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Especial
...E daí?

Sérgio Matins
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Fabiano Accorsi

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| "Acho engraçado quando
alguém chega a meu camarim e diz: 'Que coragem
a sua de cantar Eu gosto de homens e de mulheres!'.
Poxa, 'coragem' é uma expressão muito antiquada
nessa área" |
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Na semana passada, a cantora Ana Carolina deu
uma entrevista a VEJA que contém uma confissão pessoal
e ao mesmo tempo é o reflexo de uma mudança e tanto
na forma como os jovens brasileiros encaram a sexualidade. Ana Carolina
falou sem meias palavras sobre suas preferências. "Sou bissexual",
disse ela. "Acho natural gostar de homens e mulheres." O que chama
atenção é que ela trata do assunto com leveza.
E, é importante frisar, sem ter a mínima intenção
de fazer proselitismo em favor de causas políticas. "Sou
contra essa postura de levantar bandeiras para defender o homossexualismo,
pois fica parecendo que ser gay é uma doença", diz.
Ana Carolina é hoje uma das artistas que mais vendem discos
no Brasil. Desde 1999 ela lançou quatro CDs, que ultrapassaram
a marca de 1,5 milhão de cópias vendidas. Somente
neste ano foram 800 000 unidades, mais da metade de toda a carreira.
Seu mais recente lançamento, Ana & Jorge, feito
em parceria com o cantor carioca Seu Jorge, atingiu a vendagem de
125 000 discos em apenas duas semanas. Não é exagero
dizer que 2005 foi seu ano de ouro e a naturalidade com que
expõe sua sexualidade só reforçou seu carisma.
Nascida em Juiz de Fora, Ana Carolina
vem de uma família de músicos. Seu avô cantava
em igreja e a avó era artista de rádio. "Dizem, aliás,
que ela teve um affair com o forrozeiro Luiz Gonzaga mas
não me pergunte se foi antes ou depois de conhecer meu avô",
conta. Ana Carolina é autodidata: aprendeu a tocar violão,
guitarra e pandeiro sozinha. Hoje em dia, diz que domina a "matemática
da música", embora ainda não saiba ler partituras.
A cantora lembra que na adolescência, ao mesmo tempo em que
dava os primeiros passos musicais, já demonstrava interesse
por ambos os sexos. "Namorei quatro garotos, depois uma menina,
em seguida outro garoto e mais tarde uma menina outra vez", diz.
Aos 16 anos, ela tomou a decisão de contar para a mãe
que se sentia diferente das amigas. "Fiz isso de supetão.
Estávamos falando de um assunto qualquer e eu soltei a confissão,
como se não fosse nada. 'Mãe, eu gosto de homens e
de mulheres. Dá para a senhora me passar aquele negócio
ali, por favor?'" A opção da filha foi respeitada,
ainda que mais tarde ela tenha enfrentado cobranças. "Tive
de ser mais dura com minha mãe, para reafirmar minha condição.
Mas aí ela aceitou de vez, e hoje nos damos bem", conta.
Peter Iliccev/O Dia/AE
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| "Sempre apreciei as intérpretes
que botam tudo para fora ao cantar, como se fosse o últino
dia de sua vida. Cantar alto me deixa excitada" |
Ana Carolina começou da
mesma forma que tantos artistas anônimos: cantava em barzinhos.
Seu repertório tinha canções de Edu Lobo e
Chico Buarque, além de músicas próprias. "O
barzinho é uma escola maravilhosa, desde que você não
cante apenas sucessos que tocam na rádio, imitando as versões
originais. Desse jeito, você nunca encontra a própria
personalidade." Ana Carolina ainda era desconhecida quando encontrou
uma figura que marcaria sua carreira: a cantora Cássia Eller.
"Quando Cássia foi a um show meu, eu me senti como se tivesse
ganho a Cruz de Malta", diz. As duas ficaram amigas e, depois da
morte de Cássia, Ana Carolina herdou parte de seus fãs.
