Edição 1923 . 21 de setembro de 2005

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Livros
Os pilares da sabedoria

O crítico literário Harold Bloom celebra
os autores que ensinam o leitor
a confrontar seus limites mortais


Jerônimo Teixeira

 
George Ruhe/The New York Times
Harold Bloom: polêmica contra o politicamente correto – e contra o "semi-analfabeto" George W. Bush

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Trecho do livro

Nunca, antes de Harold Bloom, a crítica literária foi tão eletrizante. Sob a prosa serena, suavemente irônica do crítico americano, desenrolam-se embates épicos e justas titânicas entre os maiores escritores do Ocidente. Bloom tem obsessão pela grandeza, e seu tema central – talvez único – é a luta de dramaturgos, poetas, filósofos, ensaístas e romancistas pelos lugares mais elevados no panteão da literatura. É essa a linha mestra de A Angústia da Influência, de 1973, a obra que firmou a reputação de Bloom no meio acadêmico, e também de O Cânone Ocidental, de 1994, seu primeiro livro direcionado ao público geral. Em Onde Encontrar a Sabedoria? (tradução de José Roberto O'Shea; Objetiva; 319 páginas; 44,90 reais), que chega às livrarias brasileiras nesta semana, Bloom mais uma vez estabelece confrontos entre os autores que estuda – dos nove capítulos, sete são dedicados a comparações entre dois escritores (leia quadros ao longo desta reportagem). Aos 75 anos, Bloom, como juiz soberano, também se permite decretar vitórias por nocaute, em postulações ousadas como "Shakespeare, o mais abrangente dos intelectos, é capaz de derrotar qualquer filósofo". Na nova obra, o critério para estabelecer vitórias e derrotas no ringue letrado é a sabedoria. O curioso é que, embora o autor não forneça uma definição cabal desse atributo metafísico, a resposta para a pergunta que dá título a seu livro é muito clara. Se o leitor estiver em busca de informação, pode recorrer a um jornal, a uma enciclopédia, à internet. Mas a sabedoria – esta só se encontra na literatura.

O livro deixa a sugestão de que a sabedoria – como a grandeza literária – é difícil, talvez impossível de definir. E, no entanto, quando estamos diante dela, é impossível não reconhecê-la. Bloom cita excertos de Homero, de Cervantes, de Proust, na convicção de que a qualidade sábia desses textos será auto-evidente. Cada um a seu modo, esses autores ensinam o leitor a reconhecer os limites de sua natureza humana e mortal. Não por acaso, ao longo do livro, Bloom volta e meia faz referências aos graves problemas cardíacos que o afastaram temporariamente de seu trabalho na Universidade Yale – e que quase o afastaram definitivamente deste mundo. A julgar por essas pistas, uma definição aceitável de sabedoria poderia ser algo nesta linha: é aquele conhecimento que faz o leitor aceitar a morte como inevitável. Talvez por isso os textos religiosos – que quase sempre remetem a uma vida pós-terrena – sejam uma fonte inesgotável de sabedoria (no primeiro capítulo, Bloom analisa dois livros da Bíblia hebraica, e Eclesiastes). Mas também existe uma sabedoria secular e até mesmo anti-religiosa, como provam os textos do filósofo Friedrich Nietzsche e do psicanalista Sigmund Freud.

Não pense o leitor, porém, que as obras indicadas por Bloom oferecem consolo diante da morte. Não se encontram obras realmente sábias nas prateleiras de auto-ajuda. A sabedoria, afinal, está associada à grandeza: ela obriga o leitor a reconhecer sua insignificância. Isso tampouco quer dizer que ela será sempre uma lição de amargura e pessimismo: alguns sábios são, pelo menos na aparência, amenos e esperançosos. Bloom observa que a sabedoria contida nos Ensaios do francês Michel de Montaigne é ao mesmo tempo "alegre e sociável". Johann Wolfgang von Goethe, o maior poeta da língua alemã, também seria um tipo "afável", com a diferença de que sua sapiência é – ao contrário da de Montaigne – elitista: Goethe professava um ideal de homem de cultura que, no limite, só seria alcançável por ele mesmo.

Nas elevadas ambições culturais de Goethe, Bloom encontra um antídoto para o que ele chama de "Escola do Ressentimento". Sob essa expressão irônica, o autor congrega várias correntes teóricas – o desconstrucionismo, o multiculturalismo, o feminismo – que pregam um ensino da literatura pautado pela correção política, excluindo machos brancos colonialistas como Shakespeare (o centro do cânone ocidental, de acordo com Bloom) em prol de escritores que representem a minoria étnica ou sexual mais badalada do momento. A polêmica de Bloom contra os "ressentidos" vem de longe (é o que dá um colorido inflamado, quase panfletário, a O Cânone Ocidental). Nesse embate, o crítico tornou-se alvo de golpes sujos: foi até acusado de assediar sexualmente uma aluna (a denúncia era para lá de duvidosa: foi feita pela feminista Naomi Wolf, em 2004, vinte anos depois do suposto incidente). Engana-se, porém, quem imagina Bloom como um reacionário empedernido: ele é um opositor mordaz do conservadorismo do presidente George W. Bush (a quem chama, no novo livro, de "semi-analfabeto").

