Edição 1936 . 21 de dezembro de 2005

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Polícia
"Laranjas" exportam bilhões

Força-tarefa conclui investigação
sobre lavagem de dinheiro
no Brasil: é um escândalo


Ronaldo Soares


Leonardo Soares/Ag. O Globo
Farol da Colina: operação prendeu 64 pessoas

Quando investigavam a ação de doleiros em Foz do Iguaçu, agentes da Polícia Federal depararam com uma cena curiosa. O funcionário de um doleiro que usava o nome do empregado para abrir contas e emitir cheques foi chamado para prestar depoimento. Ao ter de declinar sua profissão, ele respondeu candidamente: "laranja". O episódio faz parte do extenso repertório acumulado nos últimos dois anos pela força-tarefa do caso Banestado para investigar a lavagem de dinheiro, uma praga que se alastrou pela economia mundial e que, no Brasil, movimenta cifras impressionantes. A ação da força-tarefa terminou na semana passada e VEJA teve acesso ao relatório final desse grupo, que reúne integrantes de vários órgãos, entre eles a Polícia Federal, o Banco Central e a Receita Federal. Os dados mostram que, em dois anos, 522 pessoas denunciadas movimentaram, com a ajuda de doleiros, 18 bilhões de dólares somente em contas nos Estados Unidos. Levando-se em conta os bens arrestados, seqüestrados ou tornados indisponíveis por ordem judicial no Brasil, são mais 187 milhões de reais. Se considerarmos as movimentações em todo o período investigado – 1996 a 2004 –, o montante sobe para 122 bilhões de dólares.


A força-tarefa, criada pelo Ministério Público Federal do Paraná em 2003, é um dos principais fatores para explicar o aumento do número de pessoas que respondem a processo por lavagem de dinheiro no país (veja quadro ao lado). Note-se como era espantosamente pequena a quantidade de processos até essa data – considerando-se que o conjunto de operações financeiras e comerciais com o intuito de dar aparência lícita a recursos e bens provenientes de negócios ilícitos movimenta hoje algo em torno de 1 trilhão de dólares no mundo. O Brasil acordou para o combate a esse tipo de crime por força da pressão internacional – uma conseqüência direta do combate ao terrorismo depois do 11 de setembro de 2001. Só a Operação Farol da Colina resultou na prisão de 64 pessoas e rastreou 13 bilhões de dólares enviados ao exterior. Seu banco de dados continua a municiar outras investigações. Foi o caso da Operação Firula, que no dia 8 levou de volta à prisão os empresários de futebol Alexandre Martins e Reinaldo Pitta, acusados de sonegação fiscal, evasão de divisas e lavagem de dinheiro. Com a documentação apreendida na operação, a PF vai esmiuçar os contratos assinados com os jogadores que a dupla representa (ou representou, como o atacante Ronaldo). Sabe-se que negociação de jogador de futebol é uma das técnicas usadas para lavar dinheiro. Mas a lista é extensa: vai de operações fraudulentas de importação e exportação a transações que envolvem compra e venda de ações, cavalos, jóias, objetos de arte e imóveis. "Tudo o que tem muita liquidez e muita variação de valor se presta à lavagem de dinheiro", diz o procurador Rogério Nascimento.

Pelo seu caráter transnacional (no caso de operações com remessas de dinheiro para paraísos fiscais) e pelo fato de estar sempre associada a algum outro tipo de ilícito – como tráfico de drogas ou de armas, terrorismo, corrupção e extorsão mediante seqüestro –, a lavagem de dinheiro vem sendo apontada como o crime do século XXI. Ao mesmo tempo, a eficácia do combate a esses ilícitos tem aumentado em todo o mundo. Diz Kevin Vandergrift, secretário do Grupo de Ações Financeiras (FATF), entidade internacional voltada para o combate à lavagem: "Hoje é mais fácil transferir dinheiro entre um país e outro. Por outro lado, está cada vez mais difícil esconder o dinheiro".

 
 
 
 
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