Edição 1923 . 21 de setembro de 2005

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Economia e Negócios
O preço da voz

A compra da Skype pelo site de leilões
eBay mostra que a telefonia via internet
pode vir a ser um negócio trilionário


Carlos Rydlewski e Carina Nucci


Sergio Dionisio/The New York Times
Meg Whitman, do eBay, e Niklas Zennström, da Skype: juntos, vão somar 200 milhões de clientes e cobrar novas tarifas

O mundo da telefonia nunca mais foi o mesmo desde a descoberta da tecnologia que possibilita ligações pela rede mundial de computadores – a voz por protocolo da internet, ou simplesmente Voip (na sigla em inglês). No sistema convencional, uma chamada de uma hora de São Paulo para um telefone fixo em Nova York custa 46 reais. Se o mesmo telefonema for feito pela internet, sai por apenas 3,5 reais. Já nas ligações de computador para computador, o serviço é quase gratuito. Custa o preço da mensalidade do provedor de internet. Basta comprar um microfone, baixar um programa e falar sem limites com qualquer outro computador ao redor do mundo. Tamanha vantagem levou analistas a prever que um dia todos os serviços telefônicos serão gratuitos e as grandes companhias tradicionais do setor morrerão de inanição por falta de clientes. Esse cenário não se sustenta. Gigantes das telecomunicações já vendem serviços de telefonia pela internet a clientes corporativos e se preparam para alcançar usuários residenciais. Suas tarifas médias despencam, é verdade, mas essas empresas se reciclam, criam novos produtos e ampliam a base de receitas – em suma, adaptam-se à evolução tecnológica.

Na semana passada, mais um fato indicou que o Voip não porá fim à telefonia como negócio, mas a renovará. O site de leilões eBay pagou 2,6 bilhões de dólares pela Skype, a mais popular empresa de telecomunicações da internet. A quantia levantou várias dúvidas. A Skype, independentemente de promessas, faturou modestos 60 milhões de dólares neste ano. Pasmos, alguns analistas chegaram a ver no negócio indícios de uma nova bolha como aquela que implodiu as firmas pontocom no ano 2000. Mas a aquisição não parece um despautério. Isoladamente, ambas as empresas são fenômenos entre os consumidores. Pelo eBay, 157 milhões de clientes compram e vendem diariamente desde carros até álbuns de figurinhas, num total de 55 milhões de itens oferecidos. Criado em 1995, o site atua em 33 países e negocia mais de 1 dólar a cada segundo. Deve faturar 4,3 bilhões de dólares em 2005. Mais de 724.000 comerciantes nos Estados Unidos sobrevivem com vendas pelo eBay. A Skype, por sua vez, tem uma carteira com 54 milhões de clientes e ganha outros 150.000 por dia. Hoje, no mercado americano, o maior do planeta, apenas 1% da freguesia é comum ao eBay e à Skype. A soma da clientela, portanto, é um ponto que justificaria o negócio.

O eBay também quer usar voz nos leilões para que os compradores se sintam mais à vontade na hora de barganhar. A expectativa da empresa é que a conversa direta (cobrada do vendedor, destaque-se) aumente a confiança em negócios como a venda de um jatinho de 5 milhões de dólares – o produto mais caro já negociado no site. Seguindo essa lógica, o bate-papo poderia facilitar a comercialização de automóveis, equipamentos industriais e coleções, categorias que representam 40% das vendas do eBay. Outra vantagem é aumentar o uso do sistema de moeda virtual chamado PayPal, comprado pelo site de leilões em 2002.

A nova aquisição feita pelo eBay trouxe o temor de que as ligações gratuitas entre computadores estejam com os dias contados. Estimativas apontam que, dos 54 milhões de clientes da Skype, apenas 5 milhões paguem pelo serviço, pois fazem telefonemas que partem do computador, mas vão para telefones convencionais, seja fixos, seja celulares. Embora o chefão da Skype (o sueco Niklas Zennström e a presidente do eBay, a americana Meg Whitman) neguem, a cobrança não seria uma exceção no processo de difusão de tecnologias. É natural, principalmente na web, que serviços surjam de forma gratuita e, depois de disseminados, mordam o bolso dos consumidores. A própria internet é um caso. Atualmente, o acesso sem cobrança é raro. Quando existe, normalmente vem acoplado a uma série de subprodutos pagos.

Empresas como Microsoft, Google e Yahoo! já haviam tentado seduzir a Skype. Provavelmente ofereceram bem menos do que o eBay, mas não desistiram de investir nesse ramo. Ao contrário, as três adquiriram pequenas firmas que dominam a tecnologia de voz sobre a internet. Os negócios em torno do Voip movimentarão 82 bilhões de dólares em 2005, o equivalente ao PIB do Chile. Em 2007, devem atingir 196,5 bilhões de dólares e podem chegar a trilhões quando avançarem sobre o mercado de telefonia. O sistema contabilizou 10 bilhões de minutos de conversas em 2001. Em 2005, atingiu 72 bilhões de minutos, num crescimento de 620%. A Cisco, gigante na telefonia pela rede, é uma das beneficiárias desse boom. "Para vender o nosso primeiro milhão de equipamentos de Voip demoramos 36 meses. Já o segundo milhão fizemos em treze meses, o terceiro, em oito, e o quarto, em seis meses", disse a VEJA o presidente mundial da companhia, John Chambers. E a tendência da voz pela internet parece irreversível. "É como escolher entre o lampião a gás e a luz elétrica", diz Edward Younker, da consultoria Gartner. "Quando o mundo avança, não há volta."

 

 
 
 
 
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