|
|
Ambiente Política
da destruição
Fraudes envolvendo
madeireiros e petistas são bem maiores do que se pensava  Leonardo
Coutinho
Em junho, uma reportagem de VEJA revelou que, na
cidade paraense de Anapu, às margens da Transamazônica, uma quadrilha
que reúne parlamentares petistas e funcionários do Ibama e do Incra
liberou a exploração e o trânsito de madeira roubada em troca
de 300.000 reais dados por madeireiros para campanhas políticas. Pelo menos
6.000 viagens foram feitas por caminhões marcados com o adesivo-senha inventado
para a liberação do transporte, "oPTtante do Plano Safra Legal 2004"
com a sigla do partido em destaque. A denúncia causou uma onda de
desmentidos, mas o projeto acabou cancelado pelo Ibama, funcionários foram
afastados e uma sindicância foi aberta para a apuração das
responsabilidades. O caso foi parar na CPI da Biopirataria, da Câmara dos
Deputados, e, depois de dois meses, não só se confirmaram as irregularidades
como também se descobriu um sistema organizado de pilhagem da floresta
envolvendo o dirigente principal do Ibama no Pará, Marcílio Monteiro,
e sua ex-mulher, a senadora Ana Júlia Carepa, ambos do PT. "Essas denúncias
são de uma quadrilha que quer me derrubar do Ibama", diz Monteiro.
No primeiro depoimento colhido sobre o caso na CPI, o presidente do Sindicato
dos Reflorestadores do Pará, Mário Rubens de Souza Rodrigues, revelou
outro esquema de pagamento de propina, sediado no comitê da senadora, na
época candidata à prefeitura de Belém. Rodrigues deu aos
deputados o número de uma conta bancária da assessora parlamentar
Maria Joana da Rocha Pessôa, que foi coordenadora da campanha petista em
Belém. Enquanto a tropa de choque do PT na CPI fazia de tudo para evitar
a quebra do sigilo bancário de Maria Joana, ela mesma entregou um extrato
de uma de suas contas-correntes mostrando movimento de 1,5 milhão de reais
no ano passado 80% disso apenas nos dois meses anteriores ao pleito. "Sou
viúva, recebo duas pensões e tenho dois ex-maridos que me ajudam
muito", diz Maria Joana, tentando explicar a movimentação mais de
dez vezes maior do que seu salário anual. Os nomes dos depositantes só
chegarão à CPI nos próximos dias. Na semana passada, o Supremo
Tribunal Federal negou aos petistas um pedido de liminar para evitar o acesso
dos parlamentares às informações bancárias da assessora
petista. Em Belém, uma história revelada
pelo advogado Ismael Antônio de Moraes ajuda a entender de onde vem parte
desse dinheiro. Ele conta que quatro de seus clientes foram procurados pelo também
advogado Arthur Carepa, que ofereceu facilidades na aprovação de
planos de manejo florestal em troca de apoio financeiro para a campanha de sua
irmã, a senadora Ana Júlia. "É tudo mentira", defende-se
Arthur Carepa. Moraes diz que orientou os madeireiros a não aceitar o achaque,
mas os clientes preferiram pagar. Um deles disse ao advogado ter entregado a Maria
Joana 150 000 reais. Outros recursos saíram da cidade de Paragominas, a
320 quilômetros de Belém, considerada o principal pólo produtor
de madeira da Amazônia. Um grupo de madeireiros da região fez uma
caixinha de 500.000 reais. "Fui convidado para fazer parte do consórcio,
mas neguei", revela o dono de uma das mais importantes serrarias em operação
no Pará. Segundo o relator da CPI, o deputado Sarney Filho, do PV do Maranhão,
embora a investigação esteja limitada apenas às doações
de madeireiras, ele incluirá a denúncia contra a assessora da senadora
em seu relatório e pedirá ao Ministério Público e
à Polícia Federal que investiguem o caso. "Isso é perseguição
política", jura a senadora. Casos parecidos
pipocam por toda a Amazônia. Na semana passada, outro ex-caixa de campanha
do PT, Gustavo Mascarenhas da Paixão, denunciou ao juiz e ao promotor de
Justiça de Medicilândia, a 848 quilômetros de Belém,
que o deputado federal José Geraldo e sua mulher, Lenir Trevisan, prefeita
da cidade, montaram um esquema de financiamento de campanha com base em oferta
de garantias para que os madeireiros locais pudessem operar livremente na região.
Paixão denuncia, ainda, o desvio de dinheiro da campanha e a compra de
votos. "A Lenir dava madeira da fazenda do casal
em troca de votos", afirma. José Geraldo nega que ele ou sua mulher sejam
donos de fazenda e que tenham prometido vantagens em troca de apoio financeiro.
"Quem faz essa denúncia tem problema mental", ele diz. "Sou um dos maiores
defensores do meio ambiente no Pará." O
ex-tesoureiro afirma que só denunciou os ex-patrões depois que passou
a ser ameaçado de morte. Garante ter gravados os telefonemas e diz que
já entregou cópias das fitas à Justiça. "A Lenir estava
com tanta sede de dinheiro que foi pedir apoio até para o Regivaldo Galvão",
conta. Galvão é empresário de Altamira e está preso
em Belém, acusado de ser um dos mandantes da morte da freira americana
Dorothy Stang. Segundo a mulher de Regivaldo, a empresária Rosângela
Nunes Galvão, Lenir os procurou pessoalmente para pedir dinheiro. Informado
de que, se não contribuísse, sofreria retaliação,
Regivaldo pagou a confecção de 1.500 camisetas. Rosângela
revela ainda que seu marido entregou 17.000 reais ao tesoureiro da campanha de
outro candidato, Chiquinho do PT, ao ser ameaçado de tornar-se alvo de
acusações de trabalho escravo em uma fazenda. Ela diz ter participado
com o marido de uma reunião coordenada pelos deputados José Geraldo,
federal, e Airton Faleiro, estadual, na qual foram definidos os termos para o
financiamento de campanha em troca de favores no Ibama e no Incra de Altamira.
Faleiro assume ter participado de reuniões que negociaram apoio financeiro
para campanha, nega ter oferecido vantagens e considera a hipótese de seu
nome ter sido usado sem seu conhecimento. "Tem muita gente mal-intencionada",
diz. |