Os adestradores
avisam: quanto mais o dono mima, mais o cachorro manda nele. E ainda dá
risada
Laura
Ming
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Eles
são mimados, incoerentes, indisciplinados e não conseguem seguir
regras. Estão dispostos a qualquer coisa para conseguir amor incondicional,
inclusive a entregar o sofá, a cama, a casa e o controle total de suas
vidas. Esse é o retrato que emerge de boa parte dos donos de cachorros
quando se fala com conhecedores dos segredos mais íntimos da relação
entre humanos e caninos: os adestradores. Desde que os cães saíram
do quintal e entraram para a família, o adestrador é a última
esperança dos donos de sapatos de grife destruídos, móveis
de design irremediavelmente roídos, tapetes orientais malcheirosos e de
vizinhos furiosos. A esperança tem seu preço: 50 reais a aula, em
média, para um curso que dura de cinco a seis meses, ao fim do qual se
espera que o cão tenha aprendido um mínimo de boas maneiras. O que
na maioria das vezes acontece. Mas, acabado o curso e na falta de alguma mão
forte em casa, é muito provável que ele volte aos velhos, pouco
higiênicos e indisciplinados hábitos. "Um dos grandes problemas
que nós enfrentamos é o temperamento dos donos. A maior parte tem
cachorro só para mimar. Eles sabem o que precisam fazer, mas amolecem",
constata o adestrador paulista Alexandre Rossi, dez anos de experiência,
o primeiro a ser chamado quando um comercial ou um filme requer bichinhos treinados.
"É comum o dono passar o dia inteiro fora de casa, sentir-se culpado
de deixar o bicho sozinho e não repreendê-lo quando vê algo
errado", concorda seu colega José Roberto Júnior, treinador
há vinte anos. É aí que o adestramento desanda e, em casos
extremos, a casa cai.
Não é
realmente fácil ter disciplina, espírito de liderança, autoconfiança
e eventualmente até um certo rigor para não ceder às chantagens
emocionais que os caninos aprendem rapidamente a fazer, mesmo quando se recusam
a seguir um único comando. Nos casos extremos, a solução
talvez seja chamar Victoria Stilwell, uma "superbabá" para cães.
Na mesma linha da Supernanny, que põe na linha crianças endiabradas
no popular programa da TV inglesa, o canal a cabo GNT estreou na semana passada
Ou Eu ou o Cachorro, em que o pestinha obviamente tem quatro patas. Todo
humano responsável por um canino conhece a lição número
1, mas não custa repeti-la. "Cachorros viviam em matilhas. Eles precisam
ter claro quem é o líder para respeitá-lo. E vão testar
essa liderança no dia-a-dia", explica Alexandre Rossi. E a número
2. "O cachorro obedece por troca, seja para evitar, seja para ganhar alguma
coisa. Quem não souber lidar com esse acordo não será obedecido",
ensina.
Fotos
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Bush
chama e o cachorro só vai quando lhe dá na bola: na casa do homem
mais poderoso do país mais poderoso, Barney faz o que quer, na hora em
que bem entende
Haja disciplina.
Até George W. Bush, o homem mais poderoso do país mais poderoso
do mundo, passou vexame recentemente com seu scottish terrier, Barney. Diante
da imprensa, no jardim da Casa Branca, o presidente fez charme e chamou Barney
para entrar. O cachorro fez que ia, mudou de idéia, virou as costas e durante
alguns minutos ignorou solenemente a voz do dono; quando lhe deu na bola, magnânimo,
obedeceu. Como disciplinador de cães, Bush deixa a desejar. A arquiteta
Paula Naline, de São Paulo, se identifica com esse tipo de problema. Paula
é dona de Gin, 4 anos, um airedale terrier adorável que foi treinado
na, digamos, infância, mas não demorou a esquecer tudo e voltar a
ser "levado". Pois o porte e a fofura de Gin fizeram com que fosse escolhido
para "participar" do filme Ensaio sobre a Cegueira, de Fernando
Meirelles. Orientado pelo adestrador Rossi, atuou como cachorro grande: aprendeu
a andar ao lado da atriz Julianne Moore sem guia e lhe deu até selinhos
na boca. O bom comportamento durou o tempo da filmagem, um mês. De volta
para casa, em três dias resgatou o velho Gin e mais um pouco. "Ele
está terrível. Pula nas empregadas, sobe em cima da mesa para roubar
comida. Parece que está testando a gente o tempo todo", lamenta a
dona. "Eu sei que devia repreender, mas não gosto de ficar dando bronca
o tempo todo. É chato, né?"
