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Saúde
O sal do mal O aumento das doenças
da tireóide no Brasil pode estar ligado ao excesso de iodo no sal  Paula
Neiva
Montagem
sobre foto de AntonioRibeiro
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A
adição de iodo ao sal de cozinha é obrigatória no
Brasil desde a década de 70. Essa foi a maneira encontrada pelo governo
para reduzir a incidência de problemas de saúde associados à
carência do mineral, como o bócio endêmico e o cretinismo (não
se está falando aqui do cretinismo político, evidentemente, contra
o qual iodo nenhum surte efeito). Importante instrumento de saúde pública,
a medida, no entanto, colocou a população em perigo o que
não é de estranhar em se tratando das práticas públicas
nacionais. Em 1999, uma portaria do Ministério da Saúde elevou a
quantidade máxima recomendada de iodo por quilo de sal de 60 miligramas
para 100 miligramas por quilo. A mínima se manteve em 40 miligramas do
mineral por quilo de sal. "Essa mudança foi feita sem a consulta prévia
de assessores especializados do ministério e gerou um impacto negativo
sobre as pessoas com predisposição genética a doenças
da tireóide", diz o médico Geraldo Medeiros, professor da Universidade
de São Paulo (USP) e um dos maiores especialistas do país em distúrbios
da tireóide. Um estudo coordenado por Medeiros,
em 2001, alertou para o fato de que as taxas de iodo na urina das crianças
brasileiras em idade escolar estavam muito acima do normal. Apesar da advertência,
o Ministério da Saúde, por intermédio da Anvisa, só
tomou uma atitude dois anos mais tarde, quando foi determinado que cada quilo
de sal deveria conter entre 20 e 60 miligramas de iodo. Na opinião do médico,
pode ter sido tarde demais. Uma das conseqüências mais nefastas desse
pouco-caso, segundo Medeiros, reflete-se no aumento dos casos de tireoidite de
Hashimoto, doença auto-imune que pode levar ao hipotireoidismo. Uma pesquisa
realizada neste ano por especialistas da USP mostrou que quase 18% das pessoas
analisadas sofriam de tireoidite. Delas, 6% tinham hipotireoidismo. Em 1994, essa
incidência correspondia à metade. Há que levar em conta também
que o consumo de sal no Brasil está muito acima do preconizado pela Organização
Mundial de Saúde. Os brasileiros ingerem diariamente de 12 a 16 gramas
de sal, quase o triplo do máximo recomendado. A matemática é
simples: quanto mais sal, mais iodo. O Ministério da Saúde pretende
realizar no próximo ano um estudo nacional para determinar a quantidade
média de iodo ingerida pelos brasileiros. Se ficar comprovado que o consumo
atual está acima do tido como aceitável, os parâmetros que
determinam a quantidade de iodo no sal podem ser ainda mais reduzidos.
A relação
entre o consumo de iodo e os distúrbios da tireóide é estreita
(veja quadro ao lado). O mineral é a matéria-prima para a
produção dos hormônios da tireóide, glândula
responsável pelo metabolismo. O excesso de iodo pode deflagrar um ataque
do sistema imunológico contra a tireóide, levando à tireoidite
de Hashimoto. Se isso acontece, a glândula pode baixar seu ritmo de funcionamento,
o que caracteriza o hipotireoidismo. Essa doença afeta sobretudo mulheres
a partir dos 35 anos. O Brasil está entre os países com o maior
número de casos de hipotireoidismo 12% das brasileiras são
vítimas do mal. A maioria nem sequer suspeita ser portadora do problema. |