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Comportamento
Click!
Viu, apontou, fotografou
Com a digitalização, tirar fotos
ficou
fácil, rápido e barato. Difícil agora
é conviver com os exageros

Bel Moherdaui
Marcos Fernandes/Luz
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| Roberta, Betina e Daniela gravam seu encontro
com Felipe Dylon: experiência em clicar famosos |
Em plena era eletrônica,
é impressionante a sucessão de aparatos que, de tão
úteis, disseminados e acessíveis, mudam o comportamento
e a vida das pessoas. Foi assim com o computador; foi assim com
o celular; agora, está sendo assim com a câmera fotográfica
digital. Quem tem já nem se lembra mais dos complicados velhos
tempos (uns cinco anos atrás, se tanto) em que fotografar
era sinônimo de registrar situações especiais,
como viagens, aniversários e reuniões de família
quando todo mundo ajeitava a camisa, caprichava na pose e
falava "xis". Não se via a foto na hora, imaginem só.
E ainda era preciso pagar pela revelação e pelas cópias.
Desde que ganhou sua versão digital (um investimento inicial
alto, a partir de 500 reais) e, principalmente, desde que essa versão
digital pôde ser acoplada ao onipresente celular (a partir
de 300), a máquina fotográfica passou a ser sacada
a torto e a direito, muitas vezes sem aviso prévio, em casa,
na rua, no restaurante, na balada, no aeroporto, na sala de aula
o professor não gosta, mas fazer o quê? As vantagens
são fenomenais: todo mundo pode fotografar tudo, a toda hora,
sem custos adicionais. Não gostou da foto? É só
apagar. Se a capacidade da câmera lota, descarrega-se no computador
e fica como zero. Mas existem também aspectos menos entusiasmantes,
incluindo-se aí os flagrantes constrangedores, a intrusão
24 horas e, acima de tudo, o interminável fluxo de imagens
digitais que assolam os computadores. Hoje, por exemplo, ser mãe
(ou pai) não é apenas levar o rebento à festinha
infantil, suportar a algazarra, pôr a dieta em risco no bufê
de docinhos. Depois, ainda é preciso desbastar uma floresta
de amiguinhos até chegar ao que interessa a imagem
digital da própria cria.
Os casos de excesso se multiplicam.
O advogado João dos Santos, de Natal, a quem os três
filhos alcunharam "o fotochato", reconhece: com uma digital nas
mãos, perde o controle. "Eu tenho compulsão por fotografia.
Não tem local que eu não fotografe. Já era
um pouco assim antes, mas, com a fotografia digital, piorei bastante",
diz Santos, que na última viagem à Europa, em agosto
do ano passado, acumulou a insuportável quantidade de 2.500
fotos em quinze dias. Guardou para si? Nada disso montou
um CD editado ("Tirei as repetidas e reduzi para 1.800") e chamou
amigos e família para assistir. "Montei um telão e
fui exibindo", relata, sem pejo. O administrador de rede Ivan Carlos
de Almeida, 23 anos, de São Paulo, alterna a câmera
digital e o celular, mas não sai sem um dos dois, ou os dois.
"Tiro foto em qualquer lugar: um encontro, a rua, a paisagem. Chega
uma hora que cansa. Aí, paro um pouco, converso com as pessoas,
depois continuo", conta. Almeida expõe suas fotos em um blog
(para os não-iniciados: espécie de diário on-line)
e fotolog (o mesmo diário, só que de fotos) e armazena
o acervo cerca de 5.000 imagens , devidamente catalogado
por tema, em um site especializado. "Dou um nome para cada imagem.
O duro é lembrar o nome. Levo no mínimo dez minutos
para achar cada foto", diz.
Segundo dados compilados pela
Kodak, no ano passado foram tirados 3,2 bilhões de fotos
no Brasil, sendo 47% delas digitais isso apesar de haver
muito mais câmeras convencionais no país. A pesquisa
mostra que só 2,4% dos lares brasileiros têm câmera
digital (por volta de 1,3 milhão de unidades), enquanto 35%
possuem máquina com filme (16,8 milhões). A diferença
é que, com a digital, que não requer filme nem revelação,
se tiram quatro vezes mais fotos. A previsão é que
em 2007 existam 9,3 milhões de câmeras digitais ativas
no país, sete vezes mais que agora, sem contar as acopladas
a celular até o fim deste ano, de cada quatro câmeras
digitais no mercado, três estarão em celulares. Para
visualizar o cenário do futuro, basta olhar para o Japão,
país que une a fome (de eletrônicos, em particular
celulares com câmera acoplada) com a vontade de clicar (tudo,
o tempo todo). Ficou célebre a cena num torneio de golfe
em Miyazaki em que as impecáveis tacadas do campeão
Tiger Woods passaram para segundo plano a assistência
estava ocupada demais tirando fotos dele para acompanhar o jogo.
A foto tirada de celular tem
qualidade inferior, é certo, mas atende plenamente aos anseios
da alma de paparazzi que a maioria das pessoas está descobrindo
dentro de si. Trata-se de diversão fácil e barata,
como atestam as estudantes Betina Fernandes e Daniela Carvalho,
de 20 anos. "A gente fotografa tudo, até batida de carro",
diverte-se Betina. "Mas principalmente as amigas, na faculdade,
na balada", emenda Daniela. Embora tenham máquina digital,
dão vazão à fúria fotográfica
principalmente acionando o celular; depois, descarregam no computador
e divulgam "por e-mail, por Messenger, de todo jeito", conta Betina,
contribuinte ativa (mas não invasiva garante que todas
as suas fotos são bem-vindas) da inundação
de imagens, desejadas ou não, nos correios eletrônicos
do planeta. Da mesma forma, pouca coisa escapa das lentes das primas
Maria Alice Lemos Carrazzone, Ludmila Lemos Ramos e Lais Lemos Colla.
