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Justiça Não
pode pairar a dúvida O presidente
do STJ, Edson Vidigal, é envolvido em casos que precisam ser esclarecidos
 Ronaldo
França Dida
Sampaio/AE
 | | Santiago,
no Chile: viagem a seminário com as despesas pagas pela Amil |
A atual temporada de escândalos tem revelado, entre tantas facetas da política
brasileira, a rede de relações promíscuas que se espalhou
sobre o Estado brasileiro. Até agora, diagnosticou-se o problema com maior
nitidez no Congresso e no Poder Executivo. O Poder Judiciário também
não está livre de casos que merecem ser esclarecidos. Pode-se começar
por dois episódios recentes, ambos relacionados ao presidente do Superior
Tribunal de Justiça (STJ), o ministro Edson Vidigal. No primeiro deles,
Vidigal e outros onze ministros do STJ viajaram para o Chile para um seminário,
acompanhados de suas mulheres tudo pago pela Amil, uma das maiores operadoras
de planos de saúde do país. Na semana passada, o próprio
Vidigal proferiu uma decisão que liberou aumento de 26% para quatro operadoras
de planos de saúde, inclusive a Amil. No segundo caso, a Polícia
Federal captou conversas telefônicas de uma das maiores quadrilhas de fraudadores
do país. Nos diálogos, membros da quadrilha se referem diversas
vezes a Vidigal. Por coincidência, foi no apartamento dos enteados do ministro
que os suspeitos todos presos neste momento se instalaram em São
Paulo. Em uma longa conversa com VEJA, o ministro Vidigal deu suas explicações
sobre cada um dos episódios. Antes que se avance qualquer conclusão
sobre eles e sobre a conduta do ministro e de seus pares, é preciso conhecer
melhor os dois casos. O primeiro revela
uma situação clássica e, infelizmente, corriqueira no Brasil,
de promiscuidade entre o poder público e a iniciativa privada. A viagem
foi feita por ocasião do feriado de 7 de setembro. O seminário realizou-se
em Santiago, no Chile. Foi uma curta temporada regada a bons vinhos daquele país
e com todas as mordomias que costumam acompanhar esses rega-bofes. O tema do seminário
pago pela Amil era legislação de planos de saúde, com ênfase
na experiência chilena, país que fez a mais bem-sucedida privatização
da assistência social e médica na América Latina. Antes do
embarque, o processo sobre as operadoras de planos de saúde já estava
nas mãos do ministro Vidigal. "Não tinha idéia de que o seminário
havia sido patrocinado pela Amil. Mas não vejo conflito de interesses.
Essa é uma ética idiota", afirmou Vidigal a VEJA. Ele ainda se queixou
de que a viagem foi cansativa. "Quer dizer que se eu devo no cheque especial não
posso julgar os bancos?", indaga. Bem. De um juiz se espera melhor discernimento
entre a hipótese e a realidade. A favor de Vidigal, ressalte-se que a decisão
dele referendou um parecer favorável da agência reguladora e da Secretaria
de Direito Econômico do Ministério da Justiça. Arivaldo
Chaves/Zero Hora/AE
 | clique
na imagem para ampliá-la  | | Arrieta,
no momento da prisão, e o prédio de luxo em São Paulo (abaixo): documentos
mostram que apartamento que servia à quadrilha foi alugado pelos enteados de Vidigal.
O endereço foi um dos invadidos pela Polícia Federal durante a Operação Tango.
Um fax enviado do gabinete do STJ liberou o uso |
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Qual foi a decisão de Vidigal? Na semana passada, o presidente do STJ suspendeu
uma liminar que limitava os aumentos que quatro dessas empresas de plano de saúde
poderiam dar a seus clientes. O acerto da medida não está em discussão.
O custo dos diagnósticos e tratamentos aumenta em progressão geométrica
no mundo e o Brasil não é exceção. Muito provavelmente,
o pedido da Amil é justo. Mas, depois da viagem ao Chile, também
é justo levantar suspeita sobre o julgamento da liminar. O ministro João
Otávio de Noronha, do STJ, organizador da viagem, justifica assim o evento:
"Os magistrados precisam sair em busca de informação. Meu vínculo
é com o direito, e não com empresas privadas", diz ele. Um observador
de fora tem o direito de enxergar no episódio os contornos de improbidade
administrativa. O caso deverá ser analisado pelo Conselho Nacional de Justiça,
órgão recém-criado com a incumbência de exercer o controle
externo do Judiciário. Sobre o STJ não pode pairar sombra de dúvida.
O tribunal é a instância final das causas não constitucionais
(essas vão para o Supremo Tribunal Federal, STF). É no STJ que aportam
as ações do país inteiro, quando as partes interessadas recorrem
das decisões de juízes e desembargadores.
