Cada vez que os mandatários
latino-americanos se reúnem, Hugo Chávez rouba
a cena. Como alternativa ao tédio das reuniões
de cúpula, o presidente venezuelano oferece aos jornalistas
momentos histriônicos e destempero verbal. Dessa forma,
seja qual for o tema da reunião, ele acaba por levar
as manchetes. Na Cúpula Ibero-Americana em Santiago
do Chile, encerrada no sábado 10, a estratégia
falhou: o rei Juan Carlos, da Espanha, perdeu a paciência
e mandou Chávez calar a boca diante das câmeras
de televisão. O rei reagia à provocação.
O petroditador atacou José María Aznar, ex-presidente
do governo espanhol, ausente ao encontro. Chávez não
deixava o atual chefe de governo da Espanha, José Luis
Rodríguez Zapatero, terminar sua réplica ao
insulto. O rei tomou então atitude esperada há
tempos em encontros desse tipo e disparou: "Por que não
se cala?". Diz o cientista político venezuelano
Ricardo Sucre Heredía: "Essa foi a primeira vez
que Chávez ouviu uma resposta tão contundente
a seus insultos habituais, em um encontro dessa importância".
A
reação de Juan Carlos trouxe satisfação a todos os
torturados pela verborragia de Chávez. A questão é por que
ninguém tinha reagido antes. Há várias explicações
para a omissão de governantes latino-americanos e europeus diante das medidas
tomadas pelo coronel para destruir a democracia na Venezuela – nenhuma delas honrosa.
Alguns presidentes latino-americanos simplesmente comem na mão de Chávez.
O argentino Néstor Kirchner conseguiu arrumar as contas domésticas
com a ajuda de 5 bilhões de dólares retirados dos cofres públicos
venezuelanos. Outros são companheiros na marcha da insensatez e compartilham
dos mesmos objetivos. Evo Morales, da Bolívia, Daniel Ortega, da Nicarágua,
e Rafael Correa, do Equador, estão entre eles. Já o presidente Lula,
como demonstrou na semana passada, acompanha com enorme e suspeito interesse a
metodologia empregada por Chávez para dar revestimento constitucional à
sua ditadura.
Muitos governos europeus
de centro-esquerda tratam Chávez com carinho. Zapatero era um deles até
o embate na cúpula ibero-americana. Esquerdistas europeus são tradicionalmente
tolerantes com os ditadores em terra alheia. Atentos à menor ameaça
à democracia e ao direito das minorias em seu próprio país,
eles vêem como natural, se não como desejável, que cubanos
e venezuelanos vivam sob o jugo de caudilhos. A condescendência com o coronel
venezuelano na cúpula não se justifica por nenhuma regra diplomática.
No passado, reuniões similares foram oportunidades para condenar atitudes
autoritárias de governantes. Na cúpula de 1992, em Madri, o presidente
peruano Alberto Fujimori foi criticado por ter dissolvido o Congresso para acumular
poder. Devido ao tema das violações dos direitos humanos em Cuba,
levantado no Panamá, em 2000, Fidel Castro jamais voltou a aparecer nos
encontros ibero-americanos.
Sergio
Lima/Folha Imagem
Lula:
apoio a Chávez e elogios ao continuísmo
Chávez
sentiu o golpe. Isso se pode constatar pelas versões conflitantes sobre
o episódio fornecidas pelo venezuelano em ocasiões diferentes. Primeiro,
disse que não escutou o "Por qué no te callas?"
de Juan Carlos, caso contrário teria dado uma resposta à altura.
Depois, tentou fazer piada, falando que o rei partiu para cima dele como um touro.
Por fim, truculento, amea-çou adotar represálias contra as empresas
espanholas na Venezuela. A verdade é que, na cúpula, Chávez
parou de matraquear por alguns instantes depois do pito do rei. Se a frase do
monarca fosse uma pergunta, teria a seguinte resposta: Chávez não
se cala porque, como Fidel Castro quando comparecia a essas cúpulas, precisa
que o tema do encontro sejam suas desavenças com outro mandatário
em lugar da erosão da democracia na Venezuela. O venezuelano, como Fidel,
precisa inventar inimigos externos e internos – os Estados Unidos, Aznar, os empresários
– para alimentar a sensação de que a Venezuela vive um momento de
crise nacional e, dessa forma, justificar medidas excepcionais para fortalecer
o próprio poder.
Uma atrapalhada
tentativa de golpe, em 2002, deu a Chávez a munição necessária
para acusar quem discorde dele de golpista. "Sempre que o país está
perto de uma decisão política importante, como é o caso do
referendo sobre a nova Constituição, Chávez resgata com freqüência
o tema do golpe fracassado para inflamar seus partidários", diz Heredía,
da Universidade Central da Venezuela, em Caracas. Na cúpula de Santiago,
Chávez acusou Aznar de "fascista" e de ter apoiado o golpe de
2002. Ao longo da semana, já refeito da surpresa, estendeu a acusação
ao rei. O epíteto "fascista" é comumente usado pelo chavismo
para desqualificar a oposição. Trata-se de uma apropriação
fraudulenta de uma ideologia política que os europeus conheceram na própria
carne e sobre a qual não se deixam enganar por Chávez.
Carlos
Garcia Rawlins/Reuters
Milícia
chavista: estilo fascista
A Espanha
penou por quase quatro décadas sob o regime fascista do generalíssimo
Franco. Os espanhóis devem a Juan Carlos a transição para
a democracia, feita com um misto de firmeza e grande sensibilidade para superar
a polarização do país. "Mais do que a posição
como herdeiro do trono, foi seu papel democrático que garantiu a Juan Carlos
a legitimidade política e o respeito entre os espanhóis", disse
a VEJA o argentino Augustín Ferraro, do Instituto de Estudos Ibero-Americanos
da Universidade de Salamanca, na Espanha. Ao tentar impedir que Zapatero expressasse
sua opinião, o venezuelano repetiu a postura de intolerância que
adota perante as vozes discordantes dentro de seu país. "O gesto democrático
de Zapatero de defender Aznar, seu antecessor e adversário político,
é algo que Chávez jamais faria", afirmou a VEJA o espanhol
Manuel Alcántara, da Universidade de Salamanca. Em Brasília, ao
defender Chávez, o presidente Lula confundiu democracia com a realização
de eleições e plebiscitos. Preferiu não enxergar que foram
exatamente esses os mecanismos democráticos usados por Chávez para
destruir a democracia.