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Internacional Furacão
na Casa Branca Atraso na ajuda
para as vítimas do Katrina faz despencar a aprovação
de George W. Bush  Ruth
Costas
Jim
Watson/AFP
 | | Bush
confere os estragos em Nova Orleans: visita só depois de quatro dias | |
No dia
29 de agosto, uma segunda-feira, enquanto o furacão Katrina devastava a
cidade de Nova Orleans, onde deixaria centenas de mortos e 100.000 desabrigados,
o presidente George W. Bush posava para fotos segurando um bolo de aniversário,
durante a comemoração dos 69 anos de um senador republicano no Arizona.
Só dois dias depois, com os americanos em estado de choque diante da tragédia
das pessoas à espera de resgate nas casas inundadas e em abrigos superlotados,
Bush finalmente interrompeu as férias e foi a Washington tomar medidas
contra os efeitos da catástrofe. E, finalmente, na sexta-feira visitou
as áreas atingidas. O que pensar de um presidente que precisa de 48 horas
para se dar conta de que estava diante de um dos piores desastres naturais da
história dos Estados Unidos? Com a mesma força com que derrubou
casas e inundou cidades, o furacão levou embora a imagem que Bush vendeu
aos seus cidadãos na campanha para a reeleição do ano passado:
a de líder determinado, capaz de garantir a segurança dos americanos
em uma situação de emergência. A idéia que eles têm
de Bush, agora, é de um presidente lento, isolado num mundo próprio
e indiferente ao destino dos cidadãos mais pobres. Sua aprovação
caiu para 38%, a menor desde que assumiu o cargo, e 61% dos americanos acham que
Bush é o principal culpado pelo atraso no socorro às vítimas
do Katrina, que tiveram de esperar quatro dias até que alimentos, água,
remédios e transporte começassem a chegar a Nova Orleans.
Em pronunciamento à nação, na semana passada, Bush anunciou
um enorme programa de ajuda às vítimas e de reconstrução
das áreas devastadas. De quebra, ele tenta com isso recuperar também
sua imagem e sua autoridade presidencial. O plano pode chegar a 200 bilhões
de dólares, o mesmo valor gasto até agora na ocupação
americana do Iraque não por acaso, outro fator de impopularidade
do presidente. Foram três as falhas que levaram a opinião pública
a responsabilizar Bush pela incompetência com que seu governo lidou com
as conseqüências do furacão. A primeira é anterior à
calamidade. Nos quatro anos que se seguiram aos atentados de 11 de setembro de
2001, a Casa Branca foi incapaz de montar um sistema eficiente para minimizar
tragédias coletivas, como ataques terroristas e desastres naturais. O excesso
de burocracia e a falta de organização tornaram pífia a atuação
tanto da Fema, a agência federal responsável pelo socorro em desastres
naturais, quanto do Departamento de Segurança Doméstica, um gigante
com 18.000 funcionários criado por Bush para agir em situações
de emergência. Um exemplo da ineficiência
desses órgãos: os alimentos e remédios enviados por governos
e associações internacionais de ajuda ficaram vários dias
estocados até que a Fema conseguisse se organizar para levá-los
aos moradores isolados em Nova Orleans. A segunda falha de Bush foi a demora em
centralizar o socorro às vítimas. Isso só foi feito cinco
dias depois da passagem do furacão, quando foram enviados 7.000 soldados
para garantir a segurança da cidade, àquela altura tomada por saqueadores
e baderneiros. A terceira falha é a mais grave a médio prazo: o
isolamento do presidente. A governadora do estado da Louisiana, Kathleen Blanco,
levou horas tentando falar diretamente com Bush para pedir socorro. "A idéia
de que o presidente é inacessível e vive numa bolha, cercado de
assessores que evitam contrariá-lo, começou a ganhar força
nos Estados Unidos", disse a VEJA o cientista político americano Nolan
McCarty, da Universidade Princeton. O desastre
expôs também a negligência do Estado em relação
aos mais pobres. Os habitantes de Nova Orleans que não tinham carro ou
dinheiro para atender ao pedido de evacuação da cidade, antes da
passagem do furacão, foram deixados à própria sorte. Doentes
e idosos morreram afogados em hospitais e clínicas alagadas porque não
havia quem os tirasse de lá. Trinta e sete milhões de pessoas vivem
abaixo da linha da pobreza nos Estados Unidos o equivalente a toda a população
da Argentina. Ao jogar os holofotes sobre essa realidade oculta do país,
o incidente lembrou aos americanos que Bush foi um dos presidentes que mais descuidaram
dos pobres nas últimas décadas. "Ele cortou os auxílios do
Estado para os pobres enquanto diminuía os impostos dos ricos", disse a
VEJA o cientista político Paul Frymer, da Universidade da Califórnia.
O ano passado foi o primeiro das últimas cinco décadas em que a
pobreza aumentou ao mesmo tempo que a economia cresceu. Nada menos que 1 milhão
de pessoas passaram a viver na pobreza. Bush não foi o único culpado
pela seqüência de erros que marcaram a resposta ao Katrina. O prefeito
de Nova Orleans podia ter feito mais para evacuar a cidade e a governadora demorou
para entregar o comando das operações de resgate à Casa Branca.
Mas quem quer saber deles? O que os americanos esperavam era mais iniciativa e
firmeza de Bush, o presidente que se mostrou rápido para fazer guerras,
mas lento para ajudar seus cidadãos. |