Edição 1936 . 21 de dezembro de 2005

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Realeza
Menininhas coroadas

Monarquia nos tempos modernos:
os herdeiros se casam com plebéias
e serão sucedidos pelas filhas

Pelo andar da carruagem, ainda vai demorar: seus pais, os próximos da fila, ainda estão aguardando a própria vez, e em muitos casos deve demorar um bocado. Mas dia virá em que a maioria dos tronos ainda na ativa no mundo será ocupada por rainhas, em vez de reis. Por enquanto, elas são literalmente uns tocos de gente, rechonchudas princesinhas ainda sem idade para imaginar o futuro que as aguarda. E o futuro pode ser movimentado. No Japão, a princesa Aiko, 4 anos completados no dia 1º de dezembro, já provoca uma involuntária revolução de costumes: como mudar a tradição milenar que não admite, a não ser em emergências e temporariamente (a última foi no século XVIII), mulheres no Trono do Crisântemo. Aiko é a única filha de Naruhito, filho mais velho e herdeiro do imperador Akihito, e assim deverá permanecer, visto que sua mãe, a ex-diplomata Masako, tem 42 anos, dificuldade para engravidar e depressão – esta causada, pelo menos em parte, pela pressão para produzir um filho homem. O outro filho do imperador, Akishino, também só tem duas filhas. A filha Sayako acabou de se casar com um plebeu e perdeu o lugar na linha sucessória.

Diante de tamanha escassez do cromossomo Y, uma comissão indicada pelo governo passou o ano debruçada sobre a questão da sucessão de Naruhito. No fim de novembro, anunciou sua decisão: vai recomendar que mulheres e seus descendentes possam, sim, ascender ao trono. Os termos do projeto de lei serão apresentados ao Parlamento provavelmente em março. O tempo urge: o severo treinamento do pequeno imperador japonês habitualmente começa por volta dos 3 anos. O dilema da casa imperial japonesa é fruto do que o Ocidente batizou de lei sálica, herança da Idade Média que remove mulheres da linha de sucessão e que, na Europa, já caiu em desuso. Na maioria dos países europeus onde a realeza sobrevive, sem poder de verdade mas mantendo a tradição de encarnar valores nacionais profundos, princesas podem virar rainhas. Em alguns, os resquícios do passado sobrevivem na precedência do homem sobre a mulher: a herdeira mais velha leva a coroa apenas se não aparecer um irmão que lhe tome o lugar. É o sistema vigente na Inglaterra, onde no médio prazo não existe o problema: tanto Charles quanto seu filho William são primogênitos. No futuro, porém, a coisa pode mudar. A própria rainha Elizabeth (a mais velha de duas irmãs) já se pronunciou: "Sua Majestade não faz objeção à posição do governo de que, na linha de sucessão ao trono, filhas e filhos sejam tratados da mesma forma". A precedência masculina, chamada de lei semi-sálica, está com os dias contados na Espanha. Em 31 de outubro passado nasceu a infanta Leonor, primeira filha do herdeiro Felipe com a ex-jornalista Letizia. Pela Constituição atual, Leonor herda, mas só leva se não tiver irmãos (o próprio Felipe tem duas irmãs mais velhas). Pelo governo socialista, que fez da "eliminação de todos os elementos de sexismo" na legislação um tema de campanha, a infanta será rainha de qualquer jeito. Felipe concorda ("É a lógica dos tempos atuais"), a população apóia, mas a emenda constitucional será trabalhosa: dois terços da Câmara e do Senado aprovam, encerram-se os mandatos e convocam-se eleições, dois terços da nova Câmara e do novo Senado aprovam novamente e, por fim, um referendo assina embaixo.

O último enclave da lei sálica na Europa foi removido recentemente, e por motivos muito pragmáticos. Três anos antes de morrer, em abril, o príncipe Rainier de Mônaco, desesperançado de que seu primogênito Albert se casasse e produzisse herdeiros, apontou a filha Caroline (e depois os filhos dela) como segunda na linha sucessória. Nas demais monarquias, a modernidade chegou na forma da chamada primogenitura absoluta. Sendo assim, a princesa Elisabeth da Bélgica, 4 anos e dois irmãos, está no cronograma para ser rainha depois do pai, o príncipe Philippe, casado com Mathilde. Igualmente, irão para o trono a fofíssima Catharina-Amalia, 2 anos, primogênita do príncipe Willem da Holanda e da economista argentina Máxima (que têm outra filha, Alexia, de 6 meses), e Ingrid, a mais velha de Haakon da Noruega com a plebéia e ex-baladeira Mette-Marit. A pioneira da igualdade entre sexos na linha de sucessão, em 1980, foi a Suécia – onde, justamente, a mais velha do rei Carlos Gustavo é Victoria, 28 anos, e onde o próprio ainda não engoliu a igualitária idéia. "Acho estranho", declarou recentemente. "Preferiria que meu filho Carlos Felipe me sucedesse." Se liga, majestade.

 
 
 
 
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