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21 de novembro de 2007
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Internacional
Chávez calado já está errado

A reação do rei espanhol aos insultos do caudilho
levanta outra questão: a inércia dos governantes
perante a destruição da democracia na Venezuela


Diogo Schelp

AP
Acima, Zapatero e Juan Carlos reagem aos insultos de Chávez, em Santiago. Abaixo, o "cale-se" real torna-se palavra de ordem em Caracas
Jorge Silva/Reuters

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Cada vez que os mandatários latino-americanos se reúnem, Hugo Chávez rouba a cena. Como alternativa ao tédio das reuniões de cúpula, o presidente venezuelano oferece aos jornalistas momentos histriônicos e destempero verbal. Dessa forma, seja qual for o tema da reunião, ele acaba por levar as manchetes. Na Cúpula Ibero-Americana em Santiago do Chile, encerrada no sábado 10, a estratégia falhou: o rei Juan Carlos, da Espanha, perdeu a paciência e mandou Chávez calar a boca diante das câmeras de televisão. O rei reagia à provocação. O petroditador atacou José María Aznar, ex-presidente do governo espanhol, ausente ao encontro. Chávez não deixava o atual chefe de governo da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero, terminar sua réplica ao insulto. O rei tomou então atitude esperada há tempos em encontros desse tipo e disparou: "Por que não se cala?". Diz o cientista político venezuelano Ricardo Sucre Heredía: "Essa foi a primeira vez que Chávez ouviu uma resposta tão contundente a seus insultos habituais, em um encontro dessa importância".

A reação de Juan Carlos trouxe satisfação a todos os torturados pela verborragia de Chávez. A questão é por que ninguém tinha reagido antes. Há várias explicações para a omissão de governantes latino-americanos e europeus diante das medidas tomadas pelo coronel para destruir a democracia na Venezuela – nenhuma delas honrosa. Alguns presidentes latino-americanos simplesmente comem na mão de Chávez. O argentino Néstor Kirchner conseguiu arrumar as contas domésticas com a ajuda de 5 bilhões de dólares retirados dos cofres públicos venezuelanos. Outros são companheiros na marcha da insensatez e compartilham dos mesmos objetivos. Evo Morales, da Bolívia, Daniel Ortega, da Nicarágua, e Rafael Correa, do Equador, estão entre eles. Já o presidente Lula, como demonstrou na semana passada, acompanha com enorme e suspeito interesse a metodologia empregada por Chávez para dar revestimento constitucional à sua ditadura.

Muitos governos europeus de centro-esquerda tratam Chávez com carinho. Zapatero era um deles até o embate na cúpula ibero-americana. Esquerdistas europeus são tradicionalmente tolerantes com os ditadores em terra alheia. Atentos à menor ameaça à democracia e ao direito das minorias em seu próprio país, eles vêem como natural, se não como desejável, que cubanos e venezuelanos vivam sob o jugo de caudilhos. A condescendência com o coronel venezuelano na cúpula não se justifica por nenhuma regra diplomática. No passado, reuniões similares foram oportunidades para condenar atitudes autoritárias de governantes. Na cúpula de 1992, em Madri, o presidente peruano Alberto Fujimori foi criticado por ter dissolvido o Congresso para acumular poder. Devido ao tema das violações dos direitos humanos em Cuba, levantado no Panamá, em 2000, Fidel Castro jamais voltou a aparecer nos encontros ibero-americanos.

Sergio Lima/Folha Imagem
Lula: apoio a Chávez e elogios ao continuísmo

Chávez sentiu o golpe. Isso se pode constatar pelas versões conflitantes sobre o episódio fornecidas pelo venezuelano em ocasiões diferentes. Primeiro, disse que não escutou o "Por qué no te callas?" de Juan Carlos, caso contrário teria dado uma resposta à altura. Depois, tentou fazer piada, falando que o rei partiu para cima dele como um touro. Por fim, truculento, amea-çou adotar represálias contra as empresas espanholas na Venezuela. A verdade é que, na cúpula, Chávez parou de matraquear por alguns instantes depois do pito do rei. Se a frase do monarca fosse uma pergunta, teria a seguinte resposta: Chávez não se cala porque, como Fidel Castro quando comparecia a essas cúpulas, precisa que o tema do encontro sejam suas desavenças com outro mandatário em lugar da erosão da democracia na Venezuela. O venezuelano, como Fidel, precisa inventar inimigos externos e internos – os Estados Unidos, Aznar, os empresários – para alimentar a sensação de que a Venezuela vive um momento de crise nacional e, dessa forma, justificar medidas excepcionais para fortalecer o próprio poder.

Uma atrapalhada tentativa de golpe, em 2002, deu a Chávez a munição necessária para acusar quem discorde dele de golpista. "Sempre que o país está perto de uma decisão política importante, como é o caso do referendo sobre a nova Constituição, Chávez resgata com freqüência o tema do golpe fracassado para inflamar seus partidários", diz Heredía, da Universidade Central da Venezuela, em Caracas. Na cúpula de Santiago, Chávez acusou Aznar de "fascista" e de ter apoiado o golpe de 2002. Ao longo da semana, já refeito da surpresa, estendeu a acusação ao rei. O epíteto "fascista" é comumente usado pelo chavismo para desqualificar a oposição. Trata-se de uma apropriação fraudulenta de uma ideologia política que os europeus conheceram na própria carne e sobre a qual não se deixam enganar por Chávez.

Carlos Garcia Rawlins/Reuters
Milícia chavista: estilo fascista

A Espanha penou por quase quatro décadas sob o regime fascista do generalíssimo Franco. Os espanhóis devem a Juan Carlos a transição para a democracia, feita com um misto de firmeza e grande sensibilidade para superar a polarização do país. "Mais do que a posição como herdeiro do trono, foi seu papel democrático que garantiu a Juan Carlos a legitimidade política e o respeito entre os espanhóis", disse a VEJA o argentino Augustín Ferraro, do Instituto de Estudos Ibero-Americanos da Universidade de Salamanca, na Espanha. Ao tentar impedir que Zapatero expressasse sua opinião, o venezuelano repetiu a postura de intolerância que adota perante as vozes discordantes dentro de seu país. "O gesto democrático de Zapatero de defender Aznar, seu antecessor e adversário político, é algo que Chávez jamais faria", afirmou a VEJA o espanhol Manuel Alcántara, da Universidade de Salamanca. Em Brasília, ao defender Chávez, o presidente Lula confundiu democracia com a realização de eleições e plebiscitos. Preferiu não enxergar que foram exatamente esses os mecanismos democráticos usados por Chávez para destruir a democracia.

Com reportagem de Denise Dweck




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