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Economia e Negócios
O preço da voz
A compra da Skype pelo site de leilões
eBay mostra que a telefonia via internet
pode vir a ser um negócio trilionário

Carlos Rydlewski e Carina Nucci
Sergio Dionisio/The New York Times
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| Meg Whitman, do eBay, e Niklas Zennström,
da Skype: juntos, vão somar 200 milhões de clientes e cobrar
novas tarifas |
O mundo da telefonia nunca mais
foi o mesmo desde a descoberta da tecnologia que possibilita ligações
pela rede mundial de computadores a voz por protocolo da
internet, ou simplesmente Voip (na sigla em inglês). No sistema
convencional, uma chamada de uma hora de São Paulo para um
telefone fixo em Nova York custa 46 reais. Se o mesmo telefonema
for feito pela internet, sai por apenas 3,5 reais. Já nas
ligações de computador para computador, o serviço
é quase gratuito. Custa o preço da mensalidade do
provedor de internet. Basta comprar um microfone, baixar um programa
e falar sem limites com qualquer outro computador ao redor do mundo.
Tamanha vantagem levou analistas a prever que um dia todos os serviços
telefônicos serão gratuitos e as grandes companhias
tradicionais do setor morrerão de inanição
por falta de clientes. Esse cenário não se sustenta.
Gigantes das telecomunicações já vendem serviços
de telefonia pela internet a clientes corporativos e se preparam
para alcançar usuários residenciais. Suas tarifas
médias despencam, é verdade, mas essas empresas se
reciclam, criam novos produtos e ampliam a base de receitas
em suma, adaptam-se à evolução tecnológica.
Na semana passada, mais um fato
indicou que o Voip não porá fim à telefonia
como negócio, mas a renovará. O site de leilões
eBay pagou 2,6 bilhões de dólares pela Skype, a mais
popular empresa de telecomunicações da internet. A
quantia levantou várias dúvidas. A Skype, independentemente
de promessas, faturou modestos 60 milhões de dólares
neste ano. Pasmos, alguns analistas chegaram a ver no negócio
indícios de uma nova bolha como aquela que implodiu as firmas
pontocom no ano 2000. Mas a aquisição não parece
um despautério. Isoladamente, ambas as empresas são
fenômenos entre os consumidores. Pelo eBay, 157 milhões
de clientes compram e vendem diariamente desde carros até
álbuns de figurinhas, num total de 55 milhões de itens
oferecidos. Criado em 1995, o site atua em 33 países e negocia
mais de 1 dólar a cada segundo. Deve faturar 4,3 bilhões
de dólares em 2005. Mais de 724.000 comerciantes nos Estados
Unidos sobrevivem com vendas pelo eBay. A Skype, por sua vez, tem
uma carteira com 54 milhões de clientes e ganha outros 150.000
por dia. Hoje, no mercado americano, o maior do planeta, apenas
1% da freguesia é comum ao eBay e à Skype. A soma
da clientela, portanto, é um ponto que justificaria o negócio.
O eBay também quer usar
voz nos leilões para que os compradores se sintam mais à
vontade na hora de barganhar. A expectativa da empresa é
que a conversa direta (cobrada do vendedor, destaque-se) aumente
a confiança em negócios como a venda de um jatinho
de 5 milhões de dólares o produto mais caro
já negociado no site. Seguindo essa lógica, o bate-papo
poderia facilitar a comercialização de automóveis,
equipamentos industriais e coleções, categorias que
representam 40% das vendas do eBay. Outra vantagem é aumentar
o uso do sistema de moeda virtual chamado PayPal, comprado pelo
site de leilões em 2002.
A nova aquisição
feita pelo eBay trouxe o temor de que as ligações
gratuitas entre computadores estejam com os dias contados. Estimativas
apontam que, dos 54 milhões de clientes da Skype, apenas
5 milhões paguem pelo serviço, pois fazem telefonemas
que partem do computador, mas vão para telefones convencionais,
seja fixos, seja celulares. Embora o chefão da Skype (o sueco
Niklas Zennström e a presidente do eBay, a americana Meg Whitman)
neguem, a cobrança não seria uma exceção
no processo de difusão de tecnologias. É natural,
principalmente na web, que serviços surjam de forma gratuita
e, depois de disseminados, mordam o bolso dos consumidores. A própria
internet é um caso. Atualmente, o acesso sem cobrança
é raro. Quando existe, normalmente vem acoplado a uma série
de subprodutos pagos.
Empresas como Microsoft, Google
e Yahoo! já haviam tentado seduzir a Skype. Provavelmente
ofereceram bem menos do que o eBay, mas não desistiram de
investir nesse ramo. Ao contrário, as três adquiriram
pequenas firmas que dominam a tecnologia de voz sobre a internet.
Os negócios em torno do Voip movimentarão 82 bilhões
de dólares em 2005, o equivalente ao PIB do Chile. Em 2007,
devem atingir 196,5 bilhões de dólares e podem chegar
a trilhões quando avançarem sobre o mercado de telefonia.
O sistema contabilizou 10 bilhões de minutos de conversas
em 2001. Em 2005, atingiu 72 bilhões de minutos, num crescimento
de 620%. A Cisco, gigante na telefonia pela rede, é uma das
beneficiárias desse boom. "Para vender o nosso primeiro milhão
de equipamentos de Voip demoramos 36 meses. Já o segundo
milhão fizemos em treze meses, o terceiro, em oito, e o quarto,
em seis meses", disse a VEJA o presidente mundial da companhia,
John Chambers. E a tendência da voz pela internet parece irreversível.
"É como escolher entre o lampião a gás e a
luz elétrica", diz Edward Younker, da consultoria Gartner.
"Quando o mundo avança, não há volta."

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