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Internacional
Para onde vai o Iraque? A
eleição correu bem e a participação dos sunitas
foi positiva. Agora, abrem-se três hipóteses para o futuro: a
média, a ruim e a péssima 
Vilma Gryzinski
Ben Curtis  | Hasan
Sarbakhshian/AP  |
| Soldados iraquianos festejam a eleição
e seus líderes religiosos: americanos entregaram o poder de bandeja aos
xiitas |
Nenhum assunto
provocou tantas e tão amargas divisões no mundo nos últimos
anos quanto a invasão e ocupação do Iraque. De um lado, ficaram
o establishment americano, a maioria (agora cambiante) da opinião pública
dos Estados Unidos e um punhado dos governos aliados, em geral contrariando as
tendências de suas próprias populações. Do outro, praticamente
todo o resto do mundo. Agora que a invasão está completando uma
data redonda 1.000 dias e o Iraque acabou de sair da eleição
que deverá lhe dar um governo permanente, já dá para fazer
um balanço objetivo dessa estranha guerra? Deixando-se as paixões,
contra e a favor, de lado, é possível que só existam dois
critérios para avaliar a invasão. Do ponto de vista dos iraquianos,
é determinar se sua vida está melhor hoje do que na época
do regime de Saddam Hussein. Para os americanos, o julgamento final deve preencher
primordialmente um único e vital requisito: estão mais seguros,
ou menos expostos à fúria do terrorismo fundamentalista, do que
antes da guerra? A questão
mais fácil de responder, apesar das imensas complexidades que a situação
envolve, é a primeira. Com a palavra, os iraquianos. Numa pesquisa encomendada
por um grupo de mídia e divulgada na semana passada, menos da metade
44% disse que o país está melhor agora do que antes da guerra.
Em compensação, 69% declararam ter expectativas otimistas para o
futuro. Ou seja, se não estão melhor agora, esperam ficar em breve.
Como isso é possível num país ocupado por exércitos
estrangeiros, onde 30.000 civis inocentes foram mortos em ações
militares desde a invasão o número foi admitido pelo presidente
George W. Bush na semana passada e os atentados suicidas dos grupos insurgentes
produzem pilhas de vítimas destroçadas todos os dias?
A explicação está na reviravolta produzida pela guerra entre
os grupos étnico-religiosos do Iraque. Ao derrubar a tirania sanguinária
de Saddam, a intervenção americana levou junto a preponderância
dos muçulmanos sunitas, que são apenas 20% da população.
Os curdos, etnia não-árabe que vive no norte do país, são
também 20% e foram os mais beneficiados: já eram protegidos pelos
americanos antes da invasão; depois conquistaram autonomia maior ainda.
A grande virada de mesa, por fim, favoreceu a maioria xiita 60% da população.
Desde sempre relegados a posições subalternas, quando não
perseguidos ou submetidos a atrocidades de praxe, ganharam um poder de decisão
sem precedentes. A superioridade numérica deve se refletir numa maioria
xiita tanto no novo Parlamento quanto no executivo. É justo e democrático
que assim seja embora ainda falte muito para a plena absorção
do conceito de que democracia é produto tanto dos desejos da maioria quanto
das garantias aos direitos das minorias.
A ascensão xiita também alimenta enormes dúvidas sobre que
rumo tomará o Iraque quando a situação se estabilizar o suficiente
para que as tropas americanas dêem o trabalho por cumprido e batam em retirada.
Três hipóteses parecem mais prováveis: a média, a ruim
e a péssima. A primeira seria uma evolução da situação
atual: as tensões internas são administradas e a minoria sunita,
que desistiu do boicote e votou em massa na eleição da semana passada,
sente-se suficientemente representada para diminuir o apoio aos insurgentes nacionalistas.
Os radicais fundamentalistas prosseguem com a barbárie dos atentados e
têm como retribuição as gentilezas de hábito (prisão,
tortura, execução), mas não prosperam simplesmente porque
a correlação de forças lhes é desfavorável.
O Iraque fica mais religioso (com as mulheres mais cobertas ainda) e pende, por
identificação natural entre os semelhantes, para o lado dos irmãos
xiitas do Irã, mantendo porém um rumo próprio. A escola de
terror criada por Abu Musab al-Zarqawi e outros fundamentalistas dá frutos
além-fronteiras, mas sem resultados espetaculares.
