Edição 1936 . 21 de dezembro de 2005

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Idéias
Céus, como eles brigam!

Em dezesseis bate-bocas antológicos,
livro mostra 100 anos do gosto
brasileiro pela polêmica


Lucila Soares

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Até o imperador entrou na briga

Em 1856, José de Alencar tinha 27 anos e atuava como jornalista. Já havia decidido dedicar-se à literatura, mas não lançara ainda nenhuma das obras que lhe dariam lugar de destaque na história das letras no Brasil. Nesse ano, a notoriedade bateu-lhe à porta. Não por força de qualquer romance. Mas pelas páginas do Diário do Rio de Janeiro, em que publicou uma série de oito cartas desancando o poema épico A Confederação dos Tamoios, de Gonçalves de Magalhães, futuro visconde de Araguaia. Magalhães, que é considerado o iniciador do romantismo no Brasil, ganhou muitos aliados na briga, dos quais os principais foram o poeta Araújo Porto-Alegre e ninguém menos que o imperador dom Pedro II. Esse tríplice enfrentamento, resumido na ilustração desta reportagem, consumiu centenas de páginas de três jornais – Diário do Rio de Janeiro, Correio da Tarde e Jornal do Commercio –, nos quais os três contendores se identificaram pelos pseudônimos de Ig, O Amigo do Poeta e Outro Amigo do Poeta.

Estava lançada uma das mais interessantes polêmicas (substantivo derivado do grego polemikós, que significa guerreiro ou, mais genericamente, "que concerne à guerra") do Brasil, um gênero que, na virada do século XIX para o século XX, fez sucesso comparável ao dos folhetins – as histórias publicadas em capítulos na mesma época. Esses longos e inspirados confrontos, nos quais o que prendia a atenção do público era menos o tema e mais a destreza verbal dos adversários, acabam de ganhar uma alentadíssima antologia. Sugestivamente batizada de Duelos no Serpentário (G.Ermakoff Casa Editorial; 700 páginas; 65 reais), a obra tem como autores o economista e colecionador de fotografias George Ermakoff e o poeta e ensaísta Alexei Bueno, ambos cariocas. Ao longo do último ano, a dupla garimpou os melhores momentos dos enfrentamentos intelectuais ocorridos no Brasil entre 1856, ano da polêmica em torno da Confederação dos Tamoios, e 1959, quando o poeta Augusto Meyer se engalfinha com o crítico Agripino Grieco acerca da figura de Machado de Assis.

Nesse passeio de um século, os autores selecionaram dezesseis polêmicas, num recorte que deliberadamente passou ao largo da política – o que acabaria por exigir a edição de uma enciclopédia. Assim, Joaquim Nabuco aparece não na discussão sobre a abolição da escravatura, mas enfrentando José de Alencar sobre a influência da Europa na literatura brasileira, enquanto Rui Barbosa deixa de lado o direito para enfocar o uso da língua portuguesa na redação do Código Civil, em 1902. Algumas polêmicas envolvem figuras amplamente conhecidas, como Alencar, Nabuco, Rui, Oswald de Andrade e Monteiro Lobato (veja quadros). Outras contemplam personagens absolutamente secundários, como o lingüista baiano Carneiro Ribeiro. Chamado pelo relator do Código Civil, Clóvis Beviláqua, para assessorá-lo no uso da língua portuguesa, Ribeiro viu-se envolvido numa fantástica queda-de-braço com seu ex-aluno Rui Barbosa.

Em algumas querelas chama atenção o refinamento, em outras a mais absoluta incorreção política. Em 1925, o cronista Antônio Torres, considerado por muitos como o mais brilhante cronista de sua geração, refere-se a Paulo Barreto, o João do Rio, simplesmente como "uma manta de toucinho com dois olhos". E o artigo que o padre Sena Freitas escreveu sobre o livro A Carne, de Júlio Ribeiro, marco do naturalismo na literatura brasileira, intitula-se A Carniça (na tréplica, Ribeiro revida com outro artigo, de título O Urubu Sena Freitas). Há clássicos, entre os quais se destaca a polêmica entre Sílvio Romero e Lafayette Rodrigues Pereira sobre Machado de Assis, na qual Romero diz que o Bruxo do Cosme Velho não tinha "um romance, um volume de poesias que fizesse época, que assinalasse uma tendência". Detalhe: o ano era 1897 e Machado já lançara obras-primas como Memórias Póstumas de Brás Cubas. Os autores também pinçaram exemplos impagáveis e pouco conhecidos, como o duelo que confronta o general José Ignácio de Abreu e Lima com o monsenhor Joaquim Pinto de Campos. Abreu e Lima é um personagem mais conhecido na América espanhola do que aqui. No século XIX, depois de se meter em diversas atividades revolucionárias no Brasil, acabou por juntar-se ao exército libertador de Simón Bolívar. Um de seus mais encarniçados duelos deu-se, no entanto, em torno de uma questão que passa ao largo das revoluções. Abreu e Lima distribuiu em Pernambuco alguns exemplares da Bíblia em edições publicadas na Inglaterra, em português. Eram Bíblias protestantes, o que provocou a ira do monsenhor Pinto de Campos – que as considerava falsificadas pelas diferenças que continham em relação às edições católicas. De ambos os lados, a discussão deixou para trás a fé professada por cada um. O padre acusou o general de promover a "falsificação" por ser de origem judaica. E o general revidou esquadrinhando a ascendência de Pinto de Campos entre um avô cigano por parte de pai e uma bisavó da Costa da Mina (ou seja, negra) por parte de mãe.

