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Clima Seis
provas do aquecimento global
Efeitos da mudança climática já podem ser percebidos em
catástrofes que afetam o planeta
 Diogo
Schelp Christof
Stache/AP
 |  | | Inundação
na Alemanha: nunca choveu tanto na Europa | |
Três perguntas
costumam acompanhar a discussão em torno do aquecimento global. A primeira
questiona se o fenômeno é real. A segunda tenta descobrir se os efeitos
das mudanças no clima da Terra são iminentes. E a terceira diz respeito
ao que pode ser feito para impedir que o problema se agrave. Os 141 países
que assinaram o Tratado de Kioto, em vigor desde o início do ano, concluíram
que a resposta às duas primeiras perguntas é sim e que a terceira
pode começar a ser resolvida com a redução da emissão
dos poluentes responsáveis pelo efeito estufa, medida à qual aderiram.
O presidente George W. Bush, dos Estados Unidos, responsáveis por 36% das
emissões mundiais, recusou-se a assinar o tratado porque acha que o aquecimento
global não é uma questão urgente e que os custos econômicos
para revertê-lo seriam excessivos. Os indícios de que Bush está
errado são cada vez mais fortes. Os efeitos da mudança climática
já não podem ser ignorados.
A
Europa viveu nos últimos cinco anos seus verões mais quentes desde
que as temperaturas começaram a ser medidas. Em 2003, mais de 20 000 pessoas,
a maioria idosos, morreram devido ao calor. Em razão da mudança
na dinâmica dos ventos na Europa, causada pelo aquecimento das águas
do Atlântico, o volume de chuvas na Península Ibérica caiu
20% nos últimos 100 anos. As ondas de calor na Europa contribuíram
para tornar a região ainda mais seca e vulnerável a incêndios,
como o que devastou 240 000 hectares de florestas em Portugal, neste ano. Fenômeno
inverso ocorreu no norte do continente. O aquecimento da água aumentou
entre 10% e 40% o volume de chuvas na região. Há indícios
de que as enchentes ocorridas no sul da Alemanha e na Suíça, em
agosto, foram causadas por um processo semelhante, só que no Mediterrâneo.
No ano passado, várias praias italianas foram infestadas por algas tóxicas
e tiveram de ser interditadas para evitar o envenenamento de banhistas. Essas
espécies marinhas são originárias dos trópicos e proliferaram
na região graças ao aquecimento da água do Mediterrâneo.
A mudança na temperatura dos mares também é responsável
pelo aumento na intensidade dos ventos e das chuvas provocados por furacões.
Estima-se que tenham ficado 50% mais fortes nos últimos trinta anos. Até
onde se pode determinar, o mundo está agora mais quente do que em qualquer
momento nos últimos 2000 anos. Matko
Biljak/Reuters
 |  | | Uma
alga venenosa ameaça a ecologia no Mediterrâneo: águas mais quentes | |
É difícil atribuir uma única causa para
esses fenômenos climáticos. Estudos científicos concordam
que, em maior ou menor grau, eles são influenciados pelo aquecimento global,
acelerado pela ação do homem. O aumento e o diminuição
da temperatura fazem parte do ciclo natural do planeta mas o que está
ocorrendo agora é diferente. Nos últimos 120 anos, a temperatura
média anual da superfície terrestre aumentou 1ºC. Pode parecer
pouco se comparado às oscilações diárias de temperatura
num dia de verão, mas, em termos climáticos globais, mudanças
desse tipo têm enormes conseqüências. As geleiras que cobriram
a maior parte do Hemisfério Norte durante a última era glacial,
que terminou 12.000 anos atrás, foram formadas por uma queda de apenas
2ºC na temperatura média do planeta. Ao contribuir para acelerar o
aquecimento, o homem está mexendo com algo que está além
da capacidade de controle da mais avançada tecnologia. Pelos padrões
de tempo da natureza, o Homo sapiens é apenas um piscar de olhos
não mais do que 0,005% do total da idade do planeta. Nosso sucesso
como espécie ocorreu na janela geológica entre o fim da última
era glacial e hoje, marcada por temperaturas amenas. Uma pequena variação
pode ser letal para nosso estilo de vida.
