Edição 1936 . 21 de dezembro de 2005

Índice
Claudio de Moura Castro
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Auto-retrato
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Auto-retrato
Michelle Alves

Andre Schiliro


Todas as noites, seu corpo longilíneo contorce-se languidamente na abertura da novela Belíssima. Linda, com ou sem maquiagem, a modelo Michelle Alves foge ao estereótipo da categoria: entrou na faculdade de engenharia civil, em Londrina, em primeiro lugar. Optou pelas passarelas. Aos 25 anos, namorando há três o produtor musical americano Guy Oseary, não liga quando os leigos a confundem com Gisele Bündchen. Ela falou sobre vida de modelo à repórter Bel Moherdaui.

COMO MUITAS MODELOS EM INÍCIO DE CARREIRA, VOCÊ TRABALHOU POR ALGUM TEMPO NO JAPÃO. COMO FOI?
Não gostei. Eles não têm respeito nenhum. A modelo vai experimentar lingerie, por exemplo, e tem um monte de homens na sala, metade sem nenhuma função lá. Mesmo sem entender muito a língua, a gente percebe que eles estão falando do peito, das pernas, disso e daquilo. E isso na frente de meninas de 13, 14 anos! Mas é um lugar que rende dinheiro.

VOCÊ ENTROU EM PRIMEIRO LUGAR NA FACULDADE DE ENGENHARIA. LARGOU TUDO PARA SER MODELO. COMO FOI A TRANSIÇÃO?
No começo eu era tão preconceituosa que não tinha nenhuma amiga modelo. Mas aprendi que não é por deixar a escola que uma modelo tem de ser burra. Imagine uma menina que saiu lá do interior, muitas vezes nunca viu um elevador ou um prédio, e vai para Nova York. Não é fácil. Em dois meses elas aprendem a língua, ganham seu dinheiro, administram tudo sozinhas. Aprendi com elas essa vivência de rua. Eu era muito dependente em casa, não sabia nem preencher cheque. Elas eram muito mais espertas.

POR QUE TANTAS MODELOS SÓ APLICAM DINHEIRO EM IMÓVEL? É FALTA DE INFORMAÇÃO?
Acho que é uma questão de cultura. Estava lendo no jornal que são poucas as pessoas físicas que investem nas bolsas de valores. As pessoas têm medo de perder todo o dinheiro. Além disso, muitas das meninas são de família pobre. Qual sua maior necessidade? Ter casa própria. O sonho da casa própria foi muito martelado. Elas pensam que, se não têm a sua, não têm nada.

VOCÊ TAMBÉM SÓ INVESTE EM IMÓVEL?
Não.

VOCÊ SABE APLICAR?
Prefiro não dizer. Só sei que meu dinheiro rende.

O VÍDEO DA KATE MOSS CHEIRANDO COCAÍNA REFORÇOU A IMPRESSÃO GERAL DE QUE TODAS AS MODELOS USAM DROGAS. COMO É A SUA EXPERIÊNCIA?
Nunca ninguém veio me oferecer. Quem quer acha. Sinceramente, eu só vi uma vez. Foi em uma festa, em uma boate. Um cara apareceu com um pacote. Meus amigos falaram que era droga e a gente saiu dali. A droga entrou em um momento em que significava liberdade. Hoje as pessoas escondem que usam, não é uma imagem positiva, como antes. Não é todo mundo que usa droga no meio de moda. As modelos não refletem a imagem que ficou dos anos 80 e 90. Não existe isso hoje.

HÁ MODELOS QUE TAMBÉM SE DEDICAM À PROSTITUIÇÃO DE ALTO LUXO NO BRASIL. NO EXTERIOR ISSO ACONTECE?
Acontece. E às vezes nem é por dinheiro, mas por necessidade de afeto. Elas saem novinhas de casa e as pessoas só pensam em explorar. Principalmente as meninas do Leste Europeu, que vêm de família muito simples, sem muita base, se enganam muito. É claro que existe todo tipo de mulher, mas acho que a profissão está muito mais séria. O que acontece muito é prostituição masculina. Homens que cantam homens e eles topam, porque a carreira é muito difícil.

QUANTO VOCÊ CALCULA QUE ESTARIA GANHANDO HOJE SE TIVESSE SEGUIDO A CARREIRA DE ENGENHEIRA?
Meus amigos ganham por volta de 1.000, 2.000 reais; outros estão desempregados, outros ganham mais porque têm família que trabalha com isso. E muitos não trabalham mais na área. Todos dizem que eu fiz o melhor negócio.

 
 
 
 
topovoltar