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Livros Os
pilares da sabedoria O crítico
literário Harold Bloom celebra os autores que ensinam o leitor
a confrontar seus limites mortais  Jerônimo
Teixeira George
Ruhe/The New York Times
 | | Harold
Bloom: polêmica contra o politicamente correto – e contra o "semi-analfabeto"
George W. Bush |
Nunca, antes de Harold Bloom, a crítica
literária foi tão eletrizante. Sob a prosa serena, suavemente irônica
do crítico americano, desenrolam-se embates épicos e justas titânicas
entre os maiores escritores do Ocidente. Bloom tem obsessão pela grandeza,
e seu tema central talvez único é a luta de dramaturgos,
poetas, filósofos, ensaístas e romancistas pelos lugares mais elevados
no panteão da literatura. É essa a linha mestra de A Angústia
da Influência, de 1973, a obra que firmou a reputação
de Bloom no meio acadêmico, e também de O Cânone Ocidental,
de 1994, seu primeiro livro direcionado ao público geral. Em Onde
Encontrar a Sabedoria? (tradução de José Roberto
O'Shea; Objetiva; 319 páginas; 44,90 reais), que chega às livrarias
brasileiras nesta semana, Bloom mais uma vez estabelece confrontos entre os autores
que estuda dos nove capítulos, sete são dedicados a comparações
entre dois escritores (leia quadros ao longo desta reportagem). Aos 75
anos, Bloom, como juiz soberano, também se permite decretar vitórias
por nocaute, em postulações ousadas como "Shakespeare, o mais abrangente
dos intelectos, é capaz de derrotar qualquer filósofo". Na nova
obra, o critério para estabelecer vitórias e derrotas no ringue
letrado é a sabedoria. O curioso é que, embora o autor não
forneça uma definição cabal desse atributo metafísico,
a resposta para a pergunta que dá título a seu livro é muito
clara. Se o leitor estiver em busca de informação, pode recorrer
a um jornal, a uma enciclopédia, à internet. Mas a sabedoria
esta só se encontra na literatura.
O livro deixa a sugestão de que a sabedoria como a grandeza literária
é difícil, talvez impossível de definir. E, no entanto,
quando estamos diante dela, é impossível não reconhecê-la.
Bloom cita excertos de Homero, de Cervantes, de Proust, na convicção
de que a qualidade sábia desses textos será auto-evidente. Cada
um a seu modo, esses autores ensinam o leitor a reconhecer os limites de sua natureza
humana e mortal. Não por acaso, ao longo do livro, Bloom volta e meia faz
referências aos graves problemas cardíacos que o afastaram temporariamente
de seu trabalho na Universidade Yale e que quase o afastaram definitivamente
deste mundo. A julgar por essas pistas, uma definição aceitável
de sabedoria poderia ser algo nesta linha: é aquele conhecimento que faz
o leitor aceitar a morte como inevitável. Talvez por isso os textos religiosos
que quase sempre remetem a uma vida pós-terrena sejam uma
fonte inesgotável de sabedoria (no primeiro capítulo, Bloom analisa
dois livros da Bíblia hebraica, Jó e Eclesiastes).
Mas também existe uma sabedoria secular e até mesmo anti-religiosa,
como provam os textos do filósofo Friedrich Nietzsche e do psicanalista
Sigmund Freud. Não pense o
leitor, porém, que as obras indicadas por Bloom oferecem consolo diante
da morte. Não se encontram obras realmente sábias nas prateleiras
de auto-ajuda. A sabedoria, afinal, está associada à grandeza: ela
obriga o leitor a reconhecer sua insignificância. Isso tampouco quer dizer
que ela será sempre uma lição de amargura e pessimismo: alguns
sábios são, pelo menos na aparência, amenos e esperançosos.
Bloom observa que a sabedoria contida nos Ensaios do francês Michel
de Montaigne é ao mesmo tempo "alegre e sociável". Johann Wolfgang
von Goethe, o maior poeta da língua alemã, também seria um
tipo "afável", com a diferença de que sua sapiência é
ao contrário da de Montaigne elitista: Goethe professava
um ideal de homem de cultura que, no limite, só seria alcançável
por ele mesmo. Nas elevadas ambições
culturais de Goethe, Bloom encontra um antídoto para o que ele chama de
"Escola do Ressentimento". Sob essa expressão irônica, o autor congrega
várias correntes teóricas o desconstrucionismo, o multiculturalismo,
o feminismo que pregam um ensino da literatura pautado pela correção
política, excluindo machos brancos colonialistas como Shakespeare (o centro
do cânone ocidental, de acordo com Bloom) em prol de escritores que representem
a minoria étnica ou sexual mais badalada do momento. A polêmica de
Bloom contra os "ressentidos" vem de longe (é o que dá um colorido
inflamado, quase panfletário, a O Cânone Ocidental). Nesse
embate, o crítico tornou-se alvo de golpes sujos: foi até acusado
de assediar sexualmente uma aluna (a denúncia era para lá de duvidosa:
foi feita pela feminista Naomi Wolf, em 2004, vinte anos depois do suposto incidente).