Gustavo Stephan/Ag. O Globo
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| Ana Carolina descobriu que era bissexual na
adolescência. Quando tinha 16 anos, ela decidiu contar
à mãe. "Gosto de homens e de mulheres. Dá
para pegar aquele negócio ali, por favor?" A cantora,
no entanto, não descarta a idéia de um dia se
apaixonar por um homem. "Se isso acontecer, caso de véu
e de grinalda, e ninguém irá me impedir."
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O forte da cantora são as baladas mas ela faz bom
uso de seu vozeirão para lhes dar um toque mais dramático
do que intimista. "Cantar alto me deixa excitada", diz ela. Além
de compor, Ana Carolina tem gravado canções de medalhões
e novos nomes da MPB. Ela tem uma visão realista do gênero
em que atua. "Não acredito que surgirão na música
brasileira movimentos musicais tão inovadores quanto a bossa
nova e o tropicalismo. Mas isso não é o fim do mundo.
Vamos fazer música de qualidade, nem que não seja
uma revolução", diz. Os shows de Ana Carolina têm
público eclético. Há fãs lésbicas
que bradam palavras de ordem enquanto ela entoa baladas românticas,
e também casais heterossexuais. Quando a cantora apresenta
sua versão bossa nova de Eu Gosto É de Mulher,
sucesso do grupo de rock paulistano Ultraje a Rigor da década
de 80, a platéia sempre se entusiasma. "É uma canção
machista, misógina até, mas sempre divertida." Outro
ponto alto se dá quando ela interpreta uma música
que estará em seu próximo disco, Eu Gosto de Homens
e de Mulheres. "De vez em quando alguém chega a meu camarim
e diz: 'Que coragem cantar essa música!'. Sempre recebo bem
esse tipo de elogio, mas acho que aí está a diferença
da minha visão. Acho 'coragem' uma expressão muito
antiquada nessa área. Nossas inclinações sexuais
não deveriam causar medo."
Atitudes como a de Ana Carolina
atraem dois tipos de oposição. Sua maneira de falar
de sexo parece ultrajante para os conservadores, mas também
incomoda muitos homossexuais aguerridos, que gostariam de vê-la
empunhando a bandeira do arco-íris. Ana Carolina pertence
a uma era pós-engajamento. Parte da militância não
se conforma com suas negativas a se apresentar na Parada Gay paulistana
ou em casas noturnas voltadas a esse público. "Acho que passeatas
e discursos no estilo 'nós, os homossexuais' só alimentam
uma visão estereotipada", diz. Inspirada por autoras como
a americana Camille Paglia, que admira por suas polêmicas
no âmbito do feminismo e da cultura gay ("O que mais me incomodou
num assalto por que passei foi levarem por acaso um livro dela",
brinca), a cantora não quer ser aprisionada num nicho. "Posso
até estar saindo com uma mulher, mas se eu me apaixonar por
um homem e decidir casar com ele na igreja, de véu e grinalda,
ninguém vai impedir", diz.
Nicole Bengiveno/The New York Times
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| A comediante Ellen DeGeneres: sem problemas
em admitir que é gay |
As atitudes de aceitação
ou rejeição social da homossexualidade variaram ao
longo da história. Na Grécia e na Roma antigas, era
um comportamento socialmente aceitável, especialmente quando
envolvia um homem mais velho e um adolescente. A religião
judaico-cristã, porém, ergueu pesadas interdições.
São Paulo, na epístola aos Romanos, diz que os homens
que "se queimam de paixão" uns pelos outros praticam "relações
contra a natureza" e são, portanto, vergonhosos. A hipocrisia
sempre deu um jeito de contornar as proibições. E
o privilégio econômico também se traduzia em
vantagens no terreno sexual: o poeta inglês Lord Byron, um
ícone do romantismo gótico que gostava tanto de homens
quanto de mulheres, observou que todas as perversões que
eram condenadas nas classes médias eram perdoadas aos que,
como ele, pertenciam à aristocracia. Mesmo assim, esperava-se
que os ricos fossem discretos na prática de seus comportamentos
"desviantes". O escritor e dândi irlandês Oscar Wilde
foi julgado como homossexual porque seu caso com lorde Alfred Douglas
se tornara tão conspícuo quanto o extravagante casaco
verde-garrafa que ele adorava vestir. Condenado a dois anos de prisão
e trabalhos forçados, Wilde se tornou um ícone da
causa gay. A punição da homossexualidade como crime
ainda vigoraria no século XX, especialmente em contextos
autoritários como a Alemanha nazista e a União Soviética.