O segundo caso envolvendo o presidente do STJ está sob investigação
do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza. Em seu poder,
encontra-se um conjunto de gravações de conversas telefônicas
e de documentos. Foram coletados pela Polícia Federal durante a Operação
Tango, que flagrou o empresário argentino Cesar de La Cruz Arrieta em um
esquema de fraudes cujo desvio de dinheiro público pode ter chegado a mais
de 1,5 bilhão de reais. Nas gravações, a quadrilha de Arrieta
refere-se a Vidigal com estranha intimidade. Não há conversas do
próprio Vidigal nas fitas, o que, obviamente, pode significar que os diálogos
são mera bravata de bandidos. Um dado, porém, torna o caso menos
simplório. A quadrilha de Arrieta instalou-se, em São Paulo, justamente
no apartamento dos enteados de Vidigal. O imóvel, um tríplex num
condomínio de alto luxo, foi alugado em maio de 2004 e passou a servir
como base de operações dos homens de Arrieta em São Paulo.
Outro fato que está sendo investigado é se se originou no próprio
gabinete da presidência do STJ um fax endereçado à administração
do condomínio Les Jardins des Jardins, permitindo a entrada e o uso do
apartamento por um dos integrantes da quadrilha. O documento foi enviado em nome
dos três enteados de Vidigal, Rodolpho Augusto Gurgel de Sousa e suas irmãs,
Maria Paula e Ana Catarina. "Não tenho conhecimento desse fax. Se foi enviado,
o foi sem meu conhecimento. Vou periciá-lo. Se for verdade, vou instaurar
um processo administrativo", afirmou Vidigal. Na sexta-feira à noite, o
ministro enviou a VEJA a cópia de um ofício no qual determina a
investigação sobre o uso do aparelho de fax de seu gabinete. "O
apartamento, pelo que sei, estava entregue a uma imobiliária. E ninguém
pede atestado de bons antecedentes quando aluga um imóvel." Mas a coincidência
envolvendo um dos mais altos magistrados do país precisa ser esclarecida.
Otavio
Dias de Oliveira
 | | Edemar
Ferreira, do Banco Santos |
O
argentino Cesar Arrieta, só para lembrar de quem se trata, é velho
conhecido da Justiça. Ficou famoso ao se tornar, na década de 90,
um dos maiores fraudadores da Previdência Social no país. Sua quadrilha
foi presa em abril deste ano, quando a Polícia Federal do Rio Grande do
Sul descobriu uma megaoperação de esquentamento de créditos
tributários duvidosos, sonegação e crimes contra a ordem
tributária nacional. Os bandidos negociavam créditos que ainda estavam
em discussão na Justiça. Ou seja, todo o patrimônio da empresa,
avaliado pelos próprios sócios em cerca de 800 milhões de
reais, se assentaria sobre decisões de juízes que poderiam terminar
sendo julgadas pelo STJ. A ação, por sinal, acabou sendo extinta
na primeira instância e os créditos foram para o lixo. A fachada
de toda a operação era a empresa Vale Couros Trading S/A. A mesma
que aparece como fiadora no contrato de locação do apartamento dos
enteados de Vidigal. Quem assina o contrato é Marcio Pavan, considerado
pela polícia o braço-direito de Arrieta.
As escutas telefônicas feitas pela PF resultaram em mais de 150 CDs acumulados
ao longo de dois anos de investigação. Nelas, há referências
variadas ao nome de Vidigal. Em um dos trechos, os homens de Arrieta indicam que
pretendem contar com a ajuda do presidente do STJ para resolver possíveis
contratempos em uma das maiores operações que estavam sendo executadas
pela quadrilha naquele momento. Tratava-se da venda da Vale Couros Trading para
o Banco Santos, de Edemar Cid Ferreira, que acabou sendo indiciado no mesmo processo
que apura as fraudes de Arrieta. A venda da empresa foi considerada altamente
suspeita pelas autoridades. O Banco Santos, àquela altura, enfrentava a
severa vigilância do Banco Central, já alertado dos problemas de
caixa da empresa de Ferreira. Com a compra da Vale Couros, Edemar teria maquiado
o balanço do Banco Santos, melhorando sua classificação de
risco. Mas o tiro saiu pela culatra porque a Polícia Federal já
estava acompanhando de perto os passos da quadrilha e avisou o Banco Central do
perigo da operação.
Por envolver uma autoridade graduada da República, o Ministério
Público Federal do Rio Grande do Sul encaminhou as escutas e os documentos
ao procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, que os remeteu
ao STF. Na semana passada, Souza pediu novas diligências. O relator do processo
no STF é o ministro Eros Grau. O presidente do STJ pode ter sido apenas
envolvido por uma quadrilha cuja especialidade era buscar o relacionamento com
funcionários públicos em geral e os poderosos em particular. É
exatamente isso o que tem de ser esclarecido. "Sei que há muitas pessoas
tentando me prejudicar, por decisões que eu tomo. É só disso
que se trata nesse caso", afirma Vidigal. Ele mandou ver nos arquivos se em sua
carreira tomou alguma decisão envolvendo Arrieta. Ele diz que negou um
habeas corpus pedido pelo bandido três anos atrás. É para
preservar o próprio Vidigal e a credibilidade da mais alta corte da Justiça
brasileira que os fatos narrados aqui precisam ser apurados a fundo. |