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Auto-retrato
Michelle Alves
Andre Schiliro
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Todas as noites, seu corpo longilíneo contorce-se languidamente
na abertura da novela Belíssima. Linda, com ou sem
maquiagem, a modelo Michelle Alves foge ao estereótipo da
categoria: entrou na faculdade de engenharia civil, em Londrina,
em primeiro lugar. Optou pelas passarelas. Aos 25 anos, namorando
há três o produtor musical americano Guy Oseary, não
liga quando os leigos a confundem com Gisele Bündchen. Ela
falou sobre vida de modelo à repórter Bel Moherdaui.
COMO MUITAS MODELOS EM INÍCIO DE
CARREIRA, VOCÊ TRABALHOU POR ALGUM TEMPO NO JAPÃO.
COMO FOI?
Não gostei. Eles não têm respeito nenhum.
A modelo vai experimentar lingerie, por exemplo, e tem um monte
de homens na sala, metade sem nenhuma função lá.
Mesmo sem entender muito a língua, a gente percebe que eles
estão falando do peito, das pernas, disso e daquilo. E isso
na frente de meninas de 13, 14 anos! Mas é um lugar que rende
dinheiro.
VOCÊ ENTROU EM PRIMEIRO LUGAR NA FACULDADE
DE ENGENHARIA. LARGOU TUDO PARA SER MODELO. COMO FOI A TRANSIÇÃO?
No começo eu era tão preconceituosa que não
tinha nenhuma amiga modelo. Mas aprendi que não é
por deixar a escola que uma modelo tem de ser burra. Imagine uma
menina que saiu lá do interior, muitas vezes nunca viu um
elevador ou um prédio, e vai para Nova York. Não é
fácil. Em dois meses elas aprendem a língua, ganham
seu dinheiro, administram tudo sozinhas. Aprendi com elas essa vivência
de rua. Eu era muito dependente em casa, não sabia nem preencher
cheque. Elas eram muito mais espertas.
POR QUE TANTAS MODELOS SÓ APLICAM
DINHEIRO EM IMÓVEL? É FALTA DE INFORMAÇÃO?
Acho que é uma questão
de cultura. Estava lendo no jornal que são poucas as pessoas
físicas que investem nas bolsas de valores. As pessoas têm
medo de perder todo o dinheiro. Além disso, muitas das meninas
são de família pobre. Qual sua maior necessidade?
Ter casa própria. O sonho da casa própria foi muito
martelado. Elas pensam que, se não têm a sua, não
têm nada.
VOCÊ TAMBÉM SÓ INVESTE
EM IMÓVEL?
Não.
VOCÊ SABE APLICAR?
Prefiro não dizer. Só sei que meu dinheiro rende.
O VÍDEO DA KATE MOSS CHEIRANDO COCAÍNA
REFORÇOU A IMPRESSÃO GERAL DE QUE TODAS AS MODELOS
USAM DROGAS. COMO É A SUA EXPERIÊNCIA?
Nunca ninguém veio me oferecer. Quem quer acha. Sinceramente,
eu só vi uma vez. Foi em uma festa, em uma boate. Um cara
apareceu com um pacote. Meus amigos falaram que era droga e a gente
saiu dali. A droga entrou em um momento em que significava liberdade.
Hoje as pessoas escondem que usam, não é uma imagem
positiva, como antes. Não é todo mundo que usa droga
no meio de moda. As modelos não refletem a imagem que ficou
dos anos 80 e 90. Não existe isso hoje.
HÁ MODELOS QUE TAMBÉM SE
DEDICAM À PROSTITUIÇÃO DE ALTO LUXO NO BRASIL.
NO EXTERIOR ISSO ACONTECE?
Acontece. E às vezes nem é por dinheiro, mas
por necessidade de afeto. Elas saem novinhas de casa e as pessoas
só pensam em explorar. Principalmente as meninas do Leste
Europeu, que vêm de família muito simples, sem muita
base, se enganam muito. É claro que existe todo tipo de mulher,
mas acho que a profissão está muito mais séria.
O que acontece muito é prostituição masculina.
Homens que cantam homens e eles topam, porque a carreira é
muito difícil.
QUANTO VOCÊ CALCULA QUE ESTARIA GANHANDO
HOJE SE TIVESSE SEGUIDO A CARREIRA DE ENGENHEIRA?
Meus amigos ganham por volta de 1.000, 2.000 reais; outros
estão desempregados, outros ganham mais porque têm
família que trabalha com isso. E muitos não trabalham
mais na área. Todos dizem que eu fiz o melhor negócio.
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