Edição 1936 . 21 de dezembro de 2005

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Internacional
Não é só uma briga de praia

Pancadaria na Austrália expõe tensão étnica
que o terrorismo islâmico fez aumentar


Diogo Schelp

 
AFP
Ação e reação: jovem de origem árabe é agredido em Sydney. Abaixo, igreja incendiada em retaliação árabe

Scott Webster/AFP

Na Praia de Cronulla, em Sydney, na Austrália, há uma escultura e uma placa em memória de sete moradoras do bairro mortas pelas bombas que destruíram dois bares no balneário de Bali, na Indonésia, em 2002. Elas estavam entre os 88 turistas australianos que morreram naquele atentado cometido por terroristas islâmicos ligados à Al Qaeda, de Osama bin Laden. O memorial aos mortos de Bali fica na mesma praia que serviu, na semana passada, de cenário para o confronto entre australianos de origem européia e descendentes de imigrantes árabes. Em três dias de pancadaria, houve dezenas de feridos, carros destruídos e uma igreja queimada. É difícil dizer quem deu o primeiro soco, mas o episódio que acendeu o conflito atual foi a surra aplicada em dois salva-vidas na mesma praia, duas semanas atrás, por um grupo de descendentes de libaneses, depois de um bate-boca temperado com insultos raciais. No domingo 11, por volta de 3.000 jovens australianos – muitos deles bêbados, enrolados na bandeira nacional e vestidos com camisetas com lemas xenófobos – se reuniram em Cronulla dispostos a expulsar da praia qualquer pessoa que julgassem ter aparência árabe. No dia da vingança, a polícia australiana disse que evitou que dois linchamentos terminassem em morte. Jovens árabes revidaram nos dias seguintes com atos de vandalismo em outras três regiões de Sydney.

As praias da cidade têm uma longa história de violência por parte de gangues de surfistas que querem defender suas ondas e seu território de visitantes de fora, em especial freqüentadores de fim de semana vindos dos bairros mais pobres. A novidade nos acontecimentos da semana passada está em seu componente de intolerância étnica e religiosa. Dois fatores contribuíram para as tensões que levaram ao quebra-quebra de Cronulla: o primeiro é a falta de integração de muitos filhos de imigrantes à sociedade australiana. O segundo é o terrorismo islâmico, que fez crescer a desconfiança que boa parte da população do país tem em relação aos árabes e muçulmanos. Estima-se em 500.000 a população de ascendência árabe em Sydney, o que representa 12% do total de moradores. A maioria, seis em cada dez, é de libaneses cristãos, cujos pais e avós emigraram no início do século passado e não tiveram dificuldade para se integrar cultural e economicamente ao novo país. O restante chegou à Austrália nas décadas de 60 e 70, muitas vezes fugindo da guerra civil libanesa. Essa leva de imigrantes, em que predominavam muçulmanos e trabalhadores pouco qualificados, teve o azar de se estabelecer na Austrália em uma época de declínio do setor industrial. "Eles se tornaram eternos desempregados e vítimas de uma exclusão social, herdada por seus filhos, que acabou criando uma subclasse árabe no país", disse a VEJA o cientista político Ghassan Hage, libanês que ensina na Universidade de Sydney.

À semelhança dos jovens dos subúrbios de Paris, responsáveis pelos atos de vandalismo há dois meses, muitos filhos de libaneses na Austrália sentem-se deslocados socialmente, divididos entre a identidade australiana e a cultura de seus pais. Essa situação deu origem a gangues de descendentes árabes nos subúrbios de Sydney que costumam se comportar agressivamente com a população de origem européia. A hostilidade tem mão dupla e, do lado dos australianos de outras origens, agravou-se desde os atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. O governo australiano uniu-se ao americano na guerra ao terror no Afeganistão e no Iraque, o que leva a população a temer ataques terroristas em seu próprio território. A confirmação desse temor veio no mês passado, quando a polícia prendeu em Sydney e Melbourne dezoito suspeitos de planejar um atentado na Austrália. "Mas foi o ataque a bomba de Bali que mais mal causou à imagem de muçulmanos e árabes entre os australianos", declarou a VEJA o antropólogo americano Joel Kahn, da Universidade La Trobe, na Austrália. Diz Kahn: "O preconceito em relação a quem tem aparência árabe pode ser percebido até em pessoas que se definem como liberais e tolerantes". A Austrália, por ter sido colonizada tarde, a partir do século XVIII, é um país de imigrantes e se orgulha de ser uma sociedade multicultural. Destruir valores como esse, despertando desconfianças entre grupos religiosos e étnicos diferentes, é justamente um dos objetivos do terrorismo islâmico.

 
 
 
 
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