Edição 1936 . 21 de dezembro de 2005

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Internacional
Para onde vai o Iraque?

A eleição correu bem e a participação
dos sunitas foi positiva. Agora, abrem-se
três hipóteses para o futuro: a média,
a ruim e a péssima


Vilma Gryzinski


Ben Curtis
Hasan Sarbakhshian/AP
Soldados iraquianos festejam a eleição e seus líderes religiosos: americanos entregaram o poder de bandeja aos xiitas

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Em profundidade: A Era Sadam Hussein

Nenhum assunto provocou tantas e tão amargas divisões no mundo nos últimos anos quanto a invasão e ocupação do Iraque. De um lado, ficaram o establishment americano, a maioria (agora cambiante) da opinião pública dos Estados Unidos e um punhado dos governos aliados, em geral contrariando as tendências de suas próprias populações. Do outro, praticamente todo o resto do mundo. Agora que a invasão está completando uma data redonda – 1.000 dias – e o Iraque acabou de sair da eleição que deverá lhe dar um governo permanente, já dá para fazer um balanço objetivo dessa estranha guerra? Deixando-se as paixões, contra e a favor, de lado, é possível que só existam dois critérios para avaliar a invasão. Do ponto de vista dos iraquianos, é determinar se sua vida está melhor hoje do que na época do regime de Saddam Hussein. Para os americanos, o julgamento final deve preencher primordialmente um único e vital requisito: estão mais seguros, ou menos expostos à fúria do terrorismo fundamentalista, do que antes da guerra?

A questão mais fácil de responder, apesar das imensas complexidades que a situação envolve, é a primeira. Com a palavra, os iraquianos. Numa pesquisa encomendada por um grupo de mídia e divulgada na semana passada, menos da metade – 44% – disse que o país está melhor agora do que antes da guerra. Em compensação, 69% declararam ter expectativas otimistas para o futuro. Ou seja, se não estão melhor agora, esperam ficar em breve. Como isso é possível num país ocupado por exércitos estrangeiros, onde 30.000 civis inocentes foram mortos em ações militares desde a invasão – o número foi admitido pelo presidente George W. Bush na semana passada – e os atentados suicidas dos grupos insurgentes produzem pilhas de vítimas destroçadas todos os dias?

A explicação está na reviravolta produzida pela guerra entre os grupos étnico-religiosos do Iraque. Ao derrubar a tirania sanguinária de Saddam, a intervenção americana levou junto a preponderância dos muçulmanos sunitas, que são apenas 20% da população. Os curdos, etnia não-árabe que vive no norte do país, são também 20% e foram os mais beneficiados: já eram protegidos pelos americanos antes da invasão; depois conquistaram autonomia maior ainda. A grande virada de mesa, por fim, favoreceu a maioria xiita – 60% da população. Desde sempre relegados a posições subalternas, quando não perseguidos ou submetidos a atrocidades de praxe, ganharam um poder de decisão sem precedentes. A superioridade numérica deve se refletir numa maioria xiita tanto no novo Parlamento quanto no executivo. É justo e democrático que assim seja – embora ainda falte muito para a plena absorção do conceito de que democracia é produto tanto dos desejos da maioria quanto das garantias aos direitos das minorias.

A ascensão xiita também alimenta enormes dúvidas sobre que rumo tomará o Iraque quando a situação se estabilizar o suficiente para que as tropas americanas dêem o trabalho por cumprido e batam em retirada. Três hipóteses parecem mais prováveis: a média, a ruim e a péssima. A primeira seria uma evolução da situação atual: as tensões internas são administradas e a minoria sunita, que desistiu do boicote e votou em massa na eleição da semana passada, sente-se suficientemente representada para diminuir o apoio aos insurgentes nacionalistas. Os radicais fundamentalistas prosseguem com a barbárie dos atentados e têm como retribuição as gentilezas de hábito (prisão, tortura, execução), mas não prosperam simplesmente porque a correlação de forças lhes é desfavorável. O Iraque fica mais religioso (com as mulheres mais cobertas ainda) e pende, por identificação natural entre os semelhantes, para o lado dos irmãos xiitas do Irã, mantendo porém um rumo próprio. A escola de terror criada por Abu Musab al-Zarqawi e outros fundamentalistas dá frutos além-fronteiras, mas sem resultados espetaculares.

