Edição 1923 . 21 de setembro de 2005

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Internacional
Furacão na Casa Branca

Atraso na ajuda para as vítimas do
Katrina faz despencar a aprovação
de George W. Bush


Ruth Costas

Jim Watson/AFP
Bush confere os estragos em Nova Orleans: visita só depois de quatro dias
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Em Profundidade: A era Bush


No dia 29 de agosto, uma segunda-feira, enquanto o furacão Katrina devastava a cidade de Nova Orleans, onde deixaria centenas de mortos e 100.000 desabrigados, o presidente George W. Bush posava para fotos segurando um bolo de aniversário, durante a comemoração dos 69 anos de um senador republicano no Arizona. Só dois dias depois, com os americanos em estado de choque diante da tragédia das pessoas à espera de resgate nas casas inundadas e em abrigos superlotados, Bush finalmente interrompeu as férias e foi a Washington tomar medidas contra os efeitos da catástrofe. E, finalmente, na sexta-feira visitou as áreas atingidas. O que pensar de um presidente que precisa de 48 horas para se dar conta de que estava diante de um dos piores desastres naturais da história dos Estados Unidos? Com a mesma força com que derrubou casas e inundou cidades, o furacão levou embora a imagem que Bush vendeu aos seus cidadãos na campanha para a reeleição do ano passado: a de líder determinado, capaz de garantir a segurança dos americanos em uma situação de emergência. A idéia que eles têm de Bush, agora, é de um presidente lento, isolado num mundo próprio e indiferente ao destino dos cidadãos mais pobres. Sua aprovação caiu para 38%, a menor desde que assumiu o cargo, e 61% dos americanos acham que Bush é o principal culpado pelo atraso no socorro às vítimas do Katrina, que tiveram de esperar quatro dias até que alimentos, água, remédios e transporte começassem a chegar a Nova Orleans.

Em pronunciamento à nação, na semana passada, Bush anunciou um enorme programa de ajuda às vítimas e de reconstrução das áreas devastadas. De quebra, ele tenta com isso recuperar também sua imagem e sua autoridade presidencial. O plano pode chegar a 200 bilhões de dólares, o mesmo valor gasto até agora na ocupação americana do Iraque – não por acaso, outro fator de impopularidade do presidente. Foram três as falhas que levaram a opinião pública a responsabilizar Bush pela incompetência com que seu governo lidou com as conseqüências do furacão. A primeira é anterior à calamidade. Nos quatro anos que se seguiram aos atentados de 11 de setembro de 2001, a Casa Branca foi incapaz de montar um sistema eficiente para minimizar tragédias coletivas, como ataques terroristas e desastres naturais. O excesso de burocracia e a falta de organização tornaram pífia a atuação tanto da Fema, a agência federal responsável pelo socorro em desastres naturais, quanto do Departamento de Segurança Doméstica, um gigante com 18.000 funcionários criado por Bush para agir em situações de emergência.

Um exemplo da ineficiência desses órgãos: os alimentos e remédios enviados por governos e associações internacionais de ajuda ficaram vários dias estocados até que a Fema conseguisse se organizar para levá-los aos moradores isolados em Nova Orleans. A segunda falha de Bush foi a demora em centralizar o socorro às vítimas. Isso só foi feito cinco dias depois da passagem do furacão, quando foram enviados 7.000 soldados para garantir a segurança da cidade, àquela altura tomada por saqueadores e baderneiros. A terceira falha é a mais grave a médio prazo: o isolamento do presidente. A governadora do estado da Louisiana, Kathleen Blanco, levou horas tentando falar diretamente com Bush para pedir socorro. "A idéia de que o presidente é inacessível e vive numa bolha, cercado de assessores que evitam contrariá-lo, começou a ganhar força nos Estados Unidos", disse a VEJA o cientista político americano Nolan McCarty, da Universidade Princeton.

O desastre expôs também a negligência do Estado em relação aos mais pobres. Os habitantes de Nova Orleans que não tinham carro ou dinheiro para atender ao pedido de evacuação da cidade, antes da passagem do furacão, foram deixados à própria sorte. Doentes e idosos morreram afogados em hospitais e clínicas alagadas porque não havia quem os tirasse de lá. Trinta e sete milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza nos Estados Unidos – o equivalente a toda a população da Argentina. Ao jogar os holofotes sobre essa realidade oculta do país, o incidente lembrou aos americanos que Bush foi um dos presidentes que mais descuidaram dos pobres nas últimas décadas. "Ele cortou os auxílios do Estado para os pobres enquanto diminuía os impostos dos ricos", disse a VEJA o cientista político Paul Frymer, da Universidade da Califórnia. O ano passado foi o primeiro das últimas cinco décadas em que a pobreza aumentou ao mesmo tempo que a economia cresceu. Nada menos que 1 milhão de pessoas passaram a viver na pobreza. Bush não foi o único culpado pela seqüência de erros que marcaram a resposta ao Katrina. O prefeito de Nova Orleans podia ter feito mais para evacuar a cidade e a governadora demorou para entregar o comando das operações de resgate à Casa Branca. Mas quem quer saber deles? O que os americanos esperavam era mais iniciativa e firmeza de Bush, o presidente que se mostrou rápido para fazer guerras, mas lento para ajudar seus cidadãos.

 
 
 
 
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