Engana-se, porém, quem imagina Bloom como um reacionário empedernido:
ele é um opositor mordaz do conservadorismo do presidente George W. Bush
(a quem chama, no novo livro, de "semi-analfabeto"). Onde
Encontrar a Sabedoria? sugere que a tal Escola do Ressentimento teria pelo
menos um antecessor ilustre: suas objeções ideológicas à
grande literatura seguiriam uma tradição inaugurada por ninguém
menos que Platão. Com sua ironia afiada, Bloom reconhece quanto essa avaliação
é injusta com o filósofo grego: os "lemingues intelectuais" que
acusam poetas como o americano Walt Whitman de racismo provavelmente nunca leram
A República. Mas é nesse diálogo platônico que,
pela primeira vez, se levantam reparos morais à poesia. Platão expulsou
os poetas de seu Estado utópico. Sua filosofia idealista não admitia
os deuses demasiado humanos que Homero retratou na Ilíada. Deuses
deveriam ser criaturas perfeitas, de moral irretocável, e não seres
coléricos como Apolo e Atena, divindades que interferiam nos destinos humanos
da Guerra de Tróia. A crítica "politicamente correta" não
passa de uma degeneração do modelo platônico: só o
que fez foi substituir as elevadas preocupações teológicas
de Platão pelas cartilhas políticas da moda.
"Não temos de optar entre Platão e Homero, embora
Platão assim o quisesse", diz Bloom. O crítico, porém, não
está em cima do muro na contenda entre filósofos e poetas: "Se,
em última instância, tivermos de escolher, leiamos Homero". A filosofia,
sugere Bloom, esgota-se nos limites da razão enquanto a poesia é
virtualmente inesgotável: "Mesmo uma longa vida não é bastante
para receber tudo o que Shakespeare é capaz de oferecer". Nesta última
frase, mais uma vez se insinua o horizonte da morte. Septuagenário e cardíaco,
Bloom naturalmente está preocupado com a proximidade do fim. Ele por vezes
assume um tom entre heróico e elegíaco para erguer-se como o último
grande leitor. Essa retórica
um tanto catastrofista deixa a impressão de que, quando Harold Bloom efetivamente
morrer, a mais sapiente literatura ocidental estará indo junto com ele,
por falta de leitores que a apreciem. Não será assim, e Bloom sabe
bem disso ele mesmo insiste na vitalidade imbatível de autores como
Shakespeare e Cervantes. Mas seus exageros dão um bom toque dramático
a livros como Onde Encontrar a Sabedoria?. Afinal, o último grande
crítico humanista parece ser uma figura exemplar dos dias de hoje. Dois
grandes romancistas contemporâneos usaram como personagem o professor de
literatura que se vê sitiado pelo patrulhamento político de sua universidade
o sul-africano J.M. Coetzee, em Desonra, e o americano Philip Roth
(por acaso, um bom amigo de Bloom), em A Marca Humana. Harold Bloom criou
um personagem idêntico: ele mesmo. Onde Encontrar a Sabedoria? talvez
deva ser lido como uma peça ficcional: o monólogo do último
grande crítico relendo seus sábios favoritos.
OS SÁBIOS DA MORAL A
Ilíada, épico de Homero que narra episódios
da Guerra de Tróia, ensina que a realidade é uma luta constante
para que um guerreiro ganhe, outro tem de ser morto e pilhado. Platão
tinha restrições morais ao poema homérico. Em A República,
ele tentou afirmar a superioridade da filosofia sobre a poesia. Mas, ironicamente,
é como escritor que Platão revela sua sabedoria: Bloom lembra que
Platão alcançou a imortalidade poética como criador de diálogos
dramáticos e mitos. OS
SÁBIOS DA PERSONALIDADE O espanhol Miguel de Cervantes e
o inglês William Shakespeare seriam "mestres rivais" na exposição
de como se desenvolve uma personalidade. Shakespeare ensina o leitor a falar consigo
mesmo: seus grandes personagens, como Hamlet, são criaturas auto-suficientes,
solipsistas que só ouvem a si mesmos. Cervantes, ao contrário, mostra
o poder do diálogo, na relação de Dom Quixote com seu escudeiro
Sancho Pança a mais perfeita representação literária
que já se fez de uma amizade. OS
SÁBIOS DO HUMANISMO A sabedoria de Michel de Montaigne está
em seu autoconhecimento: ninguém explorou tanto o próprio íntimo
como o autor francês em seus Ensaios. Apesar dessa marcante individualidade,
Montaigne também exibe uma sabedoria universal, que envolve o leitor com
um tom de conversa íntima. Tal como Montaigne, Francis Bacon acreditava
no conhecimento como uma fonte de soberania humana. Mas também tinha uma
crença ingênua na capacidade da ciência de garantir felicidade
ao homem. Mais limitada, a sabedoria contida nos ensaios do filósofo inglês
não resistiu tão bem à passagem do tempo.
OS SÁBIOS INDIVIDUALISTAS O
ensaísta Ralph Waldo Emerson é, segundo Bloom, "o maior erudito
da imaginação norte-americana". A auto-suficiência e a ênfase
na liberdade propostas por Emerson seriam inspiração tanto dos partidários
de George W. Bush quanto dos opositores que protestam contra a guerra no Iraque.
O alemão Friedrich Nietzsche admirava o individualismo de Emerson,
mas sua sabedoria era quase oposta à do americano sua recusa extrema
de todas as religiões e sistemas de pensamento levou a um "niilismo sinistro".
OS SÁBIOS
DO EROTISMO O domínio de Sigmund Freud não é,
como ele pretendia, a ciência, mas a literatura: central na cultura do século
XX, o pai da psicanálise tornou-se, no dizer de Bloom, "o Montaigne de
nossa era". Ele pode ser um sábio sombrio em sua visão conflituosa
da paternidade e em sua insistência no poder determinante do inconsciente
sobre as ações humanas. O francês Marcel Proust
o "mais sábio dos contadores de história" também foi
um grande analista das pulsões eróticas. Ninguém dissecou
a natureza do ciúme como ele em Em Busca do Tempo Perdido. |
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