Edição 1922 . 14 de setembro de 2005

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Internacional
Um fiasco mundial

O escândalo do mensalão esconde
a mais desastrosa política externa
da história brasileira

 
Orlando Sierra/AFP
Marco Aurélio, Lula e Amorim na ONU: eles queriam prestígio, mas só colecionam derrotas internacionais

De todas as mistificações do governo Lula, a política externa foi a mais ruinosa. Ao assumir, o presidente e seus colaboradores diretos nesse assunto – o chanceler Celso Amorim, o secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, e o assessor especial Marco Aurélio Garcia – anunciaram uma nova era. A diretriz petista foi a de romper com o passado pragmático da diplomacia brasileira e dar prioridade à busca de uma posição de liderança entre os países em desenvolvimento. Desde o barão do Rio Branco, a tradição do Itamaraty era dimensionar com realismo os recursos do Brasil e traçar estratégias políticas com base nos interesses concretos do país, em lugar de se ater a ideologias ou parcerias infundadas. Ao focar sua estratégia numa "política de prestígio" terceiro-mundista, o Itamaraty deixou de lado os interesses da economia – e não conseguiu nenhum benefício político concreto. O ministro Amorim discorda, como é possível ler na entrevista abaixo, mas o PT produziu a mais desastrosa política externa da história brasileira. Isso é possível conferir na lista a seguir, que reúne as derrotas mais recentes da diplomacia nacional.  

1. Conselho de Segurança da ONU – O Brasil uniu-se à Alemanha, ao Japão e à Índia para reivindicar um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Foi a prioridade da diplomacia nacional nos últimos dois anos. Em troca da promessa de apoio, o Brasil reconheceu a China como uma economia de mercado, coisa que ela não é. Também perdoou dívidas de países africanos, no valor de 350 milhões de dólares (o dobro do que o governo investiu em cultura no ano passado). Para agradar aos países árabes, absteve-se de condenar o genocídio no Sudão e assinou uma declaração que, em última análise, considera democracia e direitos humanos valores relativos.

O resultado: A China uniu-se aos Estados Unidos para descartar o projeto brasileiro de se sentar no Conselho de Segurança. O México e a Argentina deixaram claro que jamais aceitariam a liderança do Brasil. Africanos e árabes também ficaram contra.  

2. Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) – Para consolidar sua aspiração a líder regional, o Brasil apresentou a candidatura do ex-ministro João Sayad à presidência da instituição. Confiou que teria os votos dos países do Mercosul, da Venezuela e dos países caribenhos que o coronel Hugo Chávez compra com o petróleo barato.

O resultado: Paraguai, Uruguai e os países do Caribe votaram no colombiano Luis Alberto Moreno, apoiado pelos Estados Unidos.  

3. Organização Mundial do Comércio (OMC) – Em busca de prestígio internacional, o Brasil tentou eleger o embaixador Luiz Felipe Seixas Corrêa diretor-geral da organização. Para isso, rompeu um acordo com os uruguaios e tentou atrair votos de países da África, do Oriente Médio e da América do Sul.

O resultado: Foi eleito o francês Pascal Lamy. Entre os latino-americanos, só o Panamá votou com o Brasil.  

4. Negociações com a China – Ao reconhecer a China como uma economia de mercado, o Brasil perdeu a liberdade para adotar salvaguardas contra as importações chinesas, com prejuízo para a indústria brasileira. Neste ano, as importações da China cresceram oito vezes mais que as exportações brasileiras para lá.

O resultado: A China declarou-se contra o plano brasileiro de ocupar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança. Pequim também não deixou de boicotar as compras de soja brasileira para forçar a queda dos preços.

5. Comunidade Sul-Americana de Nações – Ansioso por consolidar sua pretensa liderança regional, o governo do PT convocou o lançamento do organismo sem ter o apoio prévio dos participantes.

O resultado: Quatro dos doze presidentes faltaram à cerimônia. A Comunidade nunca se tornou realidade.  

6. Força de paz no Haiti – O governo brasileiro avaliou que a missão militar ficaria no máximo seis meses na ilha, tempo necessário para pacificar o país. Ou seja, que seria fácil e sem riscos.

O resultado – A violência escapou ao controle, e a permanência militar prolongada trouxe o desgaste inevitável com a população local. Os Estados Unidos acham os militares brasileiros despreparados para a missão.

Só mesmo o governo Lula iria se meter no beco sem saída do Haiti e acreditar que se tratava de um atalho para o Conselho de Segurança da ONU.

 

"Não se pode renunciar à grandeza"

O chanceler Celso Amorim conversou com o editor Diogo Schelp sobre a política externa brasileira  

QUAIS OS OBJETIVOS DA POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA?
As prioridades são a América do Sul, o reforço do Mercosul, a aproximação com a África, a cooperação com os grandes países em desenvolvimento, o reequilíbrio nas negociações da Alca, que a nosso ver estavam desequilibradas, e a reforma da ONU.

EM QUAL DESSAS METAS O BRASIL AVANÇOU MAIS?
Na integração da América do Sul. Não só criamos a Comunidade Sul-Americana de Nações, como a base para que o comércio aumentasse 50% em um ano e 40% no outro.

FOI EM VÃO O ESFORÇO DO BRASIL PARA GANHAR UM ASSENTO PERMANENTE NO CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU?
É errado dizer que o Brasil sofreu uma derrota. Estamos buscando reformar um organismo internacional e estamos avançando. É impressionante como tem gente no Brasil torcendo contra. Isso não acontece no Japão, na Alemanha ou na Índia, só no Brasil.  

QUAIS SÃO OS MOTIVOS PELOS QUAIS VALE A PENA SER MEMBRO PERMANENTE DO CONSELHO DE SEGURANÇA?
Trata-se de uma busca de maior equilíbrio nas relações internacionais e de estar no centro de decisões mais importante que existe. Esse tipo de vantagem não se mede em dinheiro. Há muita coisa na vida que não se mede em dinheiro.  

ENTÃO, O ÚNICO BENEFÍCIO É O PRESTÍGIO INTERNACIONAL QUE O BRASIL GANHARIA?
Se tivermos países em desenvolvimento no Conselho de Segurança, a chance de esse organismo ser hostil a essas nações será menor. O Brasil é candidato por ser o maior país da América Latina, ter grande tradição diplomática, fronteiras com dez países e nenhuma guerra há 130 anos. Algumas pessoas querem diminuir o Brasil. Infelizmente para elas, o Brasil é grande. E não pode renunciar à grandeza, como dizia o chanceler Azeredo da Silveira. Você pode renunciar a muitas coisas, mas à grandeza não pode.

 
 
 
 
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