Desde
a Revolução Industrial, os escapamentos dos carros, as termelétricas,
a transformação de florestas em pastos e outros fatores relacionados
à atividade humana aumentaram em 30% o nível de gás carbônico
na atmosfera. Junto com outros gases poluidores, o dióxido de carbono forma
uma camada na atmosfera que, como o telhado de vidro de uma estufa, permite que
os raios solares cheguem à superfície terrestre, mas dificulta a
dissipação do calor para o espaço. Esse processo, chamado
de efeito estufa, acaba deixando o planeta mais quente. "Historicamente, a concentração
de gás carbônico na atmosfera variou bastante devido a processos
naturais, como a decomposição de material orgânico e a erupção
de vulcões", diz o geofísico Paulo Eduardo Artaxo Netto, da Universidade
de São Paulo. "Mas a última vez que o nível esteve tão
alto quanto hoje foi há 3,5 milhões de anos." O efeito mais dramático
dessa poluição é o fato de que todas as grandes coberturas
de gelo da Terra estão derretendo na maioria dos casos, para sempre.
As geleiras encontradas no topo das montanhas e nos pólos ajudam a manter
o equilíbrio climático da Terra, porque refletem os raios solares
e resfriam o ar à sua volta. À medida que os glaciares desaparecem,
as rochas que estão por baixo vêm à tona, absorvendo mais
calor e desencadeando um efeito dominó que aumenta ainda mais o aquecimento
global. Pedro
Costa/AP
 |  | | Combate
a incêndio florestal em Portugal: onda anormal de calor agravou o problema | |
O gelo do Ártico, onde a temperatura aumentou mais do que a média
mundial, é o mais afetado. Cerca de 40% de seu volume sumiu nos últimos
cinqüenta anos, e a previsão é que até 2080 deixará
de existir no verão. Não é preciso viver no Pólo Norte
para perceber as conseqüências disso. O derretimento das calotas polares
é uma das duas principais causas da elevação do nível
da água dos oceanos em 25 centímetros, suficiente para fazer o mar
avançar em até 100 metros nas áreas litorâneas mais
baixas. A outra causa para a elevação do nível dos mares
é o aumento da temperatura média dos oceanos em meio grau nos últimos
sessenta anos quanto mais quente, mais a água se expande e mais
espaço ocupa. "Esse é o maior risco da interferência humana
no clima: a natureza é imprevisível e podem ocorrer fenômenos
que os cientistas jamais imaginavam", disse a VEJA o geofísico americano
Michael Mann, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Entre
as surpresas estão certos fenômenos climáticos registrados
no Brasil. No ano passado, o furacão Catarina, que passou por Santa Catarina,
chamou atenção por ser um acontecimento inédito na região.
"Se outro furacão atingir o Brasil nos próximos dez anos, será
um indício de que se trata, realmente, de um efeito do aquecimento global",
diz Carlos Nobre, meteorologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais,
em São José dos Campos. Há duas maneiras de reagir às
mudanças climáticas no planeta. A primeira é reduzir drasticamente
a emissão de gases poluentes. Esse objetivo está em parte contemplado
no Tratado de Kioto, pelo qual os países signatários se comprometem
a voltar aos níveis de poluição anteriores a 1990. A segunda
medida é procurar adaptar-se da melhor maneira possível às
transformações que o mundo viverá nas próximas décadas.
Essas mudanças são inevitáveis, mesmo que se consiga diminuir
a participação humana no efeito estufa, porque um terço do
aquecimento tem causas naturais. "Cada população terá de
se preparar para um tipo diferente de desequilíbrio climático, como
enchentes, furacões ou secas, e isso terá um custo alto", disse
a VEJA o economista australiano Warwick McKibbin, da Universidade Nacional Australiana,
em Canberra. Assim, se a elevação do nível dos oceanos for
de quase 1 metro como estimado até o fim do século, a cidade do
Recife, em Pernambuco, terá de construir diques para não ser inundada
pelo mar.
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