A tendência, porém, foi o comportamento ser tirado
do âmbito judicial para ser lançado no terreno médico
ou seja, a homossexualidade passou a ser vista como doença.
Foi só nos anos 70, por exemplo, que o DSM uma espécie
de "listão" de distúrbios psíquicos, utilizado
por psiquiatras no mundo todo excluiu a homossexualidade
de seu catálogo de distúrbios psicológicos.
Bridgeman Art Library/Getty Images
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HOMOSSEXUALISMO
NA ARTE
O deus Júpiter se disfarça em mulher para
seduzir a ninfa Calisto (foto), no quadro do pintor flamengo
Rubens (1577-1640); o poeta Lord Byron fazia apologia da bissexualidade
e dizia que o que era aceitável para a aristocracia nem
sempre valia para as classes mais baixas; as esculturas romanas
exaltavam a beleza do corpo masculino |
A última década
viu as mudanças culturais em relação à
sexualidade se acelerarem de maneira marcante. Isso é perceptível
na televisão a maior caixa de ressonância do
pensamento e dos hábitos contemporâneos. A comediante
americana Ellen DeGeneres assumiu sua homossexualidade em público
em 1997, no auge do sucesso de uma série que estrelava, e,
desde então, a TV americana vê crescer a cada ano o
número de produções que abordam o universo
gay. Há séries leves como Will & Grace
e apimentadas como The L Word, sobre um grupo de lésbicas
glamourosas de Los Angeles. No Brasil também há mais
liberdade. Novelas como Mulheres Apaixonadas e Senhora
do Destino trataram recentemente do lesbianismo sem causar rejeição.
Nessa última, Aguinaldo Silva levou a trama até onde
nenhum noveleiro havia ousado: o par formado pelas atrizes Mylla
Christie e Bárbara Borges chegou a dividir a mesma cama e
a adotar uma criança.
Retratar a homossexualidade,
contudo, é diferente de assumi-la mais ainda da maneira
como Ana Carolina faz. O preconceito ainda é uma realidade,
e as dificuldades para "sair do armário" continuam passando
pelos mesmos pontos sensíveis: o medo do impacto junto à
família e no trabalho. "Profissionais de qualquer tipo, mas
principalmente os que lidam com o grande público, tendem
a adiar a decisão de assumir para não se prejudicarem",
diz Sônia Alves, diretora do instituto DataGLS, que pesquisa
o público gay. "Ainda não é fácil se
assumir. Se fosse realmente fácil, teríamos um monte
de atrizes e cantoras se revelando homossexuais", diz o escritor
e militante João Silvério Trevisan.
Para o psicólogo Ritch
Savin-Williams, professor da Universidade Cornell, nos Estados Unidos,
já está em andamento a revolução que
falta aquela que vai substituir o escândalo em torno
das diferenças sexuais por uma saudável naturalidade
ou até mesmo pela indiferença. Savin-Williams, que
pesquisa há mais de vinte anos as implicações
sociais do comportamento gay, acaba de publicar o livro The New
Gay Teenager (O Novo Adolescente Gay), no qual defende a tese
de que os jovens contemporâneos estão "dando um fim
à era da identidade sexual". Em suas palavras, uma parcela
considerável dos adolescentes de hoje em dia "não
se sente embaraçada pela ambigüidade sexual, não
a considera desviante e a percebe por todos os lados". Segundo o
pesquisador, o uso de categorias sexuais para separar, isolar ou
discriminar estaria diminuindo de maneira acelerada. "Para muitos
jovens, ser rotulado como gay já não importa muito.
