Certos
filmes são tão obstinados na maneira de contar
uma história que não há como gostar ou
desgostar deles pela metade; é preciso aceitá-los
inteiros e ver suas falhas como parte indispensável
de sua personalidade. O Assassinato de Jesse James pelo
Covarde Robert Ford(The Assassination of Jesse
James by the Coward Robert Ford, Estados Unidos, 2007),
que estréia nesta sexta-feira no país, é
um desses casos. Segundo trabalho na direção
do neozelandês Andrew Dominik (o primeiro, Chopper,
de 2000, revelou Eric Bana), esse novo acréscimo ao
cânone do lendário bandido Jesse James é,
para efeitos práticos, um western. Mas um western lento,
pensativo, de poucos tiros que contam muito, e no qual as
cores quentes da poeira e do sol são trocadas pelas
luzes frias e inóspitas da fotografia magistral de
Roger Deakins. Trata-se, principalmente, de um western com
idéias muito contemporâneas sobre os protagonistas
mencionados no título.
Jesse
James morreu em 1882, aos 34 anos, tendo muito antes disso passado à história
como uma espécie de semideus um homem sociável e carismático,
muito mais arguto que qualquer xerife ou detetive da então onipresente
agência Pinkerton, que mantinha a fidelidade aos ideais sulistas derrotados
na Guerra Civil (1861-1865) e que roubava dos ricos para dar aos pobres. Seu currículo
de dezenas de assassinatos e assaltos se encerrou, porém, com um tiro pelas
costas, disparado por um jovem que acolhera em seu bando Robert Ford, que
ficaria marcado como um covarde e um traidor. Isso é o que diz o folclore.
O que Andrew Dominik vê nele, entretanto, é um episódio exemplar
na formação de uma cultura tão americana quanto a do faroeste
a da celebridade e da auto-invenção.
O
diretor segue um caminho à primeira vista familiar: o da -desconstrução
do mito. Contrastando imagens impressionistas com narração em off
desapaixonada, ele mostra que as qualidades atribuídas a Jesse James são,
na verdade, a versão que ele próprio teceu de sua brutalidade, amoralidade
e narcisismo. No único de seus roubos mostrados no filme, ele mata de forma
gratuita um contador que se recusa a abrir um cofre. Noutra cena, tortura um menino
à cata de uma informação que ele obviamente não possui.
E, durante quase duas horas, extravasa sua paranóia caçando com
método, um a um, os integrantes de sua gangue. Alguns ele assassina pelas
costas, depois de lhes sorrir pela frente. O que logo se percebe é fascinante:
esse não é "o homem por trás do mito". Na ótima
interpretação de Brad Pitt, feita com o conhecimento de causa de
quem todo dia estampa tablóides, Jesse James deixou de ser um homem. Não
passa de um mito ocupado de sua própria manutenção. Robert
Ford, o rapaz que cresceu lendo sobre as aventuras de Jesse em jornais e romances
baratos, é a variável sem a qual essa equação não
existe: o fã ardoroso. O problema é que o jovem Robert não
quer apenas ser como o seu objeto de desejo. Quer devorá-lo e se
transformar nele. Não consegue desistir desse propósito nem quando
as rachaduras na fachada de seu herói se tornam evidentes. À sua
obsessão, então, junta-se outro fator o desprezo por si mesmo.
Aí O Assassinato de Jesse James se revela por inteiro: esta não
é a balada de um bandido e seu fim violento, como nos vários filmes
já feitos sobre o personagem, mas a história do encontro entre dois
homens vazios, que imaginam poder se preencher um ao outro. Casey Affleck, o irmão
mais novo e bem mais talentoso de Ben Affleck, conta essa história no próprio
rosto, no papel de Robert Ford. Informe, furtivo e com expressões vacilantes
como as de um bebê na primeira parte do filme, ele se altera por completo
nos extraordinários vinte minutos finais, que traçam a trajetória
do rapaz a partir do disparo na nuca de Jesse. Primeiro, num período de
intensa notoriedade, durante o qual Robert e seu irmão Charley (Sam Rockwell)
mataram o bandido outras 800 vezes nos palcos do vaudeville. Depois, durante sua
lenta e irrevogável queda em desgraça, que ganhou um ponto final
quando outro sujeito sem senso de identidade atirou nele para fugir ao anonimato.
Por causa de seus silêncios, suas tomadas longas e suas cenas de campos
de trigo ao vento, que às vezes testam a paciência da platéia,
Andrew Dominik vem sendo comparado, em suposta desvantagem, ao cineasta recluso
Terrence Malick, de Dias de Paraíso e Além da Linha Vermelha.
Ao contrário de Malick, porém, que concebe o cinema como uma exploração
com destino incerto (e às vezes sem destino nenhum), Dominik sabe aonde
quer chegar: a esse desfecho antológico, que tem tanto a dizer sobre os
Estados Unidos do século XIX quanto à cultura da imagem que se cristalizou
no século XXI. Antes como hoje, ele propõe, a existência por
procuração não é existência. É só
vazio.