Onde Encontrar a Sabedoria? sugere que a tal Escola do Ressentimento teria pelo menos um antecessor ilustre: suas objeções ideológicas à grande literatura seguiriam uma tradição inaugurada por ninguém menos que Platão. Com sua ironia afiada, Bloom reconhece quanto essa avaliação é injusta com o filósofo grego: os "lemingues intelectuais" que acusam poetas como o americano Walt Whitman de racismo provavelmente nunca leram A República. Mas é nesse diálogo platônico que, pela primeira vez, se levantam reparos morais à poesia. Platão expulsou os poetas de seu Estado utópico. Sua filosofia idealista não admitia os deuses demasiado humanos que Homero retratou na Ilíada. Deuses deveriam ser criaturas perfeitas, de moral irretocável, e não seres coléricos como Apolo e Atena, divindades que interferiam nos destinos humanos da Guerra de Tróia. A crítica "politicamente correta" não passa de uma degeneração do modelo platônico: só o que fez foi substituir as elevadas preocupações teológicas de Platão pelas cartilhas políticas da moda.

"Não temos de optar entre Platão e Homero, embora Platão assim o quisesse", diz Bloom. O crítico, porém, não está em cima do muro na contenda entre filósofos e poetas: "Se, em última instância, tivermos de escolher, leiamos Homero". A filosofia, sugere Bloom, esgota-se nos limites da razão – enquanto a poesia é virtualmente inesgotável: "Mesmo uma longa vida não é bastante para receber tudo o que Shakespeare é capaz de oferecer". Nesta última frase, mais uma vez se insinua o horizonte da morte. Septuagenário e cardíaco, Bloom naturalmente está preocupado com a proximidade do fim. Ele por vezes assume um tom entre heróico e elegíaco para erguer-se como o último grande leitor.

Essa retórica um tanto catastrofista deixa a impressão de que, quando Harold Bloom efetivamente morrer, a mais sapiente literatura ocidental estará indo junto com ele, por falta de leitores que a apreciem. Não será assim, e Bloom sabe bem disso – ele mesmo insiste na vitalidade imbatível de autores como Shakespeare e Cervantes. Mas seus exageros dão um bom toque dramático a livros como Onde Encontrar a Sabedoria?. Afinal, o último grande crítico humanista parece ser uma figura exemplar dos dias de hoje. Dois grandes romancistas contemporâneos usaram como personagem o professor de literatura que se vê sitiado pelo patrulhamento político de sua universidade – o sul-africano J.M. Coetzee, em Desonra, e o americano Philip Roth (por acaso, um bom amigo de Bloom), em A Marca Humana. Harold Bloom criou um personagem idêntico: ele mesmo. Onde Encontrar a Sabedoria? talvez deva ser lido como uma peça ficcional: o monólogo do último grande crítico relendo seus sábios favoritos.

 

OS SÁBIOS DA MORAL
A Ilíada, épico de Homero que narra episódios da Guerra de Tróia, ensina que a realidade é uma luta constante – para que um guerreiro ganhe, outro tem de ser morto e pilhado. Platão tinha restrições morais ao poema homérico. Em A República, ele tentou afirmar a superioridade da filosofia sobre a poesia. Mas, ironicamente, é como escritor que Platão revela sua sabedoria: Bloom lembra que Platão alcançou a imortalidade poética como criador de diálogos dramáticos e mitos.

OS SÁBIOS DA PERSONALIDADE
O espanhol Miguel de Cervantes e o inglês William Shakespeare seriam "mestres rivais" na exposição de como se desenvolve uma personalidade. Shakespeare ensina o leitor a falar consigo mesmo: seus grandes personagens, como Hamlet, são criaturas auto-suficientes, solipsistas que só ouvem a si mesmos. Cervantes, ao contrário, mostra o poder do diálogo, na relação de Dom Quixote com seu escudeiro Sancho Pança – a mais perfeita representação literária que já se fez de uma amizade.

OS SÁBIOS DO HUMANISMO
A sabedoria de Michel de Montaigne está em seu autoconhecimento: ninguém explorou tanto o próprio íntimo como o autor francês em seus Ensaios. Apesar dessa marcante individualidade, Montaigne também exibe uma sabedoria universal, que envolve o leitor com um tom de conversa íntima. Tal como Montaigne, Francis Bacon acreditava no conhecimento como uma fonte de soberania humana. Mas também tinha uma crença ingênua na capacidade da ciência de garantir felicidade ao homem. Mais limitada, a sabedoria contida nos ensaios do filósofo inglês não resistiu tão bem à passagem do tempo.

OS SÁBIOS INDIVIDUALISTAS
O ensaísta Ralph Waldo Emerson é, segundo Bloom, "o maior erudito da imaginação norte-americana". A auto-suficiência e a ênfase na liberdade propostas por Emerson seriam inspiração tanto dos partidários de George W. Bush quanto dos opositores que protestam contra a guerra no Iraque. O alemão Friedrich Nietzsche admirava o individualismo de Emerson, mas sua sabedoria era quase oposta à do americano – sua recusa extrema de todas as religiões e sistemas de pensamento levou a um "niilismo sinistro".

OS SÁBIOS DO EROTISMO
O domínio de Sigmund Freud não é, como ele pretendia, a ciência, mas a literatura: central na cultura do século XX, o pai da psicanálise tornou-se, no dizer de Bloom, "o Montaigne de nossa era". Ele pode ser um sábio sombrio em sua visão conflituosa da paternidade e em sua insistência no poder determinante do inconsciente sobre as ações humanas. O francês Marcel Proust – o "mais sábio dos contadores de história" – também foi um grande analista das pulsões eróticas. Ninguém dissecou a natureza do ciúme como ele em Em Busca do Tempo Perdido.

 
 
 
 
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