Edição 1923 . 21 de setembro de 2005

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Cinema
Como cavar a própria sepultura

Não é à toa que a bilheteria está
em queda: ou Hollywood derrota
seus vícios, ou eles a derrotam


Isabela Boscov

 

Fotos divulgação
A FEITICEIRA
QUANTO CUSTOU: 85 milhões de dólares
QUANTO RENDEU: 62 milhões em 8 semanas
ONDE ERRA: em acreditar que ter grandes nomes no elenco é meio caminho andado para uma boa bilheteria. Os números cada vez mais desmentem essa teoria – e não ajuda em nada o fato de Nicole Kidman e Will Ferrell estarem constrangedoramente ruins

Nada contra o cinema comercial americano – afinal, dele vieram desde clássicos como Casablanca até inovações como Gladiador. Mas, mesmo com toda a boa vontade, há limite para quanto de estupidez o freqüentador de cinema é capaz de suportar. Tome-se o exemplo de A Feiticeira, que estréia no dia 30 no país. Baseado na encantadora série homônima dos anos 60, co-roteirizado pela Nora Ephron de Sintonia de Amor e estrelado por Nicole Kidman e Will Ferrell – a estrela e o comediante do momento –, o projeto poderia parecer blindado contra o fiasco. Mas é difícil achar algo que se salve no filme: a direção é de envergonhar estudante de cinema, o roteiro é coisa de amador, o argumento é de uma auto-absorção deplorável (tudo gira em torno dos desinteressantíssimos bastidores de Hollywood) e Nicole e Ferrell impressionam apenas pelos péssimos desempenhos. A Feiticeira, entretanto, está longe de constituir uma exceção. Hoje, a incompetência e a falta de originalidade é que são a regra em Hollywood.

Não é por outra razão que, em 2005, a indústria americana de cinema cravou uma de suas piores marcas: pelo terceiro ano consecutivo, as vendas de ingressos estão em queda. Em 2004, Hollywood faturou 84 bilhões de dólares, mas apenas um terço dessa quantia veio da bilheteria. O grosso mesmo veio do DVD, que permite ao espectador dormir no sofá. De cada dez filmes lançados nos Estados Unidos – ao custo médio de 98 milhões de dólares por título –, seis dão prejuízo. À semelhança da crise que a indústria fonográfica enfrenta desde o início da década, a baixa do cinema americano não será fácil de reverter. Ainda que os executivos do setor acusem a pirataria e o DVD pela crise, não há mais dúvida de que ela é, na verdade, de talento e qualidade.

 

A ILHA
QUANTO CUSTOU: 126 milhões de dólares
QUANTO RENDEU: 36 milhões em 7 semanas
ONDE ERRA: na crença de que um filme é um "produto" que pode ser concebido nos mesmos moldes que uma campanha publicitária – ou seja, que pode ser dirigido a categorias demográficas específicas. A Ilha quer atrair os adultos com um enredo "de idéias" e agradar aos jovens com cenas de ação desenfreada. Acaba descontentando a todos

Obs.: valores referentes apenas à bilheteria americana

As origens do problema remontam à década de 80, quando quase todos os estúdios passaram às mãos de corporações e absorveram seus métodos administrativos. Na Hollywood de hoje, cineastas, roteiristas e produtores estão sob o jugo dos marqueteiros, porque estes acreditam saber o que este ou aquele segmento do público espera ver. Tudo é decidido na base dos números, sejam eles as notas atribuídas a um filme nas exibições-teste, sejam os milhões que se destinarão a uma produção conforme o retorno estimado para ela. Parece científico – mas a experiência demonstra que não passa de cabala. Do ponto de vista de um marqueteiro, um filme como A Ilha vai agradar tanto ao público pensante quanto ao pessoal mais chegado em ação. Na prática, ele não satisfez ninguém: arrecadou, na bilheteria americana, menos de um terço do que custou (não incluídas aí as despesas de marketing e distribuição, da ordem de outros 50 milhões de dólares).

Hollywood refugiou-se em vícios que parece incapaz de derrotar. O primeiro é o dos comitês – de roteiristas, de pesquisadores de opinião, de produtores –, que servem para diluir a culpa, de forma que ninguém perca o emprego, e para tirar qualquer vestígio de personalidade dos filmes que saem dessa linha de montagem. O segundo vício é o de apostar no que já se conhece – ou seja, mirar nas crianças e adolescentes, responsáveis por mais da metade da bilheteria anual americana. Esse é o que responde pelos roteiros repetitivos e padronizados e pela ênfase nos efeitos especiais em detrimento de outros valores artísticos: na visão do executivo de cinema, o jovem é uma criatura que só quer ver movimento e acha que pensar dói. O terceiro vício é garantir a arrecadação com grandes nomes. A Feiticeira é só mais uma prova de que esse recurso se esgotou. De Tom Hanks a Tom Cruise, Julia Roberts e Brad Pitt, todos os astros do primeiro escalão têm um (ou mais de um) fracasso recente nos currículos antes impecáveis.

 

STAR WARS: EPISÓDIO III – A VINGANÇA DOS SITH
QUANTO CUSTOU: 113 milhões de dólares
QUANTO RENDEU: 380 milhões em 17 semanas
ONDE ERRA: é um resumo do pior de Hollywood: o filme-espetáculo sem idéia, propósito ou realização dignos do nome. Mas foi salvo do fiasco pelo imenso público cativo da série

O quarto e mais destrutivo vício, porém, é a opção pelo mínimo denominador comum. A ele podem ser creditados os romances idênticos a todos os outros lançados no ano, o humor escatológico e a velhacaria de sucessos como Penetras Bons de Bico, que sugere que homens que comem de boca aberta, velhinhas que falam palavrão e gays enrustidos que se atiram sobre machões são gagues de hilaridade irresistível. Se Hollywood segue uma filosofia, ela seria a do empresário de circo e showman P.T. Barnum (1810-1891), a quem se atribui o famoso dito de que "ninguém jamais perdeu dinheiro subestimando a inteligência do público americano". Pois a crise da indústria cinematográfica o desmente: mesmo Barnum teria de admitir que é impossível subestimar o público (americano ou não) o tempo todo.

 
 
 
 
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