"Comprei minha câmera para ajudar em trabalhos de faculdade",
diz Maria Alice, que estuda arquitetura. "Mas ela fica na bolsa,
e eu levo para todos os lugares." Lais, por sua vez, informa, sem
entrar em detalhes: já fotografou amigas até dentro
de um banheiro.
Koji Sasahara/AP
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| Mil imagens: Woods joga enquanto o público
fotografa, Bloom autografa enquanto o público fotografa |
Filippo Monteforte/AFP
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Neste mundo em que todo mundo
é fotógrafo em potencial, torna-se um exercício
inútil tentar proibir fotos, por exemplo, em eventos fechados
(até daquele celebérrimo casamento no castelo de Chantilly,
com sua implacável segurança, vazou uma imagem dos
noivos, de costas e em Brasília continua a ser comentada
a foto do deputado vestido de charuto e mais nada). "É incontrolável.
Sei que nunca vou poder assumir com um cliente a responsabilidade
de proibir fotos", admite José Victor Oliva, que tem uma
empresa de promoção de eventos. O brilho dos flashes
se intensifica 100 vezes quando há celebridade à vista
a foto digital, nesse caso, muitas vezes substitui o autógrafo.
Em um leilão beneficente realizado há três semanas
em São Paulo, Renata Magalhães Gouvêa e Ana
Cecilia Campos, ambas de 13 anos, encantavam-se com a chance de
posar ao lado de Paulo Vilhena e Junior. "Autógrafo muitas
vezes não dá tempo de pegar. Mas foto a gente tem
de monte: Felipe Dylon, Ana Maria Braga, Carolina Dieckmann", enumera
Ana Cecilia, enquanto aponta a câmera para o próximo
clique na mira, a atriz Danielle Winits. Perto dali, Daniela
Carvalho, Betina Fernandes e Roberta Ferrua eternizam mais um momento
inolvidável junto de Felipe Dylon. "Sem dúvida, o
Felipe é dos mais simpáticos entre os famosos. Sempre
topa posar e sorri", diz a experiente Daniela. Topem ou não
topem, famosos estão cientes de que sair de casa é
ser inevitavelmente ensurdecido por cliques, inconveniência
que, por incrível que pareça, pode ter seu lado bom:
muitas vezes os livra dos pedidos de autógrafo. No último
Festival de Cinema de Veneza, no começo do mês, o ator
Orlando Bloom, enquanto assinava dois ou três caderninhos
de fãs, era clicado por uma multidão.
Na escalada das imagens digitais,
as crianças aprendem cada vez mais cedo a posar e a produzir
suas próprias fotos. "Qualquer coisa engraçadinha
que minha filha faz, ela mesma pede: 'Papai, tira uma fotinho'.
E depois pede para ver", conta o programador Fabio Joaquim da Silva
Junior, de São Paulo. "Já temos mais de 3.000 fotos
da Roberta, que tem 2 anos e meio. Sem contar as que ela mesma tira,
com o celular e a câmera. Fica um pouco confuso, mas sai",
acrescenta. Registrados todos os momentos importantes (e todos os
momentos vão ficando importantes), surge o problema: o que
fazer com as fotos? As opções são 1) guardar
no computador de casa, desordenadamente, como faz a grande maioria;
2) organizar no computador, em um sistema de classificação
que em geral só o dono entende; 3) arquivar em CDs, com ou
sem ordem; ou 4) armazenar em álbuns, por tema, nos sites
especializados, que permitem inclusive que as imagens sejam compartilhadas
sem sobrecarregar o computador do próximo. "Esses álbuns
são uma forma interessante de documentar a história
de cada um. Com o passar do tempo, vão virar uma grande biblioteca,
uma enciclopédia da humanidade", prevê Victor Ribeiro,
diretor de produtos e estratégia do provedor UOL. Difícil
é controlar a avalanche. No UOL, em que o serviço
está disponível a visitantes e assinantes com limite
de fotos por usuário, os exagerados não se apertam:
"Quando chegam ao limite, é comum que criem outra conta",
diz Ribeiro. No iG, gratuito, em duas semanas de existência
o serviço de armazenagem alcançou 8.000 usuários,
e parte deles já lotou os 30 megabytes a que tem direito.
O exagerado mundo novo das fotos
digitais é, em geral, bastante incivilizado (veja
algumas recomendações de bom comportamento virtual
no quadro). Ninguém pede autorização
antes de fazer uma foto, e, na hora de divulgar a obra, prevalece
a ilusão de que os outros adoram ver a aula de natação
de sua filhinha, braçada a braçada. "O primeiro livro
de etiqueta do mundo, de 1560, já dizia: tudo o que é
exagerado incomoda", lembra a professora de boas maneiras Ligia
Marques. O exagero, no entanto, parece inevitável. "Toda
tecnologia nova que vem tornar mais acessível outra já
existente tem tendência a explodir. Num primeiro momento,
o uso dispara. Depois se acomoda, embora em um patamar mais alto
do que o da tecnologia superada", explica Alberto Luiz Albertin,
coordenador da área de tecnologia da informação
da Fundação Getulio Vargas. De fato, até o
celular, um dos aparelhos mais inconvenientes para a vida em sociedade
jamais inventados, vai sendo, aos poucos, domado, com os usuários
aprendendo a desligá-lo no cinema, a tirar o som da campainha
em velório e a não discutir em detalhes o parto da
amiga na fila do supermercado. Sinal de que há esperança
de civilidade no mundo dos cliques digitais.
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