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Idéias
Céus, como eles brigam!
Em dezesseis bate-bocas antológicos,
livro mostra 100 anos do gosto
brasileiro pela polêmica

Lucila Soares
Em 1856, José de Alencar
tinha 27 anos e atuava como jornalista. Já havia decidido
dedicar-se à literatura, mas não lançara ainda
nenhuma das obras que lhe dariam lugar de destaque na história
das letras no Brasil. Nesse ano, a notoriedade bateu-lhe à
porta. Não por força de qualquer romance. Mas pelas
páginas do Diário do Rio de Janeiro, em que
publicou uma série de oito cartas desancando o poema épico
A Confederação dos Tamoios, de Gonçalves
de Magalhães, futuro visconde de Araguaia. Magalhães,
que é considerado o iniciador do romantismo no Brasil, ganhou
muitos aliados na briga, dos quais os principais foram o poeta Araújo
Porto-Alegre e ninguém menos que o imperador dom Pedro II.
Esse tríplice enfrentamento, resumido na ilustração
desta reportagem, consumiu centenas de páginas de três
jornais Diário do Rio de Janeiro, Correio da Tarde
e Jornal do Commercio , nos quais os três
contendores se identificaram pelos pseudônimos de Ig, O
Amigo do Poeta e Outro Amigo do Poeta.
Estava lançada uma das
mais interessantes polêmicas (substantivo derivado do grego
polemikós, que significa guerreiro ou, mais genericamente,
"que concerne à guerra") do Brasil, um gênero que,
na virada do século XIX para o século XX, fez sucesso
comparável ao dos folhetins as histórias publicadas
em capítulos na mesma época. Esses longos e inspirados
confrontos, nos quais o que prendia a atenção do público
era menos o tema e mais a destreza verbal dos adversários,
acabam de ganhar uma alentadíssima antologia. Sugestivamente
batizada de Duelos no Serpentário (G.Ermakoff
Casa Editorial; 700 páginas; 65 reais), a obra tem como autores
o economista e colecionador de fotografias George Ermakoff e o poeta
e ensaísta Alexei Bueno, ambos cariocas. Ao longo do último
ano, a dupla garimpou os melhores momentos dos enfrentamentos intelectuais
ocorridos no Brasil entre 1856, ano da polêmica em torno da
Confederação dos Tamoios, e 1959, quando o
poeta Augusto Meyer se engalfinha com o crítico Agripino
Grieco acerca da figura de Machado de Assis.
Nesse passeio de um século,
os autores selecionaram dezesseis polêmicas, num recorte que
deliberadamente passou ao largo da política o que
acabaria por exigir a edição de uma enciclopédia.
Assim, Joaquim Nabuco aparece não na discussão sobre
a abolição da escravatura, mas enfrentando José
de Alencar sobre a influência da Europa na literatura brasileira,
enquanto Rui Barbosa deixa de lado o direito para enfocar o uso
da língua portuguesa na redação do Código
Civil, em 1902. Algumas polêmicas envolvem figuras amplamente
conhecidas, como Alencar, Nabuco, Rui, Oswald de Andrade e Monteiro
Lobato (veja quadros). Outras contemplam personagens absolutamente
secundários, como o lingüista baiano Carneiro Ribeiro.
Chamado pelo relator do Código Civil, Clóvis Beviláqua,
para assessorá-lo no uso da língua portuguesa, Ribeiro
viu-se envolvido numa fantástica queda-de-braço com
seu ex-aluno Rui Barbosa.
Em algumas querelas chama atenção
o refinamento, em outras a mais absoluta incorreção
política. Em 1925, o cronista Antônio Torres, considerado
por muitos como o mais brilhante cronista de sua geração,
refere-se a Paulo Barreto, o João do Rio, simplesmente como
"uma manta de toucinho com dois olhos". E o artigo que o padre Sena
Freitas escreveu sobre o livro A Carne, de Júlio Ribeiro,
marco do naturalismo na literatura brasileira, intitula-se A
Carniça (na tréplica, Ribeiro revida com outro
artigo, de título O Urubu Sena Freitas). Há
clássicos, entre os quais se destaca a polêmica entre
Sílvio Romero e Lafayette Rodrigues Pereira sobre Machado
de Assis, na qual Romero diz que o Bruxo do Cosme Velho não
tinha "um romance, um volume de poesias que fizesse época,
que assinalasse uma tendência". Detalhe: o ano era 1897 e
Machado já lançara obras-primas como Memórias
Póstumas de Brás Cubas. Os autores também
pinçaram exemplos impagáveis e pouco conhecidos, como
o duelo que confronta o general José Ignácio de Abreu
e Lima com o monsenhor Joaquim Pinto de Campos. Abreu e Lima é
um personagem mais conhecido na América espanhola do que
aqui. No século XIX, depois de se meter em diversas atividades
revolucionárias no Brasil, acabou por juntar-se ao exército
libertador de Simón Bolívar. Um de seus mais encarniçados
duelos deu-se, no entanto, em torno de uma questão que passa
ao largo das revoluções. Abreu e Lima distribuiu em
Pernambuco alguns exemplares da Bíblia em edições
publicadas na Inglaterra, em português. Eram Bíblias
protestantes, o que provocou a ira do monsenhor Pinto de Campos
que as considerava falsificadas pelas diferenças que
continham em relação às edições
católicas. De ambos os lados, a discussão deixou para
trás a fé professada por cada um. O padre acusou o
general de promover a "falsificação" por ser de origem
judaica. E o general revidou esquadrinhando a ascendência
de Pinto de Campos entre um avô cigano por parte de pai e
uma bisavó da Costa da Mina (ou seja, negra) por parte de
mãe.