Uma das regras mais difíceis de entrar na cabeça dos donos é
a que estabelece uma simulação de indiferença ao chegar em
casa. Em vez de se derreter e anunciar que "mamãe (ou papai) chegou",
o correto é fazer de conta que você não está morrendo
de vontade de que seu cão dê todos os sinais tradicionais de alegria
– só assim ele vai aprender a não pular em cima da tia que morre
de medo de cachorro ou da visita de cerimônia. Nos casos em que o estrago
já foi feito, é preciso orientá-lo com coleira e firmeza.
"A base mais complicada do treinamento da Belinha foi ensiná-la a
não avançar nos convidados", relata Luis Oliveira, adestrador
da poodle que, junto com a dona, Ana Maria Braga, recebe no programa Mais Você.
Oliveira mandou pôr Belinha na coleira para ensiná-la a ficar quieta
e aceitar a presença e o agrado das visitas. Ana Maria se rebelou – a coitadinha
jamais tinha passado por tal humilhação. Finalmente convencida,
deixou o adestrador trabalhar e Belinha custou, mas aprendeu. "Cachorros
que ganham muito carinho precisam do dobro de repetição dos comandos.
Ela estava acostumada a receber cuidados e a não ter de obedecer",
diz Oliveira.
Quem não consegue
conciliar disciplina com afeto deve ter em mente que os cães se sentem
felizes quando se encaixam na ordem natural das coisas (a matilha, lembram-se?)
e cumprem seu papel. Eles também precisam de rotina e de ocupação,
como passear na rua, com guia, ou se jogar no imemorial passatempo de correr atrás
da bola. "Para quem não tem tempo, quinze minutos jogando bolinha
para o cachorro todo dia já melhora a qualidade de vida dele", aconselha
o adestrador carioca Elber Martins do Nascimento. Também faz parte das
regras de disciplina não dar comida ao cão à mesa durante
as refeições (se achar que merece um petisco, dê no quintal
ou na área de serviço) e não deixar nenhuma sujeira ocorrida
sob seus olhos passar em branco (depois do acontecido, não adianta brigar
– o bicho não saberá relacionar as coisas). Em resumo: dono de cachorro
precisa mostrar quem manda, e mandar do jeito certo. "Ele tem de participar
da maioria das aulas e pôr os comandos sempre em prática, senão
é dinheiro jogado fora. Perder tudo o que foi ensinado leva menos de um
mês", diz Rossi.
Quer ter um cachorro educado? Saiba que:
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1
A matilha tem um líder. Será ele ou você. Escolha
2 Se escolheu a segunda hipótese,é
você, na superior condição de líder, quem permite que
ele ascenda ao seu nível (ou à sua cama, ou ao seu lado no sofá)
3 Cachorro feliz é o que conhece as
regras e se sente seguro com elas. Portanto, não é não mesmo
4 Gritar e dar escândalo
porquenão consegue ser obedecido? O cachorro não se importa com
seu descontrole
5 Até
existe petisco grátis. Mas é melhor quando ele é usado para
recompensar bons comportamentos
6
É um péssimo comportamento, para ambos, repartir a comida do líder
com o liderado
7 Se não
quer que ele pegue a picanha, não a deixe dando folga perto da churrasqueira
8 O hábito faz o cão obediente
e anaboliza a sua memória. Basta um mês de relaxamento e adeus regras
9 Um segredinho: cães também
seguem a mão invisível do interesse próprio. Obedecem para
conseguir o que querem ou evitar o que não querem
10
Cachorro não é gente. Repita isso, como um mantra