Edição 1923 . 21 de setembro de 2005

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Televisão
Revire-se, Freud

Apresentadores atacam de
psicólogos na nova bobagem
das tardes da TV: a "teleajuda"


Ricardo Valladares


Montagem sobre fotos de Wayne Camargo/Rede TV, Ricardo Benichio, divulgação
Regina Volpato (à esq.), o médium Gasparetto e Márcia (à dir.): "Deixa vir, deixa vir. É duro abrir o coração"

Depois de participar do programa Encontro Marcado, da RedeTV!, o motorista Luiz Cláudio Silva virou motivo de chacota no trabalho. "Os colegas falaram que eu fui louco de me expor, até inventaram que eu apanhava da minha mulher", diz ele, que entrou nessa fria a pedido da própria, a dona-de-casa Patrícia Ferrari. Há duas semanas, ela revelou no ar, com o marido sentado a seu lado, que se ressentia da falta de sintonia conjugal. Incentivada pelo apresentador, o médium-psicólogo Luiz Gasparetto, Patrícia caiu no berreiro. "Deixa vir, deixa vir. É duro abrir o coração", disse Gasparetto. Cenas como essa viraram uma constante nas tardes da televisão. Assim como Encontro Marcado, dois outros programas adotaram a fórmula que se poderia chamar de teleajuda. Ela é uma versão amena dos telebarracos, quadros em que as pessoas resolviam suas diferenças na base do bate-boca – quando não partiam para cima umas das outras diante das câmeras. A apresentadora Márcia Goldschmidt aderiu à teleajuda depois que aquele tipo de apelação entrou em baixa. Hoje, ataca de conselheira sentimental em seu Jogo da Vida, na Rede Bandeirantes. No SBT, o Casos de Família, comandado por Regina Volpato, é uma variação da mesmíssima receita.

O mote dessas atrações é oferecer supostas soluções para os problemas emocionais e de relacionamento. Os temas são quase sempre femininos, já que as mulheres da classe C compõem a audiência esparsa do horário. Como nos velhos telebarracos, às vezes o participante é convidado a fazer uma acareação com outros envolvidos em seus conflitos. A diferença é que, se antes os apresentadores instigavam a animosidade, agora eles dão uma de gurus de auto-ajuda. Depois de desabafarem, as pessoas recebem conselhos – ou seja, despeja-se sobre elas um amontoado de lugares-comuns. "Li livros sérios e muita bobagem para me inspirar", diz Márcia Goldschmidt, que aconselha desde solteironas à procura de consolo até casadas desprezadas pelos maridos. Márcia é uma terapeuta amadora, mas bem paga: embolsa um salário de 250.000 reais por mês.

A auto-ajuda pode ter forte apelo na televisão. Prova disso é o sucesso do americano Dr. Phil, psicólogo que despontou no programa de Oprah Winfrey, a apresentadora mais poderosa dos Estados Unidos, e hoje tem sua própria atração e vende milhões de livros. No Brasil, as matrizes desses programas são as sessões de aconselhamento sentimental no rádio e os programas evangélicos na TV. Filho da médium Zibia Gasparetto, Luiz Gasparetto é espírita, mas incorpora um tanto do estilo doutrinário da bispalhada. No Encontro Marcado, em exibição há um mês, ele faz caras e bocas enquanto as pessoas narram suas agruras – e chega a lhes dar carraspanas quando as coitadas se mostram muito fragilizadas. Regina Volpato, do Casos de Família, tem outro jeito de lidar com o chororô: quando a pessoa começa a se debulhar, ela saca um lenço de papel. Além de seus palpites sobre os problemas alheios, psicólogos convidados fornecem "apoio terapêutico". O ocaso dos telebarracos se deveu ao fato de que esses quadros entraram na mira do Ministério Público e afastaram os anunciantes. Apesar da overdose de pieguice e baboseira, a teleajuda ao menos livra o espectador daquelas cenas degradantes de pugilato. É uma catarse bem morna, como convém à programação das tardes.

 
 
 
 
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