A origem da polêmica é
tão antiga quanto a da escrita. Em português, os primeiros
registros de algo que se pode chamar de primórdios do gênero
datam da Idade Média, e o gosto brasileiro pela polêmica
é indubitavelmente de origem lusitana. O cancioneiro popular,
com seus desafios, repentes, motes, mantém viva essa tradição.
Foi no século XIX, no entanto, que a polêmica intelectual
floresceu no Brasil, impulsionada pela efervescência de idéias
num mundo em processo de radical transformação e no
país recém-transformado em nação independente.
Nesse período, os debates sobre todos os assuntos ocupavam
páginas inteiras ao longo de semanas nas centenas de publicações
que circulavam principalmente no Rio de Janeiro. A idéia
de dar uma amostra desse animado panorama cultural nasceu de um
outro trabalho de Ermakoff (o livro O Negro na Fotografia Brasileira
do século XIX), no qual ele deparou com textos de José
do Patrocínio e Rui Barbosa.
O resultado tem um problema inerente
à matéria-prima: a extensão das polêmicas.
As versões originais foram publicadas em periódicos,
o que proporcionava aos leitores um bem-vindo intervalo entre cada
round da contenda. No caso das polêmicas mais curtas, a edição
em bloco não compromete. Em outros, o problema foi contornado
pela publicação de somente um dos lados com
os autores considerando que havia referências suficientes
aos argumentos contrários para tornar o todo compreensível.
Quando a opção foi pela íntegra, no entanto,
o resultado só é palatável para quem tem muito
interesse pelo assunto em pauta (ou pela temática das polêmicas
em si).
São escolhas, enfim, que
desafiam os autores de qualquer antologia. Todas poderiam ter sido
feitas de outro modo. O que importa sobre essa antologia é
o fato de ser uma obra de referência sobre um gênero
que funciona como termômetro cultural. Sua decadência
guarda relação com o advento de novos meios de comunicação,
com o ritmo frenético da vida moderna, mas é um inequívoco
sinal de empobrecimento de debatedores e debates. É inevitável
constatar que seria muito bom para o panorama brasileiro atual que
as discussões recuperassem (vá lá, pelo menos
em parte) o brilho dos nossos aguerridos polemistas do passado.
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O modernismo em xeque
Álbum de família
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Em 1917, Monteiro Lobato intitulou de "Paranóia
ou mistificação?" uma crítica devastadora
da exposição da então estreante
Anita Malfatti. Na época, só Oswald de
Andrade defendeu Anita. Mas o episódio rendeu
ódio eterno dos modernistas a Lobato.
"Sejamos sinceros:
futurismo, cubismo, impressionismo e tutti quanti
não passam de outros tantos ramos da arte caricatural.
É a extensão da caricatura a regiões
onde não havia até agora penetrado. Caricatura
da cor, caricatura da forma caricatura que não
visa, como a primitiva, ressaltar uma idéia cômica,
mas sim desnortear, aparvalhar o espectador. A fisionomia
de quem sai de uma dessas exposições é
das mais sugestivas. Nenhuma impressão de prazer,
ou de beleza, denunciam as caras; em todas, porém,
se lê o desapontamento de quem está incerto,
duvidoso de si próprio e dos outros, incapaz
de raciocinar, e muito desconfiado de que o mistificam
habilmente."
Monteiro Lobato
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Questão semântica
Arquivo AE
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O Código Civil brasileiro suscitou inúmeras
polêmicas. Uma das mais curiosas envolveu, em
1902, Rui Barbosa e o lingüista baiano Carneiro
Ribeiro e dizia respeito ao uso da língua portuguesa.
Entre as questões, estava a adequação
do emprego do verbo desvirginar em vez de deflorar.
"As próprias
Ordenações do reino, com a sua velhice
de três séculos, não adotaram o
devirginare dos jurisconsultos latinos, cujas
obras aliás eram naquele tempo a matriz de toda
a ciência no direito civil. Tem ali o defloramento
regras civis e penais, que se acham reunidas no 1. V,
t. 23. Cogita o legislador na reparação
e no castigo, referindo-se ao "homem que dormir com
mulher virgem", naquele que "por força corrompeu
mulher de sua virgindade", no prazo fixado à
vítima para "demandar sua virgindade". Mas vestígio
do verbo desvirginar, isso não há."
Rui Barbosa
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