Celebridade do cinema
que se preze hoje em
dia milita pelo verde e não só o dos
dólares
Isabela Boscov
Hanks, Ferrell, DiCaprio e Cameron:
unidos pelo amor ao planeta
A Última
Hora(The 11th
Hour, Estados Unidos, 2007), o documentário sobre
aquecimento global apresentado por Leonardo DiCaprio, com
estréia no país prevista para o dia 30, é
mais ou menos como uma aula de cursinho: esforça-se
ao máximo para ser movimentado, mas não passa,
afinal, de uma aula. E de cursinho, porque não exibe
a autoridade em que se fundava Uma Verdade Inconveniente,
a aula magna do ex-vice-presidente americano Al Gore. Dirigido
pelas irmãs Nadia Conners e Leila Conners Petersen,
amantes do verde mas inexperientes nesse tipo de magistério,
o filme consiste de uma série de depoimentos que se
desenrolam sobre um fundo de imagens da natureza em estado
sublime ou apocalíptico. Os entrevistados têm
todo o colorido que se espera de uma festa beneficente bancada
por um grande astro: vão de especialistas reconhecidos
na comunidade científica a xamãs e ongueiros,
incluindo um pesquisador aparentemente meio alucinado, que
propõe que se façam vastas plantações
de cogumelos como forma de devolver água já
quimicamente purificada aos aqüíferos e lençóis
freáticos. A Última Hora é, enfim,
um exemplo consumado da crescente corrente ecomilitante de
Hollywood sincero, entusiasmado e tão cheio
de senso teatral que não consegue resistir a um dado
espetaculoso, ainda que ele soe meio duvidoso.
Hoje, em Hollywood,
não se declarar verde quase equivale a se assumir conservador
ou coisa pior, já que mesmo o "governator"
Arnold Schwarzenegger, eleito pelo Partido Republicano, não
demorou a fazer da conservação ambiental na
Califórnia sua bandeira mais tremulante. Nem toda celebridade
é tão ativa nesse setor quanto DiCaprio, que
fez uma apresentação apaixonada para Al Gore
no último Oscar e produziu A Última Hora
junto com sua mamãe riponga e outros companheiros de
causa. Mas praticamente não há mais famoso que
deixe de arriscar seus palpites e defender algum tipo de ação
para salvar o planeta. Tempos atrás, por exemplo, Tom
Hanks passou dois blocos inteiros do programa de David Letterman
pontificando, com muita graça, sobre as qualidades
de seu carro elétrico ("Ele até anda!",
brincou). Como os automóveis ligados na tomada não
pegaram sem trocadilho , o acessório de
rigueur do jovem astro ou estrela hoje é um modelo
híbrido, como o Prius, recordista de preferência
entre os americanos ecologicamente conscientes. Outros, além
de consumir biodiesel ao volante, põem sua fama a serviço
da causa. Como Cameron Diaz e o comediante Will Ferrell, alguns
dos campeões de bilheteria que gravaram curtas-metragens
de informação pública por ocasião
do Live Earth, em julho. A mais recente adesão ao movimento
pode ter sido a da patricinha desmiolada Paris Hilton, que
pode ou não ter se manifestado em prol dos elefantes
indianos, que costumam ficar bêbados ao beber cerveja
caseira em suas incursões pelas aldeias do país.
(Num toque bizarro como tudo o que se refere a Paris, ambientalistas
a elogiaram pelo depoimento, enquanto sua própria agente
o desmentiu.)
Boa parte da ecomilitância,
porém, se dá entre a parcela de Hollywood que
não é conhecida do público mas
é conhecida, e muito, dos políticos de Washington,
com cujas campanhas eleitorais contribui regularmente. No
mês passado, a senadora Barbara Boxer, do Partido Democrata,
abriu várias horas de sua agenda para receber um grupo
de loiras bem-vestidas e bronzeadas. Todas casadas com produtores
graúdos de cinema e de televisão, executivos
de estúdio e presidentes de agências de talentos,
que foram discutir com sua congressista como as águas
de Malibu, onde elas vão à praia, estão
infestadas de algas, ou como os suéteres de cashmere
andam encalhando nas lojas de Beverly Hills. Sinais inequívocos,
claro, de que o aquecimento global é um fato que requer
atenção tipo assim urgente.