Edição 1936 . 21 de dezembro de 2005

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Economia e Negócios
Sete perguntas sobre
os juros

A lógica que orienta as decisões do
Copom, o comitê do Banco Central
que decide a taxa de juros da economia brasileira

 
Ana Araujo
Reunião do Copom em 2003: no governo Lula, três anos sob polêmica e pressões

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Perguntas e Respostas: Taxa de juros

O Brasil deve fechar 2005 com uma taxa de inflação ao consumidor de 5,7%, a menor desde que adotou o regime de metas, em junho de 1999. Além disso, pela primeira vez o país começará um ano, o de 2006, com a expectativa de aumento de preços dentro do objetivo. Esses números mostram um avanço do processo de desconstrução da patologia inflacionária que boicotou a economia por mais de uma década. Só que essa conquista tem sido obtida a duras penas pela sociedade brasileira. Seu custo mais visível são os juros definidos pelo Comitê de Política Monetária (Copom), órgão do BC adotado no Brasil em 1996 à semelhança de organismos existentes nos Estados Unidos, União Européia, Alemanha e Inglaterra, entre outros. O Copom decide qual será a Selic, a taxa básica de juros adotada pelo Banco Central. Essa taxa influencia os índices de consumo e produção do Brasil e influi diretamente no patamar de crescimento. Em 2005, a expansão brasileira deverá ficar em 2,5%, abaixo da média mundial, da América Latina e dos demais países emergentes. O crescimento pífio é pintado como obra e arte do juro alto. O custo do dinheiro tem seu papel, mas a taxa de juro do BC não é o carrasco agora nem será a salvação da economia brasileira quando baixar.

1- O COPOM PODERIA TER BAIXADO MAIS OS JUROS? Política monetária não é ciência, muito menos exata. Portanto, não há conta matemática que comprove que uma redução de 0,75 ponto porcentual da taxa Selic, proposta por setores empresariais e políticos, seria melhor que o corte de 0,5 ponto porcentual definido pelo Copom na semana passada. De maneira geral, os melhores bancos centrais do mundo são aqueles que convencem a sociedade de que vão agir sempre que a inflação ameaçar sair das metas – sejam elas explícitas, como no Brasil, sejam implícitas, como nos Estados Unidos. Reclamações são normais, já que a conquista da credibilidade não é um concurso de popularidade. Quando os empresários acharem que suas reclamações influenciam as taxas de juro, o BC perdeu a batalha.

2- O SISTEMA DE METAS DE INFLAÇÃO É INFALIVEL? Não. É apenas um dos melhores mecanismos para assegurar o crescimento sustentado. Mas tem fragilidades. A principal delas diz respeito à dívida pública, que cresce sempre que o juro sobe. Por isso, o sistema de metas funciona melhor na Nova Zelândia do que no Brasil. A razão? No Brasil, metade da dívida é atrelada ao juro. Toda vez que o Copom eleva os juros para combater a inflação, essa metade da dívida aumenta. Como países com dívida alta em relação ao PIB precisam de juros mais altos, cria-se um círculo vicioso do qual só se sai com cortes profundos de gastos.

3- QUAL É A TAXA DE INFLAÇÃO MAXIMA TOLERAVEL NO BRASIL? Tanto a experiência brasileira quanto a internacional mostram que a taxa de inflação capaz de ser controlada com eficiência e menor custo social varia entre 2% e 5%. Entre 5% e 9%, ela entra numa faixa em que pode facilmente escapar do controle. Acima de 9%, torna-se incontrolável, devido à pressão da sociedade por mecanismos de compensação. No Brasil, essa pressão é maior porque a cultura da indexação ainda é forte na sociedade – donas-de-casa calculam o pagamento das empregadas em múltiplos do salário mínimo, aluguéis são corrigidos pelo IGP-M, salários têm dissídios anuais automáticos. Basta a inflação acender o rastilho de pólvora para que a corrida à indexação exploda.

4- QUAL O LIMITE MAXIMO DE CRESCIMENTO DA ECONOMIA BRASILEIRA? O Copom não trabalha com o conceito de PIB potencial, que é polêmico. Mas, pela experiência, sabe que, sempre que o Brasil cresce acima de 3,5% ao ano nas atuais condições, as pressões inflacionárias são inevitáveis. O país só poderia crescer mais com reformas estruturais, microeconômicas e mais investimentos. Embora admitam a necessidade de reformas, alguns economistas discordam da idéia de um número mágico para o potencial de crescimento. Segundo eles, bastaria baratear o crédito para que o otimismo e os investimentos venham e o país cresça mais do que 3,5% sem inflação. Isso também é discutível. Como o BNDES nunca consegue emprestar todo o dinheiro barato que tem, pode ser que os empresários não estejam assim tão sedentos só por crédito barato.

5- O COPOM OUVE CRITICAS FEITAS POR EMPRESARIOS E OUTROS ECONOMISTAS? Pouco. E, mesmo assim, nem sempre concorda com elas. Ao longo de 2005, por exemplo, três ex-presidentes do BC (Arminio Fraga, Gustavo Loyola e Affonso Celso Pastore) e o economista responsável pela implantação do regime brasileiro de metas de inflação (Sérgio Werlang) afirmaram que a queda dos juros deveria ser mais acelerada. Suas observações, no entanto, foram pontuais. Nenhum deles disse que o BC deveria tolerar taxas de inflação muito maiores, e, em geral, eles afirmaram que o BC mais acertou do que errou. Os membros do Copom ouviram essas críticas, mas, mesmo assim, mantiveram o ritmo moderado de cortes na taxa Selic. Acham, no entanto, que haverá maior margem de manobra para o BC em 2006. Isso porque as perspectivas para a inflação são extremamente favoráveis, principalmente nos preços administrados, o que permitirá uma redução mais rápida dos juros.

6- O COPOM SOFRE PRESSÕES POLITICAS? Sim. A decisão da semana passada, por exemplo, foi precedida de pelo menos duas reuniões do presidente Lula com a equipe econômica para forçar uma queda maior da taxa. Na primeira, com o ministro Palocci, o presidente chegou a chorar e disse cobras e lagartos sobre os diretores do BC, a quem responsabilizou pela retração da economia no terceiro trimestre deste ano. O segundo apelo de Lula foi dirigido ao próprio presidente do BC, Henrique Meirelles, numa conversa no último dia 7 de dezembro.

7- ESSAS PRESSÕES SURTIRAM EFEITO? Como o mercado sabe dessas investidas, os diretores do BC ficam num dilema. A taxa geralmente é fixada de modo que o mercado saiba que o BC está no comando, mas não a ponto de desafiar o presidente da República. Se o mercado desconfiar que o presidente do BC pode ser demitido, todo o trabalho se perde. Lembra aquela sabedoria dos políticos mineiros: "Nem tão devagar que pareça provocação, nem tão depressa que pareça que estamos fugindo". O próprio presidente do BC admitiu, em sua última conversa com Lula, que pressões políticas surtem efeito. Ele disse ao presidente que os juros neste ano não teriam sido tão altos se o próprio Planalto não o tivesse impedido de elevá-los para 17% numa das reuniões do Copom no segundo semestre do ano passado.

 
 
 
 
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