Na hipótese ruim, as divisões internas se agravam, o país
fica gravemente fraturado e os xiitas se amalgamam cada vez mais com o Irã
o qual, recorde-se, desenvolve um programa nuclear suspeitíssimo
e tem na Presidência um fanático religioso, Mahmoud Ahmadinejad,
que nas últimas semanas tem se dedicado a despejar insanidades assustadoras
(Israel deveria ser "varrido do mapa" ou "transferido para o Alasca"). Países
vizinhos, já aflitos com a ameaça do que chamam de arco xiita
Irã, Iraque, sul do Líbano , seguem a mais imutável
das leis da região: o inimigo de meu inimigo é meu amigo. Começam
a facilitar as coisas, ou apoiar diretamente o terror fundamentalista de Zarqawi
e companhia. O que já era ruim piora mais ainda se Israel atacar o Irã
para pulverizar suas instalações nucleares. O mundo xiita entra
em surto. No Iraque, esvaem-se os resquícios de simpatia que restam pelos
americanos, que entregaram o poder de bandeja aos xiitas mas continuam a ser vistos
como inimigos infiéis. O Irã faz no país vizinho o que já
fez com os xiitas libaneses: treina, arma e radicaliza um exército disposto
a tudo. Em virtude de outra lei, a das conseqüências não previstas,
os Estados Unidos acabam com dois inimigos mortais, os sunitas identificados com
a Al Qaeda e os xiitas de inspiração iraniana. Como se vê,
a resposta à segunda pergunta a invasão do Iraque deixou
os americanos mais seguros? ainda depende de uma enormidade de variáveis.
| MAIS UMA VÍTIMA DA MÁQUINA
MORTÍFERA
Mahmoud/Tawil/AP  |
| O enterro de Tueini: coragem, oposição
e morte | "Estamos vivendo
dias muito interessantes", disse Jibran Tueini a VEJA em março último.
Dono e diretor do jornal libanês An-Nahar "o mais independente
do mundo árabe" , um dínamo de energia e autoconfiança,
Tueini tinha razão. Nos dias que se seguiram à entrevista, o que
parecia impossível aconteceu: a Síria, pioneiramente fustigada por
ele, retirou as tropas que durante trinta anos mantiveram o Líbano na condição
de protetorado. Pouco depois, Tueini foi eleito deputado por Ashrafieh, tradicional
e elegante distrito cristão de Beirute. Mesmo assim, as reviravoltas que
apontavam para um sistema realmente democrático e independente foram inconclusas
e dolorosas. As intrigas e ambigüidades da política libanesa reafloraram
a plena força; a ocupação síria acabou, mas deixou
para trás uma indestrutível máquina mortífera. A essa
rede de alianças com os serviços secretos locais se creditou o ressurgimento
de uma maldição originalmente libanesa: os atentados com carros-bomba.
Foram doze, desde a retirada das tropas estrangeiras, visando sempre a figuras
de destaque no movimento nacionalista. O próprio Tueini carregou, crispado
de dor e indignação, o caixão de seu principal editorialista,
Samir Kassir. Intimidado por ameaças de morte, passou um tempo em Paris.
Voltou no domingo passado. Na segunda-feira, a caminho do jornal, seu Range Rover
blindado foi atingido por 40 quilos de explosivos, voou pelos ares, em chamas,
e caiu 100 metros morro abaixo. À volta espalharam-se pedaços dos
corpos indescritivelmente mutilados de Tueini, o motorista, um segurança
e um amigo que o acompanhava.
O assassinato
do dono do An-Nahar foi o mais chocante desde o atentado que mudou tudo
no Líbano o que matou, em fevereiro, o ex-primeiro-ministro Rafik
Hariri. A reação popular sem precedentes e a pressão internacional
desencadeadas na época forçaram o recuo da Síria e as mudanças
políticas internas. "Esperamos trinta anos para erguer a cabeça
e dizer não", comentou Tueini, sentado em seu magnífico escritório,
no centro de Beirute, de onde comandava o jornal fundado por seu avô e desfechava
editoriais demolidores contra a intervenção síria. Confrontado
com o argumento usado pela parte contrária para negar a participação
síria na morte de Hariri seria uma burrice tremenda e só
prejudicaria os interesses de Damasco , ele riu: "Faz parte da natureza
dessa gente cometer erros assim". O inacreditável é que, mesmo sob
investigação internacional o representante da ONU já
listou dezenove sírios suspeitos de envolvimento no atentado contra Hariri
, os "erros", hediondos em sua brutalidade e mais estúpidos do que
nunca, continuem se repetindo. O último custou a vida de um homem de enorme
coragem e paixão por seu país. Até quando? |
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