Os adolescentes cada vez mais redefinem, reinterpretam e renegociam
sua sexualidade de tal forma que possuir uma identidade gay, lésbica
ou bissexual praticamente não tem significado", disse ele
a VEJA.
Divulgação
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Divulgação/TV Globo
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DA
VIDA PARA A FICÇÃO
O seriado The L Word (à esq.), exibido
pelo canal de TV paga Warner, fala do cotidiano de um grupo
de lésbicas. À direita, Jenifer e Eleonora, o
casal gay da novela Senhora do Destino, da Rede Globo: a audiência
aprovou |
Pesquisas recentes têm revelado
mudanças importantes na maneira como os jovens vivenciam
a própria sexualidade. Um levantamento recém-concluído
com 10.260 homossexuais brasileiros mostra que hoje eles se assumem
mais e mais cedo. Realizado por meio da internet pelo DataGLS, o
censo mostra que 73% dos gays entrevistados se assumiram antes dos
24 anos. Ritch Savin-Williams apresenta dados ainda mais espantosos
sobre os Estados Unidos. Ele revisou mais de uma dezena de estudos
que demonstram que a idade média em que as pessoas se dão
conta de desejos homossexuais (ou os assumem para si mesmas) caiu
nas últimas décadas. Ela era de 14 anos para meninos
e 17 anos para meninas, na década de 60. Nos anos 90, passou
a ser de apenas 10 anos para garotos e 12 para garotas.
Neste ano, a MTV brasileira patrocinou
uma pesquisa sobre o universo jovem que também traz informações
curiosas. Dos 2.359 moradores de sete capitais brasileiras com idade
entre 15 e 30 anos ouvidos durante a enquete, 40% disseram se incomodar
com a visão de dois homens se beijando. Caso sejam duas mulheres,
o índice é de 31%. São números consideráveis,
mas não expressam uma maioria. A abertura para experimentações
tornou-se um traço marcante do comportamento jovem
e aí se incluem tanto a experimentação heterossexual,
como no hábito de ficar com diversas pessoas durante uma
balada, quanto a homossexual. Uma das teses levantadas pela pesquisa
da MTV é a de que existe um aumento da tolerância,
mesmo que não da aceitação, relativamente aos
gays. Outros entrevistados chegaram a cogitar até mesmo da
existência de uma "moda" em torno do comportamento gay ou,
ao menos, ambíguo. "Antigamente você podia até
ter vontade, mas não chegava a fazer. O que acontece agora
é que há muita abertura para experiências",
disse uma jovem de classe média de Salvador. Transformações
marcantes seriam visíveis entre as meninas. Garotas de 13
a 17 anos, por exemplo, têm "testado" com freqüência
o beijo entre amigas. Como observam os psicólogos
inclusive para tranqüilizar pais preocupados , essa atitude
não significa que as meninas sejam ou venham a ser necessariamente
lésbicas. Beijar uma amiga é mais um indício
de liberdade, de ausência de preconceitos e do desejo de não
se deixar capturar por nenhum rótulo.
"As mudanças em direção
a uma maior aceitação da diversidade estão
em andamento. Não há volta para isso", diz Savin-Williams.
Segundo ele, as atitudes negativas em relação à
homossexualidade ainda terão eco por bastante tempo, mas
são contrabalançadas pela percepção
de que é cada vez mais custoso e fútil manter de pé
velhas barreiras. Ana Carolina é ícone de uma geração
que está deixando para trás o peso de um preconceito
ancestral. Obviamente, constatar isso, e compreender essa nova visão
naturalizada da sexualidade, não equivale a incentivar nem
muito menos a convidar todos a uma vida gay. Como diria o intelectual
brasileiro Roberto Campos, parodiando os lordes ingleses: "Agora
que tornamos a homossexualidade aceitável, não precisamos
dar o último passo e torná-la obrigatória".
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