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Religião
Os mitérios que vêm do século
I A história do Novo Testamento
mostra por que sua interpretação depende da fé de
cada um  Okky
de Souza
Álbum
 | O
TRADUTOR São Jerônimo aprendeu hebraico
para traduzir a Bíblia do original |
Quando
o anjo Gabriel apareceu diante de Maria, uma jovem da Galiléia prometida
em casamento a José, ela ficou assustada. "Alegre-se, cheia de graça!",
disse o enviado dos Céus. Em silêncio constrito, Maria se perguntou
o que aquela saudação significava. "Você ficará grávida
e terá um filho, que será chamado Filho de Deus", informou o anjo.
"E como isso vai acontecer, se não vivo com nenhum homem?", perguntou Maria.
O anjo Gabriel respondeu: "O Espírito Santo virá sobre você".
Nove meses depois, Maria dava à luz Jesus, o salvador, que em breves 33
anos de vida se transformaria no personagem mais influente e também
o mais enigmático da história da humanidade. Desde o século
IV, por determinação do papa Júlio I, os cristãos
comemoram o nascimento de Jesus no dia 25 de dezembro, na festa do Natal. Há
igual período de tempo se discute a natureza do Novo Testamento, a parte
da Bíblia que trata da passagem do Cristo pela Terra. O Novo Testamento
é praticamente a única fonte histórica sobre os primórdios
do cristianismo. Mas até que ponto se pode confiar em seus relatos? Os
27 livros que o compõem foram escritos por apóstolos e discípulos
de Jesus. São textos movidos pela fé e dirigidos às pessoas
de fé, destinados muito mais a convencer os leitores da natureza divina
de Jesus do que a simplesmente contar como ele viveu e o que pregava.
William-Aadolphe
Bouguereau/Bridgeman/Getty Images
 | MARIA
E JESUS Os Evangelhos de Lucas e de Mateus dão
versões diferentes para a anunciação do nascimento |
Para
muitos cristãos, passagens do Novo Testamento como a da Anunciação,
do Evangelho de São Lucas, descrita acima, relatam os fatos exatamente
como eles aconteceram. Sem prejuízo da fé, muitos outros cristãos
dizem que é preciso interpretar os textos dos apóstolos, e não
tomá-los ao pé da letra. Santo Agostinho, talvez o mais significativo
pensador cristão depois de São Paulo, já defendia no século
V que o livro do Apocalipse, que trata do juízo final e do fim dos tempos,
deveria ser interpretado de forma alegórica, como uma representação
do bem e do mal. "É praticamente impossível saber quem de fato foi
Jesus tomando como base apenas os Evangelhos porque eles foram escritos de acordo
com a visão de seus autores sobre os acontecimentos", diz o historiador
americano Luke Timothy Johnson, autor do livro Os Textos do Novo Testamento.
"Faz parte da natureza humana se surpreender com determinada experiência
e elevá-la à dimensão do fantástico", ele completa.
Caso se faça uma leitura literal dos Evangelhos, será possível
deparar com várias contradições entre eles. Na versão
do apóstolo Mateus para a Anunciação, quem recebe a visita
do anjo é José, o noivo, e não Maria, a virgem. "Não
temas receber Maria em tua casa. O que foi gerado nela provém do Espírito
Santo", diz-lhe o anjo.
As obras que
compõem o Novo Testamento começaram a ser escritas quinze anos após
a morte de Jesus. As comunidades cristãs passaram a crescer de forma significativa
e era preciso manter uma comunicação com as mais distantes delas.
Surgiram assim as epístolas, ou cartas, como as de Paulo e de Pedro. "Os
discípulos que conheceram Jesus pessoalmente estavam envelhecendo e precisavam
registrar para a posteridade os ensinamentos de seu mestre", diz o teólogo
Antônio Quirino de Oliveira, da Pontifícia Universidade Católica
do Paraná. "Assim surgiram os Evangelhos", ele informa. A maior preocupação
dos primeiros cristãos era preservar a unidade da Igreja. Para isso, era
preciso que o cristianismo ganhasse força com base nos ensinamentos de
Jesus. Os relatos sobre ele deveriam enfatizar apenas a sua santidade durante
a vida, a morte e a ressurreição. Entre os séculos I e II
foram escritas dezenas de textos que contavam a história de Jesus sob os
mais diferentes aspectos. Alguns o descreviam como um mágico que espantava
as pessoas. Outros, como um homem comum que tinha poderes sobrenaturais.
Muitos manuscritos afirmavam que Jesus era o precursor do gnosticismo, movimento
que defendia a salvação por meio do conhecimento não apenas
espiritual, mas também intelectual. O gnosticismo ganhava popularidade
e novos adeptos a cada dia, ameaçando a soberania dos primeiros papas.
Era preciso agir de forma rápida e eficaz para frear a expansão
desse movimento. Em 180, o bispo Irineu de Lyon escreveu um tratado chamado Contra
a Heresia, condenando o gnosticismo e ressaltando que apenas os quatro Evangelhos
de Marcos, Mateus, Lucas e João eram reconhecidos pela Igreja.
No século V, o papa Gelásio I assinou um documento com uma lista
de sessenta livros que deveriam ser evitados pelos cristãos. Alguns desses
textos foram encontrados nos tempos modernos, em escavações arqueológicas,
e ficaram conhecidos como os Evangelhos apócrifos.
O Novo Testamento foi escrito em grego. Na época do nascimento de Jesus
e nos séculos seguintes, esse era o idioma mais falado na parte oriental
do Império Romano, provavelmente até pelos apóstolos. À
medida que o cristianismo foi se espalhando, começaram a surgir versões
dos Evangelhos e das epístolas em latim. No século IV, eram tantas
e tão díspares as traduções para o latim que a Igreja
precisou tomar providências para impedir que o sentido original dos textos
dos apóstolos se desvirtuasse. Foi quando o papa Dâmaso I convocou
os serviços do monge Eusebius Sophronius, futuro São Jerônimo,
uma das personalidades mais cultas de sua época. São Jerônimo
fez a primeira tradução oficial do Novo e do Velho Testamento para
o latim, batizada de Vulgata. O Concílio de Trento, realizado em
1546, consolidou a Vulgata como a versão definitiva da Bíblia.
Até hoje ela permanece como a Bíblia oficial da Igreja Católica.
São Jerônimo, um homem
de curiosidade intelectual extraordinária, protagonizou um outro feito.
Na época, todas as traduções para o latim do Antigo Testamento,
escrito originalmente em hebraico, eram feitas a partir de traduções
dos textos para o grego. Para preparar a sua tradução do Velho Testamento
direto do original, São Jerônimo aprendeu hebraico. São Jerônimo
deu ao Novo Testamento sua versão definitiva, mas seu significado seria
substancialmente enriquecido pelas idéias de Santo Agostinho. Coube a ele
estabelecer as bases da doutrina cristã, explicando os mistérios
da Santíssima Trindade e fundamentando conceitos como virtude, pecado e
perdão. Os dois santos fundaram as bases da Igreja Católica tal
como os cristãos de hoje a conhecem. Quanto à interpretação
dos fatos narrados na Bíblia, esta continua a ser uma questão
que cada um resolve de acordo com sua fé. Com
reportagem de Rosana Zakabi, Tiago Cordeiro
e Rafael Corrêa |