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Cinema Como
cavar a própria sepultura Não
é à toa que a bilheteria está em queda: ou Hollywood
derrota seus vícios, ou eles a derrotam
 Isabela
Boscov Fotos
divulgação
 | A
FEITICEIRA QUANTO CUSTOU: 85 milhões
de dólares QUANTO RENDEU: 62 milhões em 8 semanas ONDE
ERRA: em acreditar que ter grandes nomes no elenco é meio caminho andado
para uma boa bilheteria. Os números cada vez mais desmentem essa teoria
e não ajuda em nada o fato de Nicole Kidman e Will Ferrell estarem
constrangedoramente ruins |
Nada contra o cinema comercial americano afinal, dele vieram desde clássicos
como Casablanca até inovações como Gladiador.
Mas, mesmo com toda a boa vontade, há limite para quanto de estupidez o
freqüentador de cinema é capaz de suportar. Tome-se o exemplo de A
Feiticeira, que estréia no dia 30 no país. Baseado na encantadora
série homônima dos anos 60, co-roteirizado pela Nora Ephron de Sintonia
de Amor e estrelado por Nicole Kidman e Will Ferrell a estrela e o
comediante do momento , o projeto poderia parecer blindado contra o fiasco.
Mas é difícil achar algo que se salve no filme: a direção
é de envergonhar estudante de cinema, o roteiro é coisa de amador,
o argumento é de uma auto-absorção deplorável (tudo
gira em torno dos desinteressantíssimos bastidores de Hollywood) e Nicole
e Ferrell impressionam apenas pelos péssimos desempenhos. A Feiticeira,
entretanto, está longe de constituir uma exceção. Hoje, a
incompetência e a falta de originalidade é que são a regra
em Hollywood. Não é
por outra razão que, em 2005, a indústria americana de cinema cravou
uma de suas piores marcas: pelo terceiro ano consecutivo, as vendas de ingressos
estão em queda. Em 2004, Hollywood faturou 84 bilhões de dólares,
mas apenas um terço dessa quantia veio da bilheteria. O grosso mesmo veio
do DVD, que permite ao espectador dormir no sofá. De cada dez filmes lançados
nos Estados Unidos ao custo médio de 98 milhões de dólares
por título , seis dão prejuízo. À semelhança
da crise que a indústria fonográfica enfrenta desde o início
da década, a baixa do cinema americano não será fácil
de reverter. Ainda que os executivos do setor acusem a pirataria e o DVD pela
crise, não há mais dúvida de que ela é, na verdade,
de talento e qualidade.  | A
ILHA QUANTO CUSTOU: 126 milhões
de dólares QUANTO RENDEU: 36 milhões em 7 semanas ONDE
ERRA: na crença de que um filme é um "produto" que pode ser
concebido nos mesmos moldes que uma campanha publicitária ou seja,
que pode ser dirigido a categorias demográficas específicas. A
Ilha quer atrair os adultos com um enredo "de idéias" e agradar aos
jovens com cenas de ação desenfreada. Acaba descontentando a todos
Obs.: valores referentes
apenas à bilheteria americana |
As origens do problema remontam à década de 80, quando quase todos
os estúdios passaram às mãos de corporações
e absorveram seus métodos administrativos. Na Hollywood de hoje, cineastas,
roteiristas e produtores estão sob o jugo dos marqueteiros, porque estes
acreditam saber o que este ou aquele segmento do público espera ver. Tudo
é decidido na base dos números, sejam eles as notas atribuídas
a um filme nas exibições-teste, sejam os milhões que se destinarão
a uma produção conforme o retorno estimado para ela. Parece científico
mas a experiência demonstra que não passa de cabala. Do ponto
de vista de um marqueteiro, um filme como A Ilha vai agradar tanto ao público
pensante quanto ao pessoal mais chegado em ação. Na prática,
ele não satisfez ninguém: arrecadou, na bilheteria americana, menos
de um terço do que custou (não incluídas aí as despesas
de marketing e distribuição, da ordem de outros 50 milhões
de dólares). Hollywood refugiou-se
em vícios que parece incapaz de derrotar. O primeiro é o dos comitês
de roteiristas, de pesquisadores de opinião, de produtores ,
que servem para diluir a culpa, de forma que ninguém perca o emprego, e
para tirar qualquer vestígio de personalidade dos filmes que saem dessa
linha de montagem. O segundo vício é o de apostar no que já
se conhece ou seja, mirar nas crianças e adolescentes, responsáveis
por mais da metade da bilheteria anual americana. Esse é o que responde
pelos roteiros repetitivos e padronizados e pela ênfase nos efeitos especiais
em detrimento de outros valores artísticos: na visão do executivo
de cinema, o jovem é uma criatura que só quer ver movimento e acha
que pensar dói. O terceiro vício é garantir a arrecadação
com grandes nomes. A Feiticeira é só mais uma prova de que
esse recurso se esgotou. De Tom Hanks a Tom Cruise, Julia Roberts e Brad Pitt,
todos os astros do primeiro escalão têm um (ou mais de um) fracasso
recente nos currículos antes impecáveis.  | STAR
WARS: EPISÓDIO III A VINGANÇA DOS SITH QUANTO
CUSTOU: 113 milhões de dólares
QUANTO RENDEU: 380 milhões em 17 semanas ONDE ERRA: é
um resumo do pior de Hollywood: o filme-espetáculo sem idéia, propósito
ou realização dignos do nome. Mas foi salvo do fiasco pelo imenso
público cativo da série |
O quarto e mais destrutivo vício, porém, é a opção
pelo mínimo denominador comum. A ele podem ser creditados os romances idênticos
a todos os outros lançados no ano, o humor escatológico e a velhacaria
de sucessos como Penetras Bons de Bico, que sugere que homens que comem
de boca aberta, velhinhas que falam palavrão e gays enrustidos que se atiram
sobre machões são gagues de hilaridade irresistível. Se Hollywood
segue uma filosofia, ela seria a do empresário de circo e showman P.T.
Barnum (1810-1891), a quem se atribui o famoso dito de que "ninguém jamais
perdeu dinheiro subestimando a inteligência do público americano".
Pois a crise da indústria cinematográfica o desmente: mesmo Barnum
teria de admitir que é impossível subestimar o público (americano
ou não) o tempo todo. |