Edição 1923 . 21 de setembro de 2005

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Comportamento
Click!
Viu, apontou, fotografou

Com a digitalização, tirar fotos ficou
fácil, rápido e barato. Difícil agora
é conviver com os exageros


Bel Moherdaui


Marcos Fernandes/Luz
Roberta, Betina e Daniela gravam seu encontro com Felipe Dylon: experiência em clicar famosos

Em plena era eletrônica, é impressionante a sucessão de aparatos que, de tão úteis, disseminados e acessíveis, mudam o comportamento e a vida das pessoas. Foi assim com o computador; foi assim com o celular; agora, está sendo assim com a câmera fotográfica digital. Quem tem já nem se lembra mais dos complicados velhos tempos (uns cinco anos atrás, se tanto) em que fotografar era sinônimo de registrar situações especiais, como viagens, aniversários e reuniões de família – quando todo mundo ajeitava a camisa, caprichava na pose e falava "xis". Não se via a foto na hora, imaginem só. E ainda era preciso pagar pela revelação e pelas cópias. Desde que ganhou sua versão digital (um investimento inicial alto, a partir de 500 reais) e, principalmente, desde que essa versão digital pôde ser acoplada ao onipresente celular (a partir de 300), a máquina fotográfica passou a ser sacada a torto e a direito, muitas vezes sem aviso prévio, em casa, na rua, no restaurante, na balada, no aeroporto, na sala de aula – o professor não gosta, mas fazer o quê? As vantagens são fenomenais: todo mundo pode fotografar tudo, a toda hora, sem custos adicionais. Não gostou da foto? É só apagar. Se a capacidade da câmera lota, descarrega-se no computador e fica como zero. Mas existem também aspectos menos entusiasmantes, incluindo-se aí os flagrantes constrangedores, a intrusão 24 horas e, acima de tudo, o interminável fluxo de imagens digitais que assolam os computadores. Hoje, por exemplo, ser mãe (ou pai) não é apenas levar o rebento à festinha infantil, suportar a algazarra, pôr a dieta em risco no bufê de docinhos. Depois, ainda é preciso desbastar uma floresta de amiguinhos até chegar ao que interessa – a imagem digital da própria cria.

Os casos de excesso se multiplicam. O advogado João dos Santos, de Natal, a quem os três filhos alcunharam "o fotochato", reconhece: com uma digital nas mãos, perde o controle. "Eu tenho compulsão por fotografia. Não tem local que eu não fotografe. Já era um pouco assim antes, mas, com a fotografia digital, piorei bastante", diz Santos, que na última viagem à Europa, em agosto do ano passado, acumulou a insuportável quantidade de 2.500 fotos em quinze dias. Guardou para si? Nada disso – montou um CD editado ("Tirei as repetidas e reduzi para 1.800") e chamou amigos e família para assistir. "Montei um telão e fui exibindo", relata, sem pejo. O administrador de rede Ivan Carlos de Almeida, 23 anos, de São Paulo, alterna a câmera digital e o celular, mas não sai sem um dos dois, ou os dois. "Tiro foto em qualquer lugar: um encontro, a rua, a paisagem. Chega uma hora que cansa. Aí, paro um pouco, converso com as pessoas, depois continuo", conta. Almeida expõe suas fotos em um blog (para os não-iniciados: espécie de diário on-line) e fotolog (o mesmo diário, só que de fotos) e armazena o acervo – cerca de 5.000 imagens –, devidamente catalogado por tema, em um site especializado. "Dou um nome para cada imagem. O duro é lembrar o nome. Levo no mínimo dez minutos para achar cada foto", diz.


Lailson Santos
Roberto Setton

A extravagância em números: Fábio e a mulher, Alessandra, têm mais de 3 000 fotos da filha Roberta, de 2 anos e meio; Almeida tem 5 000 imagens armazenadas em um site e leva dez minutos para achar cada uma; Santos (ao lado), a quem os filhos apelidaram de "fotochato", bateu 2 500 fotografias em quinze dias de viagem à Europa – e depois as mostrou aos amigos

Ricardo Junqueira

Segundo dados compilados pela Kodak, no ano passado foram tirados 3,2 bilhões de fotos no Brasil, sendo 47% delas digitais – isso apesar de haver muito mais câmeras convencionais no país. A pesquisa mostra que só 2,4% dos lares brasileiros têm câmera digital (por volta de 1,3 milhão de unidades), enquanto 35% possuem máquina com filme (16,8 milhões). A diferença é que, com a digital, que não requer filme nem revelação, se tiram quatro vezes mais fotos. A previsão é que em 2007 existam 9,3 milhões de câmeras digitais ativas no país, sete vezes mais que agora, sem contar as acopladas a celular – até o fim deste ano, de cada quatro câmeras digitais no mercado, três estarão em celulares. Para visualizar o cenário do futuro, basta olhar para o Japão, país que une a fome (de eletrônicos, em particular celulares com câmera acoplada) com a vontade de clicar (tudo, o tempo todo). Ficou célebre a cena num torneio de golfe em Miyazaki em que as impecáveis tacadas do campeão Tiger Woods passaram para segundo plano – a assistência estava ocupada demais tirando fotos dele para acompanhar o jogo.

