Edição 1936 . 21 de dezembro de 2005

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Saúde
O sal do mal

O aumento das doenças da tireóide no Brasil pode estar ligado ao excesso de iodo no sal


Paula Neiva

 
Montagem sobre foto de AntonioRibeiro

A adição de iodo ao sal de cozinha é obrigatória no Brasil desde a década de 70. Essa foi a maneira encontrada pelo governo para reduzir a incidência de problemas de saúde associados à carência do mineral, como o bócio endêmico e o cretinismo (não se está falando aqui do cretinismo político, evidentemente, contra o qual iodo nenhum surte efeito). Importante instrumento de saúde pública, a medida, no entanto, colocou a população em perigo – o que não é de estranhar em se tratando das práticas públicas nacionais. Em 1999, uma portaria do Ministério da Saúde elevou a quantidade máxima recomendada de iodo por quilo de sal de 60 miligramas para 100 miligramas por quilo. A mínima se manteve em 40 miligramas do mineral por quilo de sal. "Essa mudança foi feita sem a consulta prévia de assessores especializados do ministério e gerou um impacto negativo sobre as pessoas com predisposição genética a doenças da tireóide", diz o médico Geraldo Medeiros, professor da Universidade de São Paulo (USP) e um dos maiores especialistas do país em distúrbios da tireóide.

Um estudo coordenado por Medeiros, em 2001, alertou para o fato de que as taxas de iodo na urina das crianças brasileiras em idade escolar estavam muito acima do normal. Apesar da advertência, o Ministério da Saúde, por intermédio da Anvisa, só tomou uma atitude dois anos mais tarde, quando foi determinado que cada quilo de sal deveria conter entre 20 e 60 miligramas de iodo. Na opinião do médico, pode ter sido tarde demais. Uma das conseqüências mais nefastas desse pouco-caso, segundo Medeiros, reflete-se no aumento dos casos de tireoidite de Hashimoto, doença auto-imune que pode levar ao hipotireoidismo. Uma pesquisa realizada neste ano por especialistas da USP mostrou que quase 18% das pessoas analisadas sofriam de tireoidite. Delas, 6% tinham hipotireoidismo. Em 1994, essa incidência correspondia à metade. Há que levar em conta também que o consumo de sal no Brasil está muito acima do preconizado pela Organização Mundial de Saúde. Os brasileiros ingerem diariamente de 12 a 16 gramas de sal, quase o triplo do máximo recomendado. A matemática é simples: quanto mais sal, mais iodo. O Ministério da Saúde pretende realizar no próximo ano um estudo nacional para determinar a quantidade média de iodo ingerida pelos brasileiros. Se ficar comprovado que o consumo atual está acima do tido como aceitável, os parâmetros que determinam a quantidade de iodo no sal podem ser ainda mais reduzidos.


A relação entre o consumo de iodo e os distúrbios da tireóide é estreita (veja quadro ao lado). O mineral é a matéria-prima para a produção dos hormônios da tireóide, glândula responsável pelo metabolismo. O excesso de iodo pode deflagrar um ataque do sistema imunológico contra a tireóide, levando à tireoidite de Hashimoto. Se isso acontece, a glândula pode baixar seu ritmo de funcionamento, o que caracteriza o hipotireoidismo. Essa doença afeta sobretudo mulheres a partir dos 35 anos. O Brasil está entre os países com o maior número de casos de hipotireoidismo – 12% das brasileiras são vítimas do mal. A maioria nem sequer suspeita ser portadora do problema.

 
 
 
 
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