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Economia e
Negócios Sete perguntas sobre os juros
A lógica que orienta as decisões
do Copom, o comitê do Banco Central que decide a taxa de juros da
economia brasileira Ana
Araujo
 | | Reunião
do Copom em 2003: no governo Lula, três anos sob polêmica e pressões |
O Brasil deve fechar
2005 com uma taxa de inflação ao consumidor de 5,7%, a menor desde
que adotou o regime de metas, em junho de 1999. Além disso, pela primeira
vez o país começará um ano, o de 2006, com a expectativa
de aumento de preços dentro do objetivo. Esses números mostram um
avanço do processo de desconstrução da patologia inflacionária
que boicotou a economia por mais de uma década. Só que essa conquista
tem sido obtida a duras penas pela sociedade brasileira. Seu custo mais visível
são os juros definidos pelo Comitê de Política Monetária
(Copom), órgão do BC adotado no Brasil em 1996 à semelhança
de organismos existentes nos Estados Unidos, União Européia, Alemanha
e Inglaterra, entre outros. O Copom decide qual será a Selic, a taxa básica
de juros adotada pelo Banco Central. Essa taxa influencia os índices de
consumo e produção do Brasil e influi diretamente no patamar de
crescimento. Em 2005, a expansão brasileira deverá ficar em 2,5%,
abaixo da média mundial, da América Latina e dos demais países
emergentes. O crescimento pífio é pintado como obra e arte do juro
alto. O custo do dinheiro tem seu papel, mas a taxa de juro do BC não é
o carrasco agora nem será a salvação da economia brasileira
quando baixar. 1- O COPOM PODERIA
TER BAIXADO MAIS OS JUROS? Política monetária não é
ciência, muito menos exata. Portanto, não há conta matemática
que comprove que uma redução de 0,75 ponto porcentual da taxa Selic,
proposta por setores empresariais e políticos, seria melhor que o corte
de 0,5 ponto porcentual definido pelo Copom na semana passada. De maneira geral,
os melhores bancos centrais do mundo são aqueles que convencem a sociedade
de que vão agir sempre que a inflação ameaçar sair
das metas sejam elas explícitas, como no Brasil, sejam implícitas,
como nos Estados Unidos. Reclamações são normais, já
que a conquista da credibilidade não é um concurso de popularidade.
Quando os empresários acharem que suas reclamações influenciam
as taxas de juro, o BC perdeu a batalha. 2-
O SISTEMA DE METAS DE INFLAÇÃO É INFALIVEL? Não.
É apenas um dos melhores mecanismos para assegurar o crescimento sustentado.
Mas tem fragilidades. A principal delas diz respeito à dívida pública,
que cresce sempre que o juro sobe. Por isso, o sistema de metas funciona melhor
na Nova Zelândia do que no Brasil. A razão? No Brasil, metade da
dívida é atrelada ao juro. Toda vez que o Copom eleva os juros para
combater a inflação, essa metade da dívida aumenta. Como
países com dívida alta em relação ao PIB precisam
de juros mais altos, cria-se um círculo vicioso do qual só se sai
com cortes profundos de gastos. 3-
QUAL É A TAXA DE INFLAÇÃO MAXIMA TOLERAVEL NO BRASIL? Tanto
a experiência brasileira quanto a internacional mostram que a taxa de inflação
capaz de ser controlada com eficiência e menor custo social varia entre
2% e 5%. Entre 5% e 9%, ela entra numa faixa em que pode facilmente escapar do
controle. Acima de 9%, torna-se incontrolável, devido à pressão
da sociedade por mecanismos de compensação. No Brasil, essa pressão
é maior porque a cultura da indexação ainda é forte
na sociedade donas-de-casa calculam o pagamento das empregadas em múltiplos
do salário mínimo, aluguéis são corrigidos pelo IGP-M,
salários têm dissídios anuais automáticos. Basta a
inflação acender o rastilho de pólvora para que a corrida
à indexação exploda. 4-
QUAL O LIMITE MAXIMO DE CRESCIMENTO DA ECONOMIA BRASILEIRA? O Copom não
trabalha com o conceito de PIB potencial, que é polêmico. Mas, pela
experiência, sabe que, sempre que o Brasil cresce acima de 3,5% ao ano nas
atuais condições, as pressões inflacionárias são
inevitáveis. O país só poderia crescer mais com reformas
estruturais, microeconômicas e mais investimentos. Embora admitam a necessidade
de reformas, alguns economistas discordam da idéia de um número
mágico para o potencial de crescimento. Segundo eles, bastaria baratear
o crédito para que o otimismo e os investimentos venham e o país
cresça mais do que 3,5% sem inflação. Isso também
é discutível. Como o BNDES nunca consegue emprestar todo o dinheiro
barato que tem, pode ser que os empresários não estejam assim tão
sedentos só por crédito barato. 5-
O COPOM OUVE CRITICAS FEITAS POR EMPRESARIOS E OUTROS ECONOMISTAS? Pouco.
E, mesmo assim, nem sempre concorda com elas. Ao longo de 2005, por exemplo, três
ex-presidentes do BC (Arminio Fraga, Gustavo Loyola e Affonso Celso Pastore) e
o economista responsável pela implantação do regime brasileiro
de metas de inflação (Sérgio Werlang) afirmaram que a queda
dos juros deveria ser mais acelerada. Suas observações, no entanto,
foram pontuais. Nenhum deles disse que o BC deveria tolerar taxas de inflação
muito maiores, e, em geral, eles afirmaram que o BC mais acertou do que errou.
Os membros do Copom ouviram essas críticas, mas, mesmo assim, mantiveram
o ritmo moderado de cortes na taxa Selic. Acham, no entanto, que haverá
maior margem de manobra para o BC em 2006. Isso porque as perspectivas para a
inflação são extremamente favoráveis, principalmente
nos preços administrados, o que permitirá uma redução
mais rápida dos juros. 6-
O COPOM SOFRE PRESSÕES POLITICAS? Sim. A decisão da semana passada,
por exemplo, foi precedida de pelo menos duas reuniões do presidente Lula
com a equipe econômica para forçar uma queda maior da taxa. Na primeira,
com o ministro Palocci, o presidente chegou a chorar e disse cobras e lagartos
sobre os diretores do BC, a quem responsabilizou pela retração da
economia no terceiro trimestre deste ano. O segundo apelo de Lula foi dirigido
ao próprio presidente do BC, Henrique Meirelles, numa conversa no último
dia 7 de dezembro. 7- ESSAS PRESSÕES
SURTIRAM EFEITO? Como o mercado sabe dessas investidas, os diretores do BC
ficam num dilema. A taxa geralmente é fixada de modo que o mercado saiba
que o BC está no comando, mas não a ponto de desafiar o presidente
da República. Se o mercado desconfiar que o presidente do BC pode ser demitido,
todo o trabalho se perde. Lembra aquela sabedoria dos políticos mineiros:
"Nem tão devagar que pareça provocação, nem tão
depressa que pareça que estamos fugindo". O próprio presidente do
BC admitiu, em sua última conversa com Lula, que pressões políticas
surtem efeito. Ele disse ao presidente que os juros neste ano não teriam
sido tão altos se o próprio Planalto não o tivesse impedido
de elevá-los para 17% numa das reuniões do Copom no segundo semestre
do ano passado. |