Acesso público
à internet de banda larga sem
fio começa a fazer parte da infra-estrutura de
capitais e pequenos municípios brasileiros
Mirian Ftchtner
Cristina Butzge e seu laptop
no Parque Moinhos de Vento: Porto Alegre é a primeira
capital digital do Brasil
Taipé,
a capital de Taiwan, tem 2,6 milhões de habitantes
e os mesmos problemas de toda metrópole. Na agenda
do prefeito, há projetos como a expansão do
sistema de transporte público e a despoluição
do Rio Danshui, que corta a cidade, além de temas corriqueiros
como a gestão da rede de água, luz e esgoto.
O grande diferencial da prefeitura local em relação
a outras ao redor do mundo passa despercebido aos visitantes.
Está no ar. A administração municipal
tem sob sua responsabilidade a maior rede pública de
internet de banda larga sem fio do planeta. São 4.100
pontos de acesso, que cobrem 90% de sua região metropolitana.
Nenhuma outra prefeitura tem algo semelhante. Essa imensa
porta de acesso público à internet não
está lá por mera comodidade. Ela é tão
indispensável na infra-estrutura urbana quanto os postes,
os bancos das praças e os canos dágua.
Serve a necessidades práticas como o acesso das escolas
à rede ou a comunicação entre as repartições
públicas. "A criação das vias digitais
é tão importante para as cidades quanto foi
a abertura de rodovias na primeira metade do século
passado", afirma o economista Franklin Coelho, da Universidade
Federal Fluminense, especialista em sistemas de acesso público
à internet.
No Brasil, essa
revolução ainda engatinha. Das 5.564 cidades
do país, 3.570 não estão sequer conectadas
à rede mundial e apenas 24 têm acesso público
sem fio à internet. Até o fim do ano que vem,
outros 160 municípios contarão com o serviço.
Eles integram o programa Cidades Digitais, do governo federal,
que vai investir 40 milhões de reais no próximo
ano, com prioridade para municípios com até
50.000 habitantes localizados em regiões pobres. Entre
as capitais, as pioneiras são Belo Horizonte, numa
parceria entre a prefeitura e o governo federal, e Porto Alegre.
Até maio do ano que vem, 90% da capital mineira estará
coberta. Em Porto Alegre, onde o programa é bancado
pela prefeitura, o acesso está liberado em praças,
parques e na região portuária. Graças
a isso, a advogada gaúcha Cristina Eliza Butzge, de
29 anos, incorporou a rede municipal a sua rotina. Todo fim
de semana ela sai de casa com o laptop para acessar a internet
no Parque Moinhos de Vento, na Zona Norte da cidade. "É
quando me sinto num país de Primeiro Mundo", diz.
Num futuro próximo,
essas cidades poderão contar com serviços que,
há poucos anos, eram coisa de ficção
científica e hoje são realidade nos países
desenvolvidos. Em Houston, no Texas, informações
de medidores de energia e água nas residências
são transmitidas automaticamente às estações
de controle. As ambulâncias em Tucson, no Arizona, enviam
dados dos pacientes em tempo real e informam sobre seu estado
antes mesmo de estacionar na porta da emergência. Nos
Estados Unidos, já são 415 municípios,
e o país deverá investir 1 bilhão de
dólares nos próximos três anos. Na Europa,
não é diferente. Londres transformou seu centro
financeiro, o Square Mile, numa grande zona de acesso. O sinal
é livre para a legião de turistas e as hordas
de executivos que circulam todos os dias pela área.
Em Paris, o sistema já funciona em 260 locais, que
incluem, claro, os jardins da capital francesa. Em alguns
dos principais cartões-postais do mundo, já
é possível encontrar o sinal da rede sem fio
(veja quadro abaixo).
Há uma razão
bastante objetiva para essa disseminação. A
maior vantagem dos sistemas wireless (sem fio, em inglês)
é que reduzem os custos de investimento nas redes públicas.
Pequenas antenas de transmissão são acopladas
aos postes de luz ou torres espalhados pelas cidades. Elas
eliminam a necessidade de obras para a instalação
de quilômetros de cabos de fibra óptica. Isso
pode fazer toda a diferença quando, por exemplo, a
polícia quer instalar uma câmera de segurança
na parte mais remota de um parque ou num estádio de
futebol. A tecnologia mais usada é a wi-fi, compatível
com a maioria dos laptops e palmtops. E vem daí um
enorme benefício aos cidadãos: a possibilidade
de usar a internet em parques, praças e ruas com alta
velocidade de conexão. Ao ligar um computador numa
região coberta, o sinal é detectado automaticamente.
O que se espera
é uma mudança completa no modo de lidar com
a informação. A procura dos cidadãos
pelas redes públicas tende a explodir nos próximos
anos, empurrada por novos aparelhos, como o iPhone, da Apple,
capazes de acessar tanto a rede de celular quanto a wi-fi.
Obter informações pelo celular vai ficar mais
fácil do que perguntar o nome de uma rua ao jornaleiro.
Diz a americana Esme Vos, fundadora do site muniwireless.com,
que reúne informações sobre a internet
municipal mundo afora: "As pessoas não querem
mais planejar. Preferem consultar mapas e checar o endereço
de um restaurante enquanto caminham. E ninguém anda
com um laptop aberto pela rua".
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