A foto tirada de celular tem qualidade inferior, é certo, mas atende plenamente aos anseios da alma de paparazzi que a maioria das pessoas está descobrindo dentro de si. Trata-se de diversão fácil e barata, como atestam as estudantes Betina Fernandes e Daniela Carvalho, de 20 anos. "A gente fotografa tudo, até batida de carro", diverte-se Betina. "Mas principalmente as amigas, na faculdade, na balada", emenda Daniela. Embora tenham máquina digital, dão vazão à fúria fotográfica principalmente acionando o celular; depois, descarregam no computador e divulgam "por e-mail, por Messenger, de todo jeito", conta Betina, contribuinte ativa (mas não invasiva – garante que todas as suas fotos são bem-vindas) da inundação de imagens, desejadas ou não, nos correios eletrônicos do planeta. Da mesma forma, pouca coisa escapa das lentes das primas Maria Alice Lemos Carrazzone, Ludmila Lemos Ramos e Lais Lemos Colla. "Comprei minha câmera para ajudar em trabalhos de faculdade", diz Maria Alice, que estuda arquitetura. "Mas ela fica na bolsa, e eu levo para todos os lugares." Lais, por sua vez, informa, sem entrar em detalhes: já fotografou amigas até dentro de um banheiro.


Koji Sasahara/AP
Mil imagens: Woods joga enquanto o público fotografa, Bloom autografa enquanto o público fotografa
Filippo Monteforte/AFP

Neste mundo em que todo mundo é fotógrafo em potencial, torna-se um exercício inútil tentar proibir fotos, por exemplo, em eventos fechados (até daquele celebérrimo casamento no castelo de Chantilly, com sua implacável segurança, vazou uma imagem dos noivos, de costas – e em Brasília continua a ser comentada a foto do deputado vestido de charuto e mais nada). "É incontrolável. Sei que nunca vou poder assumir com um cliente a responsabilidade de proibir fotos", admite José Victor Oliva, que tem uma empresa de promoção de eventos. O brilho dos flashes se intensifica 100 vezes quando há celebridade à vista – a foto digital, nesse caso, muitas vezes substitui o autógrafo. Em um leilão beneficente realizado há três semanas em São Paulo, Renata Magalhães Gouvêa e Ana Cecilia Campos, ambas de 13 anos, encantavam-se com a chance de posar ao lado de Paulo Vilhena e Junior. "Autógrafo muitas vezes não dá tempo de pegar. Mas foto a gente tem de monte: Felipe Dylon, Ana Maria Braga, Carolina Dieckmann", enumera Ana Cecilia, enquanto aponta a câmera para o próximo clique – na mira, a atriz Danielle Winits. Perto dali, Daniela Carvalho, Betina Fernandes e Roberta Ferrua eternizam mais um momento inolvidável junto de Felipe Dylon. "Sem dúvida, o Felipe é dos mais simpáticos entre os famosos. Sempre topa posar e sorri", diz a experiente Daniela. Topem ou não topem, famosos estão cientes de que sair de casa é ser inevitavelmente ensurdecido por cliques, inconveniência que, por incrível que pareça, pode ter seu lado bom: muitas vezes os livra dos pedidos de autógrafo. No último Festival de Cinema de Veneza, no começo do mês, o ator Orlando Bloom, enquanto assinava dois ou três caderninhos de fãs, era clicado por uma multidão.

Na escalada das imagens digitais, as crianças aprendem cada vez mais cedo a posar e a produzir suas próprias fotos. "Qualquer coisa engraçadinha que minha filha faz, ela mesma pede: 'Papai, tira uma fotinho'. E depois pede para ver", conta o programador Fabio Joaquim da Silva Junior, de São Paulo. "Já temos mais de 3.000 fotos da Roberta, que tem 2 anos e meio. Sem contar as que ela mesma tira, com o celular e a câmera. Fica um pouco confuso, mas sai", acrescenta. Registrados todos os momentos importantes (e todos os momentos vão ficando importantes), surge o problema: o que fazer com as fotos? As opções são 1) guardar no computador de casa, desordenadamente, como faz a grande maioria; 2) organizar no computador, em um sistema de classificação que em geral só o dono entende; 3) arquivar em CDs, com ou sem ordem; ou 4) armazenar em álbuns, por tema, nos sites especializados, que permitem inclusive que as imagens sejam compartilhadas sem sobrecarregar o computador do próximo. "Esses álbuns são uma forma interessante de documentar a história de cada um. Com o passar do tempo, vão virar uma grande biblioteca, uma enciclopédia da humanidade", prevê Victor Ribeiro, diretor de produtos e estratégia do provedor UOL. Difícil é controlar a avalanche. No UOL, em que o serviço está disponível a visitantes e assinantes com limite de fotos por usuário, os exagerados não se apertam: "Quando chegam ao limite, é comum que criem outra conta", diz Ribeiro. No iG, gratuito, em duas semanas de existência o serviço de armazenagem alcançou 8.000 usuários, e parte deles já lotou os 30 megabytes a que tem direito.

O exagerado mundo novo das fotos digitais é, em geral, bastante incivilizado (veja algumas recomendações de bom comportamento virtual no quadro). Ninguém pede autorização antes de fazer uma foto, e, na hora de divulgar a obra, prevalece a ilusão de que os outros adoram ver a aula de natação de sua filhinha, braçada a braçada. "O primeiro livro de etiqueta do mundo, de 1560, já dizia: tudo o que é exagerado incomoda", lembra a professora de boas maneiras Ligia Marques. O exagero, no entanto, parece inevitável. "Toda tecnologia nova que vem tornar mais acessível outra já existente tem tendência a explodir. Num primeiro momento, o uso dispara. Depois se acomoda, embora em um patamar mais alto do que o da tecnologia superada", explica Alberto Luiz Albertin, coordenador da área de tecnologia da informação da Fundação Getulio Vargas. De fato, até o celular, um dos aparelhos mais inconvenientes para a vida em sociedade jamais inventados, vai sendo, aos poucos, domado, com os usuários aprendendo a desligá-lo no cinema, a tirar o som da campainha em velório e a não discutir em detalhes o parto da amiga na fila do supermercado. Sinal de que há esperança de civilidade no mundo dos cliques digitais.

 




Fotos Marcelo Kura/divulgação
 
 
 
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