A origem da polêmica é tão antiga quanto a da escrita. Em português, os primeiros registros de algo que se pode chamar de primórdios do gênero datam da Idade Média, e o gosto brasileiro pela polêmica é indubitavelmente de origem lusitana. O cancioneiro popular, com seus desafios, repentes, motes, mantém viva essa tradição. Foi no século XIX, no entanto, que a polêmica intelectual floresceu no Brasil, impulsionada pela efervescência de idéias num mundo em processo de radical transformação e no país recém-transformado em nação independente. Nesse período, os debates sobre todos os assuntos ocupavam páginas inteiras ao longo de semanas nas centenas de publicações que circulavam principalmente no Rio de Janeiro. A idéia de dar uma amostra desse animado panorama cultural nasceu de um outro trabalho de Ermakoff (o livro O Negro na Fotografia Brasileira do século XIX), no qual ele deparou com textos de José do Patrocínio e Rui Barbosa.

O resultado tem um problema inerente à matéria-prima: a extensão das polêmicas. As versões originais foram publicadas em periódicos, o que proporcionava aos leitores um bem-vindo intervalo entre cada round da contenda. No caso das polêmicas mais curtas, a edição em bloco não compromete. Em outros, o problema foi contornado pela publicação de somente um dos lados – com os autores considerando que havia referências suficientes aos argumentos contrários para tornar o todo compreensível. Quando a opção foi pela íntegra, no entanto, o resultado só é palatável para quem tem muito interesse pelo assunto em pauta (ou pela temática das polêmicas em si).

São escolhas, enfim, que desafiam os autores de qualquer antologia. Todas poderiam ter sido feitas de outro modo. O que importa sobre essa antologia é o fato de ser uma obra de referência sobre um gênero que funciona como termômetro cultural. Sua decadência guarda relação com o advento de novos meios de comunicação, com o ritmo frenético da vida moderna, mas é um inequívoco sinal de empobrecimento de debatedores e debates. É inevitável constatar que seria muito bom para o panorama brasileiro atual que as discussões recuperassem (vá lá, pelo menos em parte) o brilho dos nossos aguerridos polemistas do passado.

 

O modernismo em xeque

Álbum de família


Em 1917, Monteiro Lobato intitulou de "Paranóia ou mistificação?" uma crítica devastadora da exposição da então estreante Anita Malfatti. Na época, só Oswald de Andrade defendeu Anita. Mas o episódio rendeu ódio eterno dos modernistas a Lobato.

"Sejamos sinceros: futurismo, cubismo, impressionismo e tutti quanti não passam de outros tantos ramos da arte caricatural. É a extensão da caricatura a regiões onde não havia até agora penetrado. Caricatura da cor, caricatura da forma ­ caricatura que não visa, como a primitiva, ressaltar uma idéia cômica, mas sim desnortear, aparvalhar o espectador. A fisionomia de quem sai de uma dessas exposições é das mais sugestivas. Nenhuma impressão de prazer, ou de beleza, denunciam as caras; em todas, porém, se lê o desapontamento de quem está incerto, duvidoso de si próprio e dos outros, incapaz de raciocinar, e muito desconfiado de que o mistificam habilmente."
Monteiro Lobato

 

Questão semântica

Arquivo AE


O Código Civil brasileiro suscitou inúmeras polêmicas. Uma das mais curiosas envolveu, em 1902, Rui Barbosa e o lingüista baiano Carneiro Ribeiro e dizia respeito ao uso da língua portuguesa. Entre as questões, estava a adequação do emprego do verbo desvirginar em vez de deflorar.

"As próprias Ordenações do reino, com a sua velhice de três séculos, não adotaram o devirginare dos jurisconsultos latinos, cujas obras aliás eram naquele tempo a matriz de toda a ciência no direito civil. Tem ali o defloramento regras civis e penais, que se acham reunidas no 1. V, t. 23. Cogita o legislador na reparação e no castigo, referindo-se ao "homem que dormir com mulher virgem", naquele que "por força corrompeu mulher de sua virgindade", no prazo fixado à vítima para "demandar sua virgindade". Mas vestígio do verbo desvirginar, isso não há."
Rui Barbosa

 
 
 
 
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