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Televisão
Revire-se, Freud
Apresentadores atacam de
psicólogos na nova bobagem
das tardes da TV: a "teleajuda"

Ricardo Valladares
Montagem sobre fotos de Wayne Camargo/Rede
TV, Ricardo Benichio, divulgação
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| Regina Volpato (à esq.), o médium Gasparetto
e Márcia (à dir.): "Deixa vir, deixa vir. É duro abrir
o coração" |
Depois de participar do programa Encontro
Marcado, da RedeTV!, o motorista Luiz Cláudio Silva virou
motivo de chacota no trabalho. "Os colegas falaram que eu fui louco
de me expor, até inventaram que eu apanhava da minha mulher",
diz ele, que entrou nessa fria a pedido da própria, a dona-de-casa
Patrícia Ferrari. Há duas semanas, ela revelou no
ar, com o marido sentado a seu lado, que se ressentia da falta de
sintonia conjugal. Incentivada pelo apresentador, o médium-psicólogo
Luiz Gasparetto, Patrícia caiu no berreiro. "Deixa vir, deixa
vir. É duro abrir o coração", disse Gasparetto.
Cenas como essa viraram uma constante nas tardes da televisão.
Assim como Encontro Marcado, dois outros programas adotaram
a fórmula que se poderia chamar de teleajuda. Ela é
uma versão amena dos telebarracos, quadros em que as pessoas
resolviam suas diferenças na base do bate-boca quando
não partiam para cima umas das outras diante das câmeras.
A apresentadora Márcia Goldschmidt aderiu à teleajuda
depois que aquele tipo de apelação entrou em baixa.
Hoje, ataca de conselheira sentimental em seu Jogo da Vida, na
Rede Bandeirantes. No SBT, o Casos de Família, comandado
por Regina Volpato, é uma variação da mesmíssima
receita.
O mote dessas atrações é
oferecer supostas soluções para os problemas emocionais
e de relacionamento. Os temas são quase sempre femininos,
já que as mulheres da classe C compõem a audiência
esparsa do horário. Como nos velhos telebarracos, às
vezes o participante é convidado a fazer uma acareação
com outros envolvidos em seus conflitos. A diferença é
que, se antes os apresentadores instigavam a animosidade, agora
eles dão uma de gurus de auto-ajuda. Depois de desabafarem,
as pessoas recebem conselhos ou seja, despeja-se sobre elas
um amontoado de lugares-comuns. "Li livros sérios e muita
bobagem para me inspirar", diz Márcia Goldschmidt, que aconselha
desde solteironas à procura de consolo até casadas
desprezadas pelos maridos. Márcia é uma terapeuta
amadora, mas bem paga: embolsa um salário de 250.000 reais
por mês.
A auto-ajuda pode ter forte apelo na televisão.
Prova disso é o sucesso do americano Dr. Phil, psicólogo
que despontou no programa de Oprah Winfrey, a apresentadora mais
poderosa dos Estados Unidos, e hoje tem sua própria atração
e vende milhões de livros. No Brasil, as matrizes desses
programas são as sessões de aconselhamento sentimental
no rádio e os programas evangélicos na TV. Filho da
médium Zibia Gasparetto, Luiz Gasparetto é espírita,
mas incorpora um tanto do estilo doutrinário da bispalhada.
No Encontro Marcado, em exibição há
um mês, ele faz caras e bocas enquanto as pessoas narram suas
agruras e chega a lhes dar carraspanas quando as coitadas
se mostram muito fragilizadas. Regina Volpato, do Casos de Família,
tem outro jeito de lidar com o chororô: quando a pessoa
começa a se debulhar, ela saca um lenço de papel.
Além de seus palpites sobre os problemas alheios, psicólogos
convidados fornecem "apoio terapêutico". O ocaso dos telebarracos
se deveu ao fato de que esses quadros entraram na mira do Ministério
Público e afastaram os anunciantes. Apesar da overdose de
pieguice e baboseira, a teleajuda ao menos livra o espectador daquelas
cenas degradantes de pugilato. É uma catarse bem morna, como
convém à programação das tardes.
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