Na hipótese ruim, as divisões internas se agravam, o país fica gravemente fraturado e os xiitas se amalgamam cada vez mais com o Irã – o qual, recorde-se, desenvolve um programa nuclear suspeitíssimo e tem na Presidência um fanático religioso, Mahmoud Ahmadinejad, que nas últimas semanas tem se dedicado a despejar insanidades assustadoras (Israel deveria ser "varrido do mapa" ou "transferido para o Alasca"). Países vizinhos, já aflitos com a ameaça do que chamam de arco xiita – Irã, Iraque, sul do Líbano –, seguem a mais imutável das leis da região: o inimigo de meu inimigo é meu amigo. Começam a facilitar as coisas, ou apoiar diretamente o terror fundamentalista de Zarqawi e companhia. O que já era ruim piora mais ainda se Israel atacar o Irã para pulverizar suas instalações nucleares. O mundo xiita entra em surto. No Iraque, esvaem-se os resquícios de simpatia que restam pelos americanos, que entregaram o poder de bandeja aos xiitas mas continuam a ser vistos como inimigos infiéis. O Irã faz no país vizinho o que já fez com os xiitas libaneses: treina, arma e radicaliza um exército disposto a tudo. Em virtude de outra lei, a das conseqüências não previstas, os Estados Unidos acabam com dois inimigos mortais, os sunitas identificados com a Al Qaeda e os xiitas de inspiração iraniana. Como se vê, a resposta à segunda pergunta – a invasão do Iraque deixou os americanos mais seguros? – ainda depende de uma enormidade de variáveis.

 

MAIS UMA VÍTIMA DA MÁQUINA MORTÍFERA

Mahmoud/Tawil/AP
O enterro de Tueini: coragem, oposição e morte


"Estamos vivendo dias muito interessantes", disse Jibran Tueini a VEJA em março último. Dono e diretor do jornal libanês An-Nahar – "o mais independente do mundo árabe" –, um dínamo de energia e autoconfiança, Tueini tinha razão. Nos dias que se seguiram à entrevista, o que parecia impossível aconteceu: a Síria, pioneiramente fustigada por ele, retirou as tropas que durante trinta anos mantiveram o Líbano na condição de protetorado. Pouco depois, Tueini foi eleito deputado por Ashrafieh, tradicional e elegante distrito cristão de Beirute. Mesmo assim, as reviravoltas que apontavam para um sistema realmente democrático e independente foram inconclusas e dolorosas. As intrigas e ambigüidades da política libanesa reafloraram a plena força; a ocupação síria acabou, mas deixou para trás uma indestrutível máquina mortífera. A essa rede de alianças com os serviços secretos locais se creditou o ressurgimento de uma maldição originalmente libanesa: os atentados com carros-bomba. Foram doze, desde a retirada das tropas estrangeiras, visando sempre a figuras de destaque no movimento nacionalista. O próprio Tueini carregou, crispado de dor e indignação, o caixão de seu principal editorialista, Samir Kassir. Intimidado por ameaças de morte, passou um tempo em Paris. Voltou no domingo passado. Na segunda-feira, a caminho do jornal, seu Range Rover blindado foi atingido por 40 quilos de explosivos, voou pelos ares, em chamas, e caiu 100 metros morro abaixo. À volta espalharam-se pedaços dos corpos indescritivelmente mutilados de Tueini, o motorista, um segurança e um amigo que o acompanhava.

O assassinato do dono do An-Nahar foi o mais chocante desde o atentado que mudou tudo no Líbano – o que matou, em fevereiro, o ex-primeiro-ministro Rafik Hariri. A reação popular sem precedentes e a pressão internacional desencadeadas na época forçaram o recuo da Síria e as mudanças políticas internas. "Esperamos trinta anos para erguer a cabeça e dizer não", comentou Tueini, sentado em seu magnífico escritório, no centro de Beirute, de onde comandava o jornal fundado por seu avô e desfechava editoriais demolidores contra a intervenção síria. Confrontado com o argumento usado pela parte contrária para negar a participação síria na morte de Hariri – seria uma burrice tremenda e só prejudicaria os interesses de Damasco –, ele riu: "Faz parte da natureza dessa gente cometer erros assim". O inacreditável é que, mesmo sob investigação internacional – o representante da ONU já listou dezenove sírios suspeitos de envolvimento no atentado contra Hariri –, os "erros", hediondos em sua brutalidade e mais estúpidos do que nunca, continuem se repetindo. O último custou a vida de um homem de enorme coragem e paixão por seu país. Até quando?

 
 
 
 
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