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Internacional Não
é só uma briga de praia
Pancadaria na Austrália
expõe tensão étnica
que
o terrorismo islâmico fez aumentar  Diogo
Schelp
AFP
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| Ação e reação:
jovem de origem árabe é agredido em Sydney. Abaixo,
igreja incendiada em retaliação árabe |
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Scott Webster/AFP
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Na
Praia de Cronulla, em Sydney, na Austrália, há uma escultura e uma
placa em memória de sete moradoras do bairro mortas pelas bombas que destruíram
dois bares no balneário de Bali, na Indonésia, em 2002. Elas estavam
entre os 88 turistas australianos que morreram naquele atentado cometido por terroristas
islâmicos ligados à Al Qaeda, de Osama bin Laden. O memorial aos
mortos de Bali fica na mesma praia que serviu, na semana passada, de cenário
para o confronto entre australianos de origem européia e descendentes de
imigrantes árabes. Em três dias de pancadaria, houve dezenas de feridos,
carros destruídos e uma igreja queimada. É difícil dizer
quem deu o primeiro soco, mas o episódio que acendeu o conflito atual foi
a surra aplicada em dois salva-vidas na mesma praia, duas semanas atrás,
por um grupo de descendentes de libaneses, depois de um bate-boca temperado com
insultos raciais. No domingo 11, por volta de 3.000 jovens australianos
muitos deles bêbados, enrolados na bandeira nacional e vestidos com camisetas
com lemas xenófobos se reuniram em Cronulla dispostos a expulsar
da praia qualquer pessoa que julgassem ter aparência árabe. No dia
da vingança, a polícia australiana disse que evitou que dois linchamentos
terminassem em morte. Jovens árabes revidaram nos dias seguintes com atos
de vandalismo em outras três regiões de Sydney.
As praias da cidade têm uma longa história de violência por
parte de gangues de surfistas que querem defender suas ondas e seu território
de visitantes de fora, em especial freqüentadores de fim de semana vindos
dos bairros mais pobres. A novidade nos acontecimentos da semana passada está
em seu componente de intolerância étnica e religiosa. Dois fatores
contribuíram para as tensões que levaram ao quebra-quebra de Cronulla:
o primeiro é a falta de integração de muitos filhos de imigrantes
à sociedade australiana. O segundo é o terrorismo islâmico,
que fez crescer a desconfiança que boa parte da população
do país tem em relação aos árabes e muçulmanos.
Estima-se em 500.000 a população de ascendência árabe
em Sydney, o que representa 12% do total de moradores. A maioria, seis em cada
dez, é de libaneses cristãos, cujos pais e avós emigraram
no início do século passado e não tiveram dificuldade para
se integrar cultural e economicamente ao novo país. O restante chegou à
Austrália nas décadas de 60 e 70, muitas vezes fugindo da guerra
civil libanesa. Essa leva de imigrantes, em que predominavam muçulmanos
e trabalhadores pouco qualificados, teve o azar de se estabelecer na Austrália
em uma época de declínio do setor industrial. "Eles se tornaram
eternos desempregados e vítimas de uma exclusão social, herdada
por seus filhos, que acabou criando uma subclasse árabe no país",
disse a VEJA o cientista político Ghassan Hage, libanês que ensina
na Universidade de Sydney. À
semelhança dos jovens dos subúrbios de Paris, responsáveis
pelos atos de vandalismo há dois meses, muitos filhos de libaneses na Austrália
sentem-se deslocados socialmente, divididos entre a identidade australiana e a
cultura de seus pais. Essa situação deu origem a gangues de descendentes
árabes nos subúrbios de Sydney que costumam se comportar agressivamente
com a população de origem européia. A hostilidade tem mão
dupla e, do lado dos australianos de outras origens, agravou-se desde os atentados
de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. O governo australiano uniu-se ao
americano na guerra ao terror no Afeganistão e no Iraque, o que leva a
população a temer ataques terroristas em seu próprio território.
A confirmação desse temor veio no mês passado, quando a polícia
prendeu em Sydney e Melbourne dezoito suspeitos de planejar um atentado na Austrália.
"Mas foi o ataque a bomba de Bali que mais mal causou à imagem de muçulmanos
e árabes entre os australianos", declarou a VEJA o antropólogo americano
Joel Kahn, da Universidade La Trobe, na Austrália. Diz Kahn: "O preconceito
em relação a quem tem aparência árabe pode ser percebido
até em pessoas que se definem como liberais e tolerantes". A Austrália,
por ter sido colonizada tarde, a partir do século XVIII, é um país
de imigrantes e se orgulha de ser uma sociedade multicultural. Destruir valores
como esse, despertando desconfianças entre grupos religiosos e étnicos
diferentes, é justamente um dos objetivos do terrorismo islâmico. |