Edição 1936 . 21 de dezembro de 2005

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Religião
Os mitérios que vêm
do século I

A história do Novo Testamento mostra
por que sua interpretação depende da
fé de cada um


Okky de Souza



Álbum
O TRADUTOR
São Jerônimo aprendeu hebraico para traduzir a Bíblia do original

Quando o anjo Gabriel apareceu diante de Maria, uma jovem da Galiléia prometida em casamento a José, ela ficou assustada. "Alegre-se, cheia de graça!", disse o enviado dos Céus. Em silêncio constrito, Maria se perguntou o que aquela saudação significava. "Você ficará grávida e terá um filho, que será chamado Filho de Deus", informou o anjo. "E como isso vai acontecer, se não vivo com nenhum homem?", perguntou Maria. O anjo Gabriel respondeu: "O Espírito Santo virá sobre você". Nove meses depois, Maria dava à luz Jesus, o salvador, que em breves 33 anos de vida se transformaria no personagem mais influente – e também o mais enigmático – da história da humanidade. Desde o século IV, por determinação do papa Júlio I, os cristãos comemoram o nascimento de Jesus no dia 25 de dezembro, na festa do Natal. Há igual período de tempo se discute a natureza do Novo Testamento, a parte da Bíblia que trata da passagem do Cristo pela Terra. O Novo Testamento é praticamente a única fonte histórica sobre os primórdios do cristianismo. Mas até que ponto se pode confiar em seus relatos? Os 27 livros que o compõem foram escritos por apóstolos e discípulos de Jesus. São textos movidos pela fé e dirigidos às pessoas de fé, destinados muito mais a convencer os leitores da natureza divina de Jesus do que a simplesmente contar como ele viveu e o que pregava.

William-Aadolphe Bouguereau/Bridgeman/Getty Images
MARIA E JESUS
Os Evangelhos de Lucas e de Mateus dão versões diferentes para a anunciação do nascimento



Para muitos cristãos, passagens do Novo Testamento como a da Anunciação, do Evangelho de São Lucas, descrita acima, relatam os fatos exatamente como eles aconteceram. Sem prejuízo da fé, muitos outros cristãos dizem que é preciso interpretar os textos dos apóstolos, e não tomá-los ao pé da letra. Santo Agostinho, talvez o mais significativo pensador cristão depois de São Paulo, já defendia no século V que o livro do Apocalipse, que trata do juízo final e do fim dos tempos, deveria ser interpretado de forma alegórica, como uma representação do bem e do mal. "É praticamente impossível saber quem de fato foi Jesus tomando como base apenas os Evangelhos porque eles foram escritos de acordo com a visão de seus autores sobre os acontecimentos", diz o historiador americano Luke Timothy Johnson, autor do livro Os Textos do Novo Testamento. "Faz parte da natureza humana se surpreender com determinada experiência e elevá-la à dimensão do fantástico", ele completa. Caso se faça uma leitura literal dos Evangelhos, será possível deparar com várias contradições entre eles. Na versão do apóstolo Mateus para a Anunciação, quem recebe a visita do anjo é José, o noivo, e não Maria, a virgem. "Não temas receber Maria em tua casa. O que foi gerado nela provém do Espírito Santo", diz-lhe o anjo.

As obras que compõem o Novo Testamento começaram a ser escritas quinze anos após a morte de Jesus. As comunidades cristãs passaram a crescer de forma significativa e era preciso manter uma comunicação com as mais distantes delas. Surgiram assim as epístolas, ou cartas, como as de Paulo e de Pedro. "Os discípulos que conheceram Jesus pessoalmente estavam envelhecendo e precisavam registrar para a posteridade os ensinamentos de seu mestre", diz o teólogo Antônio Quirino de Oliveira, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. "Assim surgiram os Evangelhos", ele informa. A maior preocupação dos primeiros cristãos era preservar a unidade da Igreja. Para isso, era preciso que o cristianismo ganhasse força com base nos ensinamentos de Jesus. Os relatos sobre ele deveriam enfatizar apenas a sua santidade durante a vida, a morte e a ressurreição. Entre os séculos I e II foram escritas dezenas de textos que contavam a história de Jesus sob os mais diferentes aspectos. Alguns o descreviam como um mágico que espantava as pessoas. Outros, como um homem comum que tinha poderes sobrenaturais.

Muitos manuscritos afirmavam que Jesus era o precursor do gnosticismo, movimento que defendia a salvação por meio do conhecimento não apenas espiritual, mas também intelectual. O gnosticismo ganhava popularidade e novos adeptos a cada dia, ameaçando a soberania dos primeiros papas. Era preciso agir de forma rápida e eficaz para frear a expansão desse movimento. Em 180, o bispo Irineu de Lyon escreveu um tratado chamado Contra a Heresia, condenando o gnosticismo e ressaltando que apenas os quatro Evangelhos – de Marcos, Mateus, Lucas e João – eram reconhecidos pela Igreja. No século V, o papa Gelásio I assinou um documento com uma lista de sessenta livros que deveriam ser evitados pelos cristãos. Alguns desses textos foram encontrados nos tempos modernos, em escavações arqueológicas, e ficaram conhecidos como os Evangelhos apócrifos.

O Novo Testamento foi escrito em grego. Na época do nascimento de Jesus e nos séculos seguintes, esse era o idioma mais falado na parte oriental do Império Romano, provavelmente até pelos apóstolos. À medida que o cristianismo foi se espalhando, começaram a surgir versões dos Evangelhos e das epístolas em latim. No século IV, eram tantas e tão díspares as traduções para o latim que a Igreja precisou tomar providências para impedir que o sentido original dos textos dos apóstolos se desvirtuasse. Foi quando o papa Dâmaso I convocou os serviços do monge Eusebius Sophronius, futuro São Jerônimo, uma das personalidades mais cultas de sua época. São Jerônimo fez a primeira tradução oficial do Novo e do Velho Testamento para o latim, batizada de Vulgata. O Concílio de Trento, realizado em 1546, consolidou a Vulgata como a versão definitiva da Bíblia. Até hoje ela permanece como a Bíblia oficial da Igreja Católica.

São Jerônimo, um homem de curiosidade intelectual extraordinária, protagonizou um outro feito. Na época, todas as traduções para o latim do Antigo Testamento, escrito originalmente em hebraico, eram feitas a partir de traduções dos textos para o grego. Para preparar a sua tradução do Velho Testamento direto do original, São Jerônimo aprendeu hebraico. São Jerônimo deu ao Novo Testamento sua versão definitiva, mas seu significado seria substancialmente enriquecido pelas idéias de Santo Agostinho. Coube a ele estabelecer as bases da doutrina cristã, explicando os mistérios da Santíssima Trindade e fundamentando conceitos como virtude, pecado e perdão. Os dois santos fundaram as bases da Igreja Católica tal como os cristãos de hoje a conhecem. Quanto à interpretação dos fatos narrados na Bíblia, esta continua a ser uma questão que cada um resolve de acordo com sua fé.

Com reportagem de Rosana Zakabi,
Tiago Cordeiro e Rafael Corrêa

 
 
 
 
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