direito
comercial sobre o nome Bocuse estampado na placa do vizinho. O restaurante
dos Bocuse era apelidado pelos lioneses de Bocusoff. A revanche
chegou junto com a notoriedade de Paul. Ele comprou a parte do sócio
do pai e readquiriu a antiga propriedade da família, onde
montou o restaurante Auberge du Pont de Collonges. Lugar inconfundível
pela fachada de cores fortes com um imenso letreiro: Paul Bocuse.
Fotos Coleção Bocuse
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Bocuse
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Bocuse
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AS
TRÊS MULHERES
Raymone Carlut com o filho Jérôme esquiando,
Raymonde Bocuse com Bocuse (ao centro) e Patricia Zizza,
a que cuida da marca |
Uma sopa é até hoje
o prato mais lendário do restaurante. Ela é feita
com caldo de carne, vinho branco, trufas negras, foie gras, cenoura,
cebola, salsão, carne cortada em pedaços finíssimos,
pitadas de sal marinho e pimenta-do-reino. O toque distintivo: crosta
de massa folhada para preservar o calor e os aromas. A iguaria custa
80 euros (226 reais) no Auberge du Pont. Ela foi servida pela primeira
vez em 1975, num almoço no palácio presidencial do
Eliseu, em Paris. Chama-se VGE, as iniciais do então presidente
francês Valéry Giscard d'Estaing. Mesmo o requintado
Giscard d'Estaing confundiu-se com o novo prato e não soube
como abordar a sopa. "Quebre a casca, presidente", disse Bocuse.
Giscard acabou por espetar a comenda da Legião de Honra no
avental do cozinheiro. O desempenho de Bocuse ficará na história
como a maior contribuição para alçar os cozinheiros
à posição de chef e torná-los reconhecidos
como artistas. Antes restritos à cozinha, eles passaram a
circular no salão, tornaram-se celebridades. "Ele nos permitiu
ser quem somos", disse a VEJA Alain Ducasse, chef do exclusivo restaurante
Plaza Athénée. Hoje, muitos chefs estrelados comandam
seus restaurantes longe das panelas pelo menos não
tão perto quanto Bocuse. Um jantar a dois com um grande vinho
pode custar o preço de um carro popular e é preciso
reservar lugar com meses de antecedência. O fenômeno
atiça vaidades, nem sempre bem digeridas pelos fregueses.
Diz Bocuse: "Se esses chefs me permitissem um conselho, eu diria:
'voltem para a cozinha'".
Durante séculos um país
eminentemente agrícola, a França trata sua cozinha
como questão de Estado. Ao lado de uma variedade extraordinária
de produtos regionais, floresceu um saber, popular e acadêmico,
de como tratar e combinar alimentos. O pai da culinária francesa
foi Marie-Antoine Carême, cozinheiro de Charles-Maurice de
Talleyrand (1754-1838), o político e diplomata que passou
à história por sua capacidade de sobrevivência
serviu aos revolucionários franceses, a Napoleão,
aos Bourbon, quando eles retomaram o trono, chegando ainda com algum
poder ao reinado de Luís Felipe. Talleyrand fez da boa mesa
o ambiente ideal para suas conversas diplomáticas. Carême
estruturou e deu lógica à cozinha. Pratos em formas
arquitetônicas (les pièces montées
o bolo de noiva, por exemplo), compatíveis entre si e equilibrados
pela cor, textura e sabor. Houve grande progresso quando os franceses
importaram uma concepção russa: em vez de servir todos
os pratos ao mesmo tempo como nos banquetes medievais, as refeições
foram divididas em etapas e servidas em porções individuais.
Georges-Auguste Escoffier codificou a gastronomia no início
do século passado dando às receitas a perenidade dos
clássicos. As sopas foram classificadas em consumes
(claras), potages (densas), crèmes (cremosas)
e velutés (aveludadas com creme de leite e manteiga).
Cada categoria tem subdivisões dependendo do agente de densificação,
guarnição, ervas, tempero e tipo de álcool.
Onde Paul Bocuse entra nessa história? Ele foi o ponta-de-lança
do time formado por Jean e Pierre Troisgros, Michel Guérard,
Roger Vergé, Alain Chapel e Paul Haeberlin. Talentosos cozinheiros
criadores de um estilo livre e eclético de cozinhar, a nouvelle
cuisine batizada pelo Guia GaultMillau. Eles trouxeram de
volta o culto ao sabor natural dos alimentos a prática
ensinada por Fernand Point. Os molhos ficaram mais leves, sua base
de creme de leite e manteiga foi substituída por purês
de legumes. O minimalismo japonês serviu de principal inspiração
para a decoração dos pratos. "Bocuse mudou a história
da alta cozinha. A culinária contemporânea é
herança dele", disse a VEJA o chef catalão Ferran
Adrià, ele próprio um inovador revolucionário.
Les Freres Lumiere
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Fotos Coleção Bocuse
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TRADIÇÃO
E GLÓRIA
Marie Bocuse, avó do cozinheiro, fazendo geléia
(à dir.), e Bocuse com Brigitte Bardot em 1962
no Auberge du Pont: o restaurante estava cheio. Ela comeu em
mesa improvisada na calçada |
Corria o ano de 1969, os críticos
gastronômicos Henri Gault e Christian Millau foram visitar
Bocuse em Collonges. Antes de voltar a Paris, pediram ao chef um
prato leve para não viajarem empanturrados. Bocuse cozinhou,
rapidamente, vagens al dente, picou uma échalote (a
saborosa cebola francesa ) e deitou um filete de azeite em cima.
Gault viu só ele o prato como a assinatura
de um manifesto equivalente à nouvelle vague dos então
jovens cineastas François Truffaut, Alain Resnais, Jean-Luc
Godard e Louis Malle. Ex-jornalista esportivo, Gault espalhou a
novidade: "A nouvelle cuisine existe, eu a encontrei". Bocuse, porém,
continuou fazendo o que sempre fez, sem nunca ter reivindicado a
autoria do movimento. ("A única coisa que mudou na minha
vida foram os lençóis da minha cama.") A nouvelle
cuisine cumpriu a trajetória das novidades artificiais: foi
da glorificação ao escárnio, a ponto de ganhar
a pecha de "tudo na conta, nada no prato". Diz Bocuse: "Esse negócio
de cortar uma ervilha em quatro partes não é comigo".
Alguns críticos reprovam Bocuse por não mais inovar
no menu e na decoração dos seus restaurantes
além do original de Collonges, ele tem cinco brasseries
em Lyon. Aos que clamam por novidades, ele decreta com desdém:
"Se os senhores se referem à cozinha molecular, tenho o maior
prazer em dizer que não a praticamos. Lamento também
informá-los que ninguém come em museus nem vem aos
meus restaurantes para comer as cortinas, só existe uma